DANIEL BLAUFUKS, LISBOA CLICHÊ, 2021
Exposição no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa, ao Campo Grande, de 21 de janeiro a 27 de fevereiro de 2022.
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Daniel Blaufuks
Lisboa Clichê
Fotografia e textos: Daniel Blaufuks / Poemas de: Konstántinos Kávafis, Agostinho da Silva, Mário Cesariny, Álvaro de Campos, Alexandre O’Neill, Tomas Transtromer, Ruy Cinatti, Al Berto, Adília Lopes, Bernardo Soares, Fernando Assis Pacheco, Eugénio de Andrade, Ruy Belo
Lisboa: Edições Tinta da China / Setembro . 2021
Português / 12,0 x 18,0cm / 400 pp, não numeradas
Brochura
ISBN: 9789896716288
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Lisboa era pequena, desmazelada e pobre, não havia muitas exposições, teatro, ou cinema que nos chegassem, mas quando alguém fazia comparações com outras cidades era com Paris, Londres ou mesmo Nova Iorque. Nunca com Bruxelas ou Atenas, capitais europeias mais ao seu tamanho. Existia assim uma pretensão inaudita neste confronto, que só servia para mostrar quão pequeno, desmazelado e pobre era o nosso fado. A única forma de lhe escapar seria fugir, e fugir para onde? Obviamente, para Paris, Londres ou Nova lorque. Muitos foram e de alguns nunca mais ouvimos falar, ou só nas férias, quando voltavam durante umas semanas para nos mostrarem as suas roupas de etiqueta impecável e de modernidade invejável. Eu, que já regressara da Alemanha, só voltei a partir muito mais tarde. Mas a verdade é que esta era a cidade que nos seguia, ou perseguia, como escreveu Kaváfis, e muitos acabaram por vir dar sempre ao mesmo sítio, apesar dos seus anseios. Esse sítio era aqui, na nossa Alexandria. Não era nem em Paris nem em Londres nem em Nova lorque.
E assim, em vez de escolhermos dissipar a vida lá fora, preferimos esbanjá-la aqui em Lisboa. Esbanjávamos a vida indo ver filmes, vendo espectáculos, lendo livros, apaixonando-nos por pessoas, ruas, casas, árvores, poe mas, automóveis, praias, escritores, actores, filmes e sei lá mais o quê, se é para esbanjar, é para esbanjar a sério.»
Daniel Blaufuks, “Lisboa Clichê”
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“Lisboa Clichê” é um livro de pequeno formato, bastantes páginas, impressas a preto e cinza (apenas a capa tem uma fotografia a cor, e mesmo essa é quase a preto e branco). Fotografias e textos, como um caderno de memórias, um diário, escrito à posteriori.
As imagens estão identificadas, quer em pequenas legendas ou em textos mais longos, que podem preencher uma página. Por vezes um poema.
É um livro pessoal, autobiográfico, como tantos na obra de Blaufuks – basta lembrarmo-nos de “Sob céus estranhos”, “London Diaries”, “Uma viagem a S. Petersburg” ou “Tentativa de esgotamento / Attempting Exhaustion”. Não me estou a referir a todos os outros seus livros, se partirmos do princípio que em cada fotografia é o autor que está todo, com a sua história e a sua vida e as suas emoções – como são as fotografias de Blaufuks.
Neste livro é o próprio Daniel Blaufuks que se retrata, na sua vivência da cidade, Lisboa, momentos guardados na película a preto e branco (apresenta como tal).
As fotografias sequenciam-se como memórias, ora de dia, ora de noite, o caminhar pela cidade, a cidade e os lugares que se reconhecem, viagens de táxi, em casa, os amigos, outras figuras públicas, com quem se cruzou, e as pessoas que passam ou simplesmente estão, ele próprio… A fotografia é essa memória da cidade, de cada um, de tantos momentos e lugares e pessoas. Fotografias de luz e de palavras.
Este livro é, também, uma história de Lisboa.
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Se o livro impressiona pela vivência, pela extensa memória escrita com luz (primeiro) e com palavras (depois), num repescar de memórias e, pela dimensão ‘de bolso’, intimista – não um álbum que se folheia, mas uma ‘agenda’ que se vê próximo, a exposição é formada por um conjunto de ‘painéis’: de 6×3, 2×3, 4×3, 7×3 e 6×3 imagens, de grande formato (c. 0,72 x 1,00 m), impressas com a ternura do grão que a película naturalmente tem, potenciado pela grande ampliação (impressão digital), de sensibilidades reduzidas a muito elevadas (a vivência noturna assim obriga), numa fotografia constante, permanente, discreta, mas percebida tantas vezes, sem flash.
