LUÍS FILIPE AZEVEDO, O UNIVERSO A MEUS PÉS. KANIMAMBO MOÇAMBIQUE
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Luís Filipe Azevedo
O Universo a meus pés. Kanimambo Moçambique
Fotografia: Luís Filipe Azevedo / Texto: Éma Garcez Palha
Edição do Autor / 2021
Português / 18,0 x 28,0 cm / 96 pp.
Brochura
ISBN: nd
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Foi já há alguns anos que Luís Filipe Azevedo viajou e fotografou em Moçambique, país onde nasceu em 1959. O seu olhar estende-se pelo horizonte vasto das paisagens e pelos olhares, vidas e trabalhos das suas populações, de cada pessoa. Este livro, de um formato intimista, sobre o horizontal, a dimensão da paisagem e do olhar, regista a preto e branco o fascínio de um país diferente, também nosso (na memória e no coração), de um outro continente.
Kanimambo é, assim, um obrigado ao país onde nasceu!
Já depois da viagem, a violência atingiu Cabo Delgado. Com esta edição, Luís Filipe Azevedo quer ajudar os que sofrem com a guerra.
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A escritora moçambicana Ema Garcês Palha escreve o texto que dá o título:
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O UNIVERSO A MEUS PÉS
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Corro ando há 4 dias a receber pelos pés este paraíso no corpo. A dor e a magia são um só.
Mas pelo que me fazem e fazem com o meu paraíso, fujo dos homens e do seu diabólico poder e fujo de pé descalço, sentindo os espíritos zangados…
Obrigo-me a, descalça, percorrer 4 dias, apenas seguindo o Sol e os ventos.
Anseio o Porto Seguro, mas caminho sem rumo.
Sem perceber que tenho o universo a meus pés. Não reconheço o paraíso pois a dor queima-me os músculos e a respiração.
Paro.
Um trago de álcool e um puf do cigarro!
Paro.
Meu cheiro não pode ser detetado pelos donos do fogo-de-artifício. Aquele que nos cai em cima e destrói tudo e todos; destrói os caminhos seguros…
Agora não paro… e sinto que correr não é chegar.
Corro … ando… corro…
Com o universo aos meus pés.
A minha fragilidade é a tua fragilidade.
Eu, frágil, sou a tua impotência e a tua desumanidade!
Mas recebo o paraíso no meu corpo e sinto a sua dor, cansaço e tristeza!
Dos abusos, da falta de empatia e compaixão. Por isso já não paro!
Eu pensava, nem pensava, que vivia tão alienada e vivia por viver. É assim que os homens do poder me descrevem. Analfabeta! Alienada! Incapacitada!
Na verdade, viver a vida assim é tão intenso que te tornas um com a natureza circundante.
Ter que provar aos outros humanos que não és pobre nem incapaz é que é difícil. Vivo no meu silêncio pois a língua do poder e seu fogo-de-artifício obriga-me a correr. O fogo-de-artifício perturbou o meu silêncio. Um dia, os pingos do meu silêncio acordarão o som do meu povo. Não se emocionem, não gritarei, suspirarei em chuvas tropicais. Aí não haverá retorno. Pois o meu correr não será o de sobreviver, mas sim o de chegar e ter o universo aos meus pés.
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(Em Cabo Delgado, fogo-de-artifício quer dizer que se vive um ambiente de guerra, de tiros.)
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É também Ema Garcês Palha que faz a Apresentação do livro:
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Este é um livro que foi se escrevendo sozinho e foi juntando as pessoas que trouxeram a voz do povo do norte de Moçambique.
As fotos retratam o sopro das pessoas e o texto o grito. As fotos mostram o passado e o texto o presente.
O livro retrata a riqueza cultural que se esconde numa cortina da pobreza, cortina essa que foi aberta apenas para alguns, os que reconhecem os rubis, o gás, e as madeiras, mas que teima em esconder as tradições a ligação do povo com a natureza. Mesmo descobrindo a beleza do povo moçambicano a visão é imparcial sobre a economia do país, no entanto prende-se na sua riqueza multicultural.
O livro começou a ser elaborado antes do terrorismo em Cabo Delgado, terminando agora com os efeitos maléficos; efeitos esses que contribuíram para que houvesse um êxodo de refugiados para várias províncias circundantes. Este livro dá a conhecer as rotinas culturais e económicas das pessoas assim como a paisagem – em Cabo Delgado, Nampula, Zambézia e Sofala.
A memória do povo encontra-se nas experiências vividas na terra e no mar que tentámos captar através deste micro registo fotográfico.
Com a venda deste livro queremos apoiar os sobreviventes da forma possível onde os lucros revertem a favor das pessoas de Cabo Delgado, através de duas organizações [com] que queremos colaborar pela dedicação incondicional e brio nas ações sustentáveis que trazem para o povo de Cabo Delgado.
O Movimento VAMOZ e a organização MAKOBO.
Agradecemos a si que comprou o livro que acaba de apoiar os sobreviventes desta guerra desumana que acontece em Moçambique desde 2017.
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Luís Filipe Azevedo, Kanimambo, O universo a meus pés, 2021
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Luís Filipe Azevedo nasceu em Moçambique, em 1959, concluiu o curso no Instituto Português de Fotografia e realizou mestrados nos EUA, no Reino Unido e na Alemanha.
Frequentou vários cursos e workshops técnicos, como iluminação de estúdio, análise crítica, estética e composição artística, técnica fotográfica em médio e grande formato, história da arte contemporânea ou história da fotografia.
Foi fotógrafo editor oficial da EXPO’98. Desde 1990, participou, como fotógrafo, em múltiplas exposições individuais e coletivas em vários países, encontrando-se representado tanto em coleções particulares como em museus nacionais e estrangeiros.
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Pode adquirir o livro aqui.
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