CATHERINE PANEBIANCO, NO MEMORY IS EVER ALONE
Esta série integra a exposição “The Family in Transition”, do Imago Lisboa Photo Festival patente nas Carpintarias de São Lázaro, em Lisboa, de 2 a 20.10 e de 29.10 a 06.11.2021.
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A fotografia como memória pessoal – e coletiva, pelo modo como também nos revemos nas imagens de outros. A fotografia traz à memória a vivência, aquele tempo, o lugar, a história, expandindo o espaço para além do ‘retangulo’ da imagem.
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Catherine Panebianco, No Memory is Ever Alone
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No Memory is Ever Alone é um diálogo visual entre mim e o meu pai. Todos os Natais, ele costumava trazer uma caixa de slides que fotografou entre o final da adolescência e o início dos anos 20, e fazia-nos vê-los através de um velho projetor na parede da nossa sala, contando as mesmas histórias todos os anos. São recordações consistentes de uma infância em que nos mudámos muitas vezes, e na qual nunca senti que tivesse tido um “lugar” estável para morar e criar memórias.
Percebi então que, ao projetar os slides na minha paisagem atual, não estava apenas a criar uma conexão entre a vida dele e a minha, mas também um percurso de memórias, com uma ligação muito própria a cada um de nós. Muitos desses slides são da minha mãe, eles permaneceram juntos quase 60 anos. Ela faleceu, e eu sinto que o seu espírito, e todos os espíritos do passado, estão constantemente ao nosso redor. Essas pequenas vinhetas da vida familiar, transportadas para no meu “espaço” atual, confortam-me, pois sinto que ela e outras pessoas ainda estão, por perto, a cuidar de mim. Como se criassem um “lar” para mim, onde quer que eu vá.
Eu quis usar o Photoshop como ferramenta de conexão. O processo partiu da necessidade que senti de encontrar o local certo, e aí unir fisicamente os slides do meu pai, com o espaço em que vivo hoje — um lugar dentro de um lugar, uma memória dentro de uma memória. Espero que estes pequenos fragmentos da vida da minha família, vos permitam, relembrar alguma coisa das vossas famílias.
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2021
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A série integra a exposição “The Family in Transition”, com curadoria de Rui Prata, do Imago Lisboa Photo Festival, patente nas Carpintarias de São Lázaro, na R. de São Lázaro, n.º 72, em Lisboa, de 2 a 20 de outubro e de 29 de outubro a 6 de novembro de 2021 (5.ª feira a domingo, 12:00 – 18:00) (inicialmente de 2 a 31 de outubro).
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Catherine Panebianco é uma artista cujo trabalho almeja consistentemente por um sentido de lugar, captura memórias e persegue as almas daqueles que amamos no presente, e daqueles que nos continuam a cercar desde o nosso passado. O seu trabalho explora a forma como nos conectamos com outras pessoas, com o nosso passado e com nós mesmos.Panebianco recebeu o prémio LensCulture Critics Choice Top Ten 2020, o prémio CENTER’sProject Launch Grant em 2020 e em 2019 fez parte do Top 50 do Critical Mass da Photolucida pela sua série, No Memory is Ever Alone.Esta série também foi finalista do Prémio Hopper, conquistou o 1º lugar no International Photography Awards for Fine Art, foi finalista do National Photography Awards da Sociedade de Fotografia do Texas, e do Prémio de Portfólio do Concurso Internacional de Fotografia da Baía de São Francisco.
O trabalho de Panebianco foi exibido nos Estados Unidos e internacionalmente em locais como: Griffin Museum of Photography, Soho Photo Gallery, o Center for Fine Art Photography e SE Center for Photography. Foi mencionada na Black + White Magazine, The Guardian, D Repubblica Magazine e Lenscratch.
