MEMÓRIAS DA CIDADE: LARA JACINTO, DENTRO E FORA . FÁBIO CUNHA, RUA FONTE DO MUNDO
As exposições integram os Encontros da Imagem 2021, projeto Memórias da Cidade, podem ser vistas em Braga, no Museu D. Diogo de Sousa, de 17.09 a 31.10.2021.
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MEMÓRIAS DA CIDADE
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O Festival Encontros da Imagem convidou os fotógrafos Lara Jacinto, do Porto e Fábio Cunha, de Lisboa, para registarem imagens da urbe, em 2020 e 2021, no âmbito do projeto Memórias da Cidade.
Os dois, no quadro de duas residências artísticas, de 15 dias, em Braga, mas em dois momentos separados, “construíram um corpo de trabalho novo, com visões distintas sobre uma cidade ainda a viver tempos de pandemia”, de acordo com Carlos Fontes, diretor dos Encontros.
O projecto Memórias da Cidade, retomado em 2020, depois de interrompido desde 2000, visa a construção de um espólio fotográfico sobre a cidade de Braga.
“Se o ano de 2020, foi fortemente marcado pelo uso da máscara, o de 2021 será também marcante, pelas incertezas vividas provocadas pelas sucessivas vagas pandémicas em resultado da covid-19”, refere Carlos Fontes, citado pelo jornal “O Vilaverdense” (aqui).
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LARA JACINTO, DENTRO E FORA
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Lara Jacinto, Dentro e Fora
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De como as plantas procuram água.
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Que coisas haverá para fotografar numa vida por dentro. As paisagens do espírito e do pensamento – pela vitalidade com que se inscrevem nos pequenos gestos do dia – não podem ser só uma imensa natureza crepuscular precedida de noite. Todos temos curiosidade de saber de que forma a natureza exterior, continua o seu território na vastidão que cada Homem pressente dentro de si.
O fotógrafo procura com a máquina. Movimenta-se de forma precisa relativamente à realidade, sondando de diferentes perspetivas a imensa possibilidade que as coisas têm de ser olhadas. Quando pressente um encontro pára; procura através da objetiva, regista aquele suspiro com um clique – gatilho de uma longa espera de revelação.
De vez em quando os contemplativos têm visões, confirmações e momentos de consolação, como fotografias. Depois voltam de novo ao tempo líquido dos dias, às escorrências que alimentam a sede dos campos, e ao acumular cristalino das moções do espírito em sítios de águas aparentemente paradas. Vivem na contemplação da quietude das árvores, meditando na forma como se mata a sede na profundidade, ou se mergulha os galhos na luz como braços feitos para se erguerem para o céu.
A água enquanto está na terra sabe que tanto pode ser dada ao fruto e a flor, como pode vir a ser alimento dos espinhos; experimenta como o temperamento da corrente, rapidamente lhe turva a limpidez. Talvez por isso quando olhamos para o tanque, para o lago, para a mina e para a profundidade do poço, aquilo que vemos é a urgência de refletir o céu.
– Já reparaste no brilho dos olhos daqueles que foram retratados? São como a noite; um silêncio misteriosamente cravado de cintilações.
Fotossíntese: A máquina capta a luz através da abertura e do tempo. Tudo aquilo em que a luz tocou, surgirá aos nossos olhos por um processo de revelação. A fotografia é sobre a folha. Vemo-la como uma folha alimentada de luz.
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Malheiro Sarmento
Julho 2021
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FÁBIO CUNHA, RUA FONTE DO MUNDO
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Fábio Cunha, Rua Fonte do Mundo
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Fonte do Mundo é o nome de uma rua bracarense, nome em que Fábio Cunha intuiu um ponto de partida, de facto, um ponto de vista sobre a rua e a fotografia. Que a rua é em si mesma uma fonte comum e democrática, isso não poderia passar despercebido a um fotógrafo. Menos imediata é a sua percepção da rua enquanto fonte de mundo: que tudo aquilo que arrumamos sob o termo «mundo» tem origem na rua, tropo do encontro com outras pessoas, com o «não-eu».
