ANTÓNIO CATARINO, TRAVESSIAS

Esta série integrou o Imago Lisboa Photo Festival, no tema Rethinking Landscape / Rethinking Nature, esteve patente na IMAGO Garage até 30.10.2021.

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António Catarino, Travessias

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Sobre o projeto escreve o autor:

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Quando falavam, era em termos negativos: é feio, é plano, é sujo, é monótono… os espanhóis são maus, maldosos, mentirosos, ladrões… Nada neste país, que atravessavam o mais rapidamente possível, sem parar ou o menos possível, encon­trava graça aos seus olhos. Reabastecer gasolina e dormir antes da fronteira, parar para merendar num grande parque de estacionamento rodea­do por outros viajantes que, como eles, odiavam este país pelas mesmas “boas razões”. O que é que eles conheciam? A Nacional 1 que ia da fron­teira até Burgos onde a deixavam para tomar a Nacional 62 até Vilar Formoso, um dos pontos de entrada do país. Estávamos em finais dos anos 60, anos de hemorragia migratória para a França, a Alemanha, ou um país mais distante: outro lu­gar para uma vida melhor. Após o fim das ditadu­ras em meados dos anos 70, os espanhóis come­çaram a melhorar a rede rodoviária e a construir por todo o lado autovias de 4 pistas, com a ajuda de fundos europeus. Foi um enorme benefício para os portugueses que a atravessavam ainda mais rapidamente. Rapidamente percebi que não aderia às suas apreciações, aos seus julgamentos que pensei serem nutridos por “lugares-comuns” que se desenvolveram ao longo de séculos de história conflituosa entre os dois países. Da minha parte, estas grandes paisagens vazias, oprimidas pelo calor de julho, impressionavam-me. O ritmo de grandes aldeias que pontilhavam a paisagem de longe em longe seduziam-me. Estes amplos espaços abertos remetiam-me para certos filmes americanos. Mais tarde entrariam em ressonância com certos fotógrafos ou com a pintura de Ho­pper. Pouco a pouco descobri este país de este a oeste e de norte a sul, por ele mesmo, não ape­nas como uma superfície a atravessar. Há alguns anos, ao regressar, decidi, sempre que possível, voltar pelas antigas estradas; a N62 e a N1… apenas para ver. Depois do almoço, num desses restaurantes de aldeia que atendem principalmente os trabalhadores locais ou aqueles de passagem que trabalham num canteiro d’obras, deixei-me ir para relaxar e tirar algumas fotos da aldeia. Foi ali que vi aquele painel de reclame em azulejos, representando um homem a cavalo, que gabava o mérito dos adubos “Nitrato do Chile”. Naquele momento, diante deste painel desgastado pelo passar do tempo, sob o calor esmagador daquele início de tarde, deixei-me invadir por todas as viagens, todas estas travessias que se amontoaram umas sobre as outras. As lembranças de factos, de lugares e sobretudo de sensações empurravam-se. Elas tomavam lugar nos pisos de uma construção inacabada da qual eu não tinha a certeza da ordem, mas sabia que aquele painel encarnava os alicerces.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2021

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António Bracons, Aspetos da exposição (vídeo), 2021

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A série de António Catarino, “Travessias”, integrou o Imago Lisboa Photo Festival, no tema Rethinking Landscape / Rethinking Nature, esteve patente na IMAGO Garage, na R. do Vale de Santo António 50 A, em Lisboa, de 1 a 30 de outubro de 2021.

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António Catarino

A minha prática fotográfica está quase sempre ligada às viagens: mudar-se, migrar, vaguear. Nasci em Portugal e emigrei, quando criança, para França com a minha família. Talvez isso explique o desejo de viajar.

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Sobre o Imago Lisboa Photo Festival, escreve a organização:

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A 3ª edição do festival IMAGO LISBOA evidencia o seu crescimento consolidado.

O festival organiza-se em torno de duas temáticas: The Family in Transition (integralmente apresentada nas Carpintarias de São Lázaro) e Rethinking Nature/Rethinking Landscape (disseminada em vários espaços), que constituem o mote para reflexão em torno de questões fundamentais da atual sociedade.

Na fusão de ambas as temáticas, apresentam-se três séries de Joakim Esklidsen, cuja obra é exposta pela primeira vez no nosso país e que poderá ser visitada no MNAC – Museu Nacional de Arte Contemporânea.

Também numa nova colaboração com o projeto Salut au Monde, apresenta-se na SNBA (Sociedade Nacional de Belas Artes) a exposição We are Family que bebe a influência da mítica exposição The Family of Man, no MoMA em 1955.

A presença portuguesa está a cargo de Pauliana Valente Pimentel cuja obra Ask the Kids, retrata uma franja de jovens portuenses.

Devido à situação pandémica não foi possível, em 2020, realizar o projeto de leitura de portfolios – Lisboa Meeting Point, onde, supostamente, se expunha a obra de Mikhail Bushkov, artista vencedor. Assim, o seu trabalho Zürich bem como da sua mulher Olga Bushkova apresentam-se na novel Galeria Imago Lisboa.

Marginalmente à programação oficial, devemos salientar a crescente colaboração de galerias e outros espaços expositivos que se associam ao evento.

Em paralelo às exposições estão programadas um conjunto de ações tendentes à motivação e participação de públicos diversos.

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Sobre o Imago Lisboa Photo Festival no FF (a Agenda e outras exposições), aqui e no site do Imago, aqui.

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