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Sobre a exposição, “The Family in Transition. A Família na atual sociedade”, escreve o curador, Rui Prata:
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A origem e definição da palavra família não é consensual. Na Wikipédia encontramos como significado, “um conjunto invisível de exigências funcionais que organiza a interação dos membros da mesma, considerando-a, igualmente, como um sistema que opera através de padrões transacionais”. Parece-nos ser uma significação bastante abrangente e satisfatória no quadro das mutações da família contemporânea, contrariamente à definição sugerida por Claude Lévi-Strauss. Aquele antropólogo francês sugere que “a família nasce a partir do momento em que haja casamento, passando, portanto, a haver cônjuges e filhos da união destes”. No nosso entender é um significado ultrapassado na medida em que o casamento, embora constitua um sacramento na maioria das culturas, e onde podemos incluir outros rituais de acasalamento, não representa mais a exclusividade da génese dos laços familiares. Com a evolução da sociedade atual, foram-se gerando novas configurações familiares. É verdade que as famílias monoparentais resultam maioritariamente da rutura de um casamento, mas também surgem da possibilidade da mulher gerar um filho de forma independente. Igualmente, a família arco-íris constituída por um casal homossexual e que possui, ou não, uma ou mais filhos a seu cargo, não passa necessariamente pelo casamento.
Existe o estereótipo da família feliz, que coabita em harmonia, mas também existe a família disfuncional, ou aquela onde, por razões diversas, se geram ódios. Situações de disfuncionalidade são inúmeras, mas não resistimos a recordar a mitologia grega na figura de Erígone, filha de Egisto e Clitemnestra. Reza a lenda que, após Agamémnon ter ido para Troia, Clitemnestra, sua esposa, se torna amante de Egisto. Quando Agamémnon regressa, Egisto e Clitemnestra assassinam-no e depois casam-se. Os filhos de Agamémnon e Clitemnestra, Electra e Orestes, decidem vingar o pai e recuperar o reino, o que os leva a assassinar Egisto e a própria mãe. Mas o horror vai mais longe, quando Orestes viola a meia-irmã, a bela Erígone, por quem acaba por se apaixonar.
Assim, acreditamos no facto que no seio familiar, seja ele qual for, o denominador comum assenta, efetivamente, numa estrutura funcional que gere a interação de cada um dos seus membros.
Estamos conscientes de existirem muitas outras possibilidades de mapeamento das relações amorosas e familiares. Contudo, acreditamos que se alcança matéria suficiente para discussão e reflexão em torno da temática eleita pelo festival.
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Sobre esta edição do Imago Lisboa, escreve a organização:
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A 3ª edição do festival IMAGO LISBOA evidencia o seu crescimento consolidado.
O festival organiza-se em torno de duas temáticas: The Family in Transition (integralmente apresentada nas Carpintarias de São Lázaro) e Rethinking Nature / Rethinking Landscape (disseminada em vários espaços), que constituem o mote para reflexão em torno de questões fundamentais da atual sociedade.
Na fusão de ambas as temáticas, apresentam-se três séries de Joakim Esklidsen, cuja obra é exposta pela primeira vez no nosso país e que poderá ser visitada no MNAC – Museu Nacional de Arte Contemporânea.
Também numa nova colaboração com o projeto Salut au Monde, apresenta-se na SNBA (Sociedade Nacional de Belas Artes) a exposição We are Family que bebe a influência da mítica exposição The Family of Man, no MoMA em 1955.
A presença portuguesa está a cargo de Pauliana Valente Pimentel cuja obra Ask the Kids, retrata uma franja de jovens portuenses.
Devido à situação pandémica não foi possível, em 2020, realizar o projeto de leitura de portfolios – Lisboa Meeting Point, onde, supostamente, se expunha a obra de Mikhail Bushkov, artista vencedor. Assim, o seu trabalho Zürich bem como da sua mulher Olga Bushkova apresentam-se na novel Galeria Imago Lisboa.
Marginalmente à programação oficial, devemos salientar a crescente colaboração de galerias e outros espaços expositivos que se associam ao evento.
Em paralelo às exposições estão programadas um conjunto de ações tendentes à motivação e participação de públicos diversos.
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Sobre o Imago Lisboa Photo Festival no FF (a agenda e outras exposições), aqui e no site do Imago, aqui.
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Cortesia: Imago Lisboa Photo Festival.
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