Na exposição, as imagens ganham uma cumplicidade distinta, proveniente da sua organização, contígua, imagens acima e abaixo, umas ao lado das outras, diferente da sequência ‘linear’ do livro, em ambos os casos, uma influência cinematográfica nas narrativas.
Robert Frank olha-nos e o seu olhar olha as restantes imagens…
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2022
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Sobre “Lisboa Clichê” e esta exposição, “uma seleção de fotografias de Daniel Blaufuks que integram o livro com o mesmo nome”, lemos na folha de sala:
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São fotografias tiradas em Lisboa entre o final da década de 1980 e o início dos anos 90, às quais Daniel Blaufuks regressou três décadas depois, perante a indelével e acelerada transformação da cidade. Durante o primeiro confinamento, Blaufuks começou a publicar algumas destas fotografias nas suas redes sociais, o que evoluiu para a construção de uma página de Instagram com o título que deu o mote para o livro e a exposição, partilhando imagens e textos de espaços, ambientes e pessoas de uma Lisboa já parcialmente desaparecida, entre março e outubro de 2020. Das mais de 300 fotografias publicadas no livro foram selecionadas 80 para a presente exposição, criando um fluxo cinematográfico, um travelling sobre uma Lisboa vista e intensamente sentida pelo autor, paisagens urbanas muito diversas da cidade de hoje.
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No dizer de Margarida Medeiros, Lisboa Clichê é uma obra «sobre uma cidade que já não existe, e para isso contribui o facto de ser a preto e branco, que associamos ao passado e à memória; uma cidade de cafés sem ser de cadeia, de tascas não trendy; uma cidade também em parte em ruínas, apreciada poeticamente, uma cidade de anúncios luminosos nos telhados, de pessoas em trânsito de fora de Lisboa com assuntos a tratar na capital».
«Clichê» relaciona-se com a técnica da fotografia, mas também com imagens que temos de lugares que correspondem menos à realidade e mais a ideias feitas a partir de preconceitos ou idealizações. Nesta obra, os «clichês» remetem-nos para significações subjetivas e pessoais sobre espaços lisboetas familiares, de consumo habitual pelo círculo de amigos e conhecidos do autor, como o Frágil, o British Bar, a Cinemateca, a Versailles, a Trindade, entre tantas outras paragens naturais nas suas vidas diurnas e, sobretudo, noturnas.
Do Rossio ao Chiado, do Bairro Alto à Estrela, e do Saldanha e às Avenidas Novas, Daniel Blaufuks recorda-nos uma Lisboa das cabines telefónicas, dos últimos alfaiates, das antigas Pastelarias Colombo e Suíça, dos clássicos Condes e Ódeon, do Éden, da Fundação Gulbenkian, mas também dos concertos de Rock, do Ocarina, do Casanostra e do primeiro «mal-fadado» McDonald’s.
São memórias pessoais, fotográficas e poéticas da sua Lisboa, uma cidade de contrastes estre os sonhos de glamour, liberdade e vanguarda, e a consciência da sua verdadeira escala mediana, de uma modernidade ainda titubeante. Uma Lisboa a preto e branco, pré-digital e de ritmo demorado, aqui revelada com alguma nostalgia através de lugares e personagens com a inocência do desejo de voar.
Lisboa Clichê anuncia o início de uma vida mais cosmopolita e liberta, dando lugar a tempos de maior prosperidade e afirmação nacional e internacional, mas em que a crescente massificação traz a inevitável perda de alguns dos marcos identitários que conferiam a estas paisagens a aura poética que Daniel Blaufuks evoca e partilha, de uma outra época, de uma outra Lisboa, «a nossa Alexandria», nas palavras do artista.
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Daniel Blaufuks, Lisboa Clichê, 2021
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A exposição “Lisboa Clichê”, de Daniel Blaufuks apresenta-se em Lisboa, no Museu de Lisboa, Palácio Pimenta, ao Campo Grande, no Pavilhão Preto, de 21 de janeiro a 27 de fevereiro de 2022.
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Folha de sala, rosto.
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Daniel Blaufuks tem trabalhado sobre a relação entre a memória pública e a memória privada, um tema que é uma das constantes interrogações no seu trabalho como artista visual. Tem exposto largamente em museus, galerias de arte contemporânea e festivais, trabalhando principalmente com fotografia e vídeo, apresentando o resultado através de livros, instalações e filmes. Possui um doutoramento da Universidade de Wales, para o qual escreveu sobre Fotografia e Cinema na sua relação com os textos de W. G. Sebald e Georges Perec, assim como a sua relação com a memória e o Holocausto. Em 2016 recebeu o prémio AICA pelas exposições Tentativa de Esgotamento e Léxico.
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Pode conhecer mais sobre a obra de Daniel Blaufuks no FF, aqui.
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