IVO CANELAS, SUSPENSION OF DISBELIEF, 2020

Exposição em Loures, na Galeria Municipal Vieira da Silva, de 24.10.2020 a 28.08.2021.

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Ivo Canelas

Suspension of disbelief

Fotografia: Ivo Canelas / Texto: Paulo Piteira, Miguel Caissotti, Arlindo Camacho, joãozero, Margarida Vale de Gato

Loures: Câmara Municipal de Loures / Outubro . 2020

Português /  / 78 pp

Brochura / 600 ex.

ISBN: 9789729142604 

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Este livro é o catálogo da exposição “Suspension of disbelief”, “que dá a conhecer, pela primeira vez, ao grande público, a faceta desconhecida do ator Ivo Canelas enquanto fotógrafo. As trinta fotografias a preto e branco distribuídas por quatro salas, resultam do trabalho desenvolvido ao longo de quase 20 anos. Suspensões do tempo que nos remetem para cenários de cariz quase cinematográfico e teatral, bem representativas daquele que é o background do ator” (Paulo Piteira).

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Miguel Caissotti escreve sobre a exposição:

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(…) O trabalho fotográfico de Ivo Canelas é pois uma absoluta novidade em contexto expositivo institucional e, nesse sentido, poderá ter múltiplas interpretações o título (Suspension of Disbelief) que o próprio artista escolheu para esta selecção de trabalhos. Desde logo porque, accionada a relação “indivíduo/obra de arte”, se estabelecem diversas possibilidades de abrangência para o jogo que esse título entreabre: um actor que, partindo das artes performativas como campo privilegiado de eleição, estabelece agora uma passagem para o campo das artes visuais, transferindo e adaptando-se entre duas constelações de linguagens distintas e práticas discursivas próprias: a performatização que se faz presencialmente ou cujo registo gravado retém o próprio actor in actu, sendo que, em qualquer dos casos, é o próprio actor que se coloca diante do espectador (no palco, na tela de cinema ou no écran de uma televisão). Por oposição, na galeria, a posição física de quem captura a fotografia é partilhada com a posição do que a percepciona enquanto fotografia produzida e em exposição. Pela especificidade técnica, e ao contrário do contexto teatral, a fotografia remete sempre para um instante passado em que o fotógrafo está ausente.

Em exposição, Ivo Canelas apresenta um conjunto de trinta fotografias a preto e branco, em formatos cuja dimensão varia entre os 80×120 e os 100×120 cm. O conjunto, cuja ordenação se desenvolve ao longo de um percurso de quatro salas, constitui uma selecção de um trabalho vasto, cujo processo se terá iniciado há quase vinte anos, quando, na condição de bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, frequentou o Lee Strasberg Theatre and Film Institute, em Nova lorque. A experiência de imersão permanente na multidão incessante e no ritmo pulsante da cidade permitem a analogia com a percepção de invisibilidade e solidão que assolam o estrangeiro. Essa é, não raras vezes, a condição procurada pelo artista que pretende a experiência de criação solitária em território desconhecido, optimizando essa experiência de captação do real, ao abrir e apurar mais os sentidos.

A máquina fotográfica (que Ivo Canelas alternava com um telemóvel com câmara) fizeram assim parte do dispositivo diário de reconhecimento e apropriação da agitação de Nova lorque. Mais tarde, o artista reconheceria a importância que o feedback positivo a uma fotografia sua partilhada nas redes sociais tinha tido para dar largas a esta nova forma de expressão, mantendo actualmente uma página numa rede social para partilha e arquivo desta sua menos conhecida faceta criativa.

Nenhuma das imagens em exposição foi produzida inicialmente com a intenção ou pressuposto de algum dia poder vir a integrar uma exposição, ou, tão pouco, ter existência física fora do âmbito digital, seja no écran do computador, do telemóvel ou das redes sociais. Seleccionadas desse seu imenso arquivo online de partilha de imagens privadas, é sob a condição de fotógrafo amador que prefere situar o seu trabalho, referindo que o mesmo se integra numa lógica assumida de entretenimento e intuição. E de facto, o critério da afecção revela-se como metodologia involuntária, tanto na selecção de temas a fotografar como na edição a que o artista submete todo o material produzido, procurando — por via de aplicações digitais simples — alcançar pequenos efeitos visuais: a procura de eventuais marcas distintivas para a fotografia de Ivo Canelas sugere a identificação de imagens tendencialmente escuras, por vezes desfocadas e (após edição), convertidas para preto e branco, sendo frequentemente trabalhadas nas variações de brilho, definição e contraste, evocando por vezes o efeito da granulação da fotografia analógica. A saturação de cor (que não surge em nenhuma das imagens na presente exposição) é também outro dos recursos que, por vezes, o artista utiliza para algumas situações mais apelativas. Como metodologia de trabalho, o artista procede a ajustes progressivos, não tendo um programa de efeitos ou comandos de edição de imagem pré-determinado.