É muito possível que esta percepção tenha sido facilitada pelo momento histórico. Fotografado entre vagas pandémicas, tal ideia de mundo já não a damos por garantida. De forma propositada e não paradoxal, o autor escolheu não incluir nestas imagens quaisquer vestígios da pandemia. Esta descomplicação do presente tem muito que se lhe diga. Recriando uma normalidade pré-traumática, apetece dizer que o autor usa a fotografia para deixar aos nossos filhos uma versão do mundo tal como o conhecíamos. Mas, veja-se. Este gesto, que parece histórico, e que não pode deixar de ter um significado pessoal, porque praticado em circunstâncias particulares, desoculta uma verdade menosprezada da fotografia, uma condição geral. O que aparenta ser a vida normal numa fatia de tempo-espaço não é mais que uma ficção da normalidade. (Não existe fora deste conjunto a rua por ele mesmo fabricada. Exteriores, interiores; as estradas, troncos, corolas, desastres, laços, gestos, gente, afectos, não são aqui indícios da rua epónima mas gestos na direcção de dar espessura visual a um ponto de vista). Não é isso, sempre, a fotografia?
O facto de estas imagens terem sido feitas em 2021 altera as regras do jogo, pelo menos, para Fábio Cunha. Sem dúvida por reacção à experiência comum do confinamento, a figura humana ganha aqui prioridade por comparação com obras anteriores. O apelo da proximidade perdida força-o a mudar de pele. As pessoas, que costumavam ser figurantes (formas), sobem a protagonistas. O jogo à la sauvette dá lugar à colaboração e esta levanta dificuldades de outra natureza. (O simples ter de pedir a um estranho que remova a máscara leva o fotógrafo a confrontar-se com máscaras de outra complexidade, frequentemente inamovíveis.) Alternando retratos, retratos de grupos, imagens da paisagem urbana, nas flutuações de perspectiva, pressente-se um fotógrafo navegando à vista, reaprendendo um jogo alterado pela história recente. Não que esta série seja marcada por seduções epistémicas, nem por qualquer ansiedade documental. Tal como não se interessa por explicar o que vê e o modo como vê, o autor não tem proposições definidas ou fins públicos de qualquer tipo a respeito daquilo que está diante da câmara. A fotografia é uma via privada na via pública. Apenas espera de nós que recebamos estas imagens com parecidas estranheza e simpatia àquelas com que o próprio autor as achou e as vê.
De passagem, igual estranheza e simpatia só podem ocorrer na rua, no acto da fotografia. Só os fotógrafos conhecem um contraste entre como se sentem na rua e como se sentem no museu. Numa entrevista, já velho, Walker Evans nota que “a rua torna-se o teu museu; o museu em si torna-se-te prejudicial. Não queres que o teu trabalho nasça da arte; queres que comece da vida e isso passa-se agora na rua.” A fotografia segue um instinto de realidade cuja condição é estar de costas viradas para arte e poder. O fotógrafo sente-se guiado para a rua (meio-cego) por uma esperança irresistível: a de que ela nos mostrará a face desconhecida daquilo que procuramos. Essa face parece-se sempre connosco mas não poderia ser substituída por um espelho. Só o mundo, a rua, a revela. A fotografia tal como aqui a vemos é assim um desporto de rua, um desporto apocalíptico. O de revelar como somos no que não somos. Eis o que estas imagens mostram. Uma ficção sobre a rua enquanto fonte a partir de alguns episódios de auto-reconhecimento por ela possibilitados. Uma definição de fotografia. Génese, apocalipse.
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Humberto Brito
Julho 2021
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As exposições “Dentro e Fora” de Lara Jacinto e “Rua Fonte do Mundo” de Fábio Cunha, integram os Encontros da Imagem 2021, pode ser vista em Braga, no Museu D. Diogo de Sousa, na R. dos Bombeiros Voluntários, de 17 de setembro a 31 de outubro de 2021.
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Lara Jacinto (n.1982, Leiria) vive e trabalha no Porto. Trabalha como fotógrafa independente focada em projectos documentais. O seu trabalho aborda temas contemporâneos centrados em questões sociais, territoriais e emigração. Trabalha regularmente em encomendas para instituições públicas e privadas. O seu trabalho é exibido e publicado regularmente.
É co-fundadora da COLECTIVO, uma plataforma de pesquisa dedicada ao documentário, onde nos últimos 5 anos tem trabalhado no projecto de fotografia documental Thin Line, que procura refletir sobre o significado da Europa de hoje, a partir dos territórios de fronteira europeus, pondo em evidência os desafios de habitar um espaço único.
Leciona na ESMAD, Instituto Politécnico do Porto e Instituto de Produção Cultural e Imagem.
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Fábio Cunha é fotógrafo e artista visual. Mestrado em arquitectura pela Universidade do Porto (FAUP), obteve posteriormente o Mestrado em Fotografia na EFTI – Madrid. Exibe regularmente desde 2014 em diferentes festivais, eventos e galerias de fotografia. Publicou o seu livro “Zona – An Investigation Report” em 2017, que recebeu o DOCfield Dummy Award Fundación Banco Sabadell – Barcelona, sendo selecionado como um dos melhores livros do ano pelo PhotoEspaña. Recentemente recebeu o “Parallel Award” pela exposição colectiva “Urgent Arts of Living” na Kaunas Gallery, Lithuania. Realizou residências artisticas no contexto do festival Encontros da Imagem – Braga e da Kaunas Artistic Residency – Lithuania.
Lecciona na ETIC, onde coordena o curso de fotografia. O seu trabalho encontra-se representado em coleções provadas e públicas.
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Sobre esta edição dos Encontros da Imagem, escreve a Direção:
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Génesis 2:1, foi o tema escolhido para a 31ª edição dos Encontros da Imagem – Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais.2021, que este ano decorre entre 17 de setembro e 31 de outubro. Entre as muitas outras atividades, o Festival engloba 47 exposições distribuídas por 25 espaços distintos, envolvendo a participação de 64 fotógrafos.
“Génesis 2:1” dá continuidade ao tema do ano passado e, nunca um tema escolhido, se enquadrou tão bem no contexto da atualidade.
Um ano depois, voltamos também nós e todo o mundo – em resultado da crise pandémica provocada pelo Covid-19, de novo, a ter que passar por um confinamento generalizado.
Gerou-se a confusão e o caos. Uma incapacidade coletiva para compreender a desordem das coisas, confrontando a humanidade com desafios cada vez mais complexos e exigentes.
A sociedade contemporânea está desde há muito, perante enormes desafios de carácter global: desde as questões relacionadas com o planeta e os seus problemas ecológicos – perda da biodiversidade, alterações climáticas, aquecimento e contaminação – até às civilizações que o habitam, onde muitas delas geram novas desigualdades e indiferença moral – regimes políticos, religiosos, fronteiras, refugiados, racismo, questões de género e muitas outras.
Aquilo a que chamamos progresso, não só deixou de coincidir com a humanização do mundo, como pode acabar por ditar o seu fim. Urge encontrar soluções para acabar com as desigualdades e indiferença em relação ao sofrimento de milhões de pessoas.
Uma interrogação se pode colocar: que futuro nos espera? A crise em que vivemos constitui uma oportunidade para que todos encontremos causas comuns e discutamos as melhores soluções para o que deva ser feito.
Assim, e também com o objetivo de alerta, muitas das exposições agora apresentadas no âmbito dos Encontros da Imagem, para além do seu lado estético, abordam algumas das questões pertinentes que o mundo contemporâneo hoje vive.
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Pode conhecer melhor o trabalho de Lara Jacinto aqui e o de Fábio Cunha aqui.
No FF, pode ver o trabalho de Lara Jacinto aqui e o de Fábio Cunha aqui e a Agenda dos Encontros da Imagem 2021, aqui, sobre outras exposições dos Encontros, aqui.
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Cortesia: Encontros da Imagem
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