Em Suspension of Disbelief, entramos por uma primeira sala onde somos recebidos por uma imagem de uma multidão, durante a celebração do Novo Ano Chinês, acontecimento que o artista acompanhou durante um regresso a Nova lorque, em 2019. Outras fotografias desta celebração encontram-se na mesma exposição, explorando diversos aspectos de uma mesma condição: o gosto pela procura de imagens de multidões, obtidas no meio de multidões, frequentemente sem espaço de recuo e sob a tensão de decidir e negociar, sem grande possibilidade de reflexão ou hesitação, o melhor ângulo, a melhor sombra, sem descurar a mais célere e tácita autorização do fotografado.

(…) O detalhe quotidiano que muitas das imagens de Ivo Canelas retêem suscita-nos a reflexão e a dúvida sobre o carácter documental da fotografia. E se de facto, a era do digital derrubou definitivamente as barreiras de acesso aos meios tecnológicos da fotografia, permitindo que cada indivíduo seja um potencial fotógrafo, nem todas as imagens produzidas por estes meios aguentam o choque da super-transformação que a ampliação para um grande formato implica. Não abdicando de uma condição amadorística (o artista é bem conhecedor — enquanto actor — do rigor e disciplina que uma carreira profissional exige), a fotografia de Ivo Canelas respeita, ainda assim, alguns elementos essenciais na construção desse arquivo de imagens em que o gosto e uma sensibilidade pela imagem constroem uma base sólida e coerente. E neste caso, a familiaridade com o dispositivo técnico que acompanha a realização cinematográfica e televisiva favorece uma apetência para procurar determinados pré-requisitos naturais, como a hora solar e a sua relação com o arrastamento das sombras, os pontos de fuga, as relações de escala entre elementos da paisagem, o factor aleatório das pessoas que passam, surgindo do nada. viram a face, atravessando pela frente da máquina fotográfica e tapando ou distorcendo outros focos da atenção que o fotógrafo inicialmente previra. Neste conjunto de pré-requisitos está também a arquitectura e as suas múltiplas possibilidades, quando desafiadas por reflexos de luz, quando vivenciadas por corpos, por gestos ou por intensidades de grão ou, ainda, quando dadas a jogos de ilusão de proporções e perspectiva com outros elementos ou objectos inusitados. Numa outra fotografia da mesma exposição, o artista acompanhou uma outra multidão, nos protestos do movimento “Black Lives Matter” (Lisboa, 2020). Acabou por ser escolhida (entre muitas possibilidades) uma imagem que, pela força, actualidade (e objectividade) da mensagem, conquistou um lugar natural em exposição. Mas se os elementos naturais que operam tecnicamente sobre a luz são uma das preocupações de Ivo Canelas, já o lado performativo é um requisito do fotógrafo que, sendo actor, conhece bem os mecanismos da repetição encenada para optimizar um determinado efeito. (…) A construção de uma possibilidade de narrativa livre é entregue ao visitante no momento em que entra na exposição. A relação afetiva com alguns dos fotografados (se existe) é absolutamente secundária, sendo que, naturalmente, o visitante quer imaginar possíveis laços e razões para tão grandes planos e para alguns detalhes mais enigmáticos. E com esse jogo, também o visitante adere a um jogo de afetividades e intuição, posicionando-se em frente de cada fotografia como o fotógrafo havia já feito anteriormente, ao captar a imagem.

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Margarida Vale de Gato partilha:

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Numa certa medida as pessoas conhecem-se por aquilo que veem. Normalmente mais atenta ao verbal, vou-me safando com os olhos dos outros, com os amigos que me ajudam a ver e, por aí, a conhecer mais mundo, o deles, a conhecer-me a mim. Com o Ivo Canelas tenho “re-parado” em coisas desde 1984/1985, correspondente ao ano letivo que frequentámos juntos na “escola azul da Portela”. 0 9.º. (…)

Sentámo-nos frente a frente, com estas fotografias aumentadas num ecrã plano ao nosso lado, discutindo-as. Ele via uma menina deslumbrada e eu via uma cara com um esgar de cera a ensombrar a festa; onde ele via torrões explodindo na lente eu via pequenos fogos na água; ele via a mulher sonhando a bandeira onde eu via a pessoa-obstáculo; eu via uma citação de Julia Margaret Cameron cuidando da cabeleira prateada do astrónomo, ele dizia é só a minha avó com aquele olhar e a cruz de sempre no peito que não ficou inteira; as árvores refletidas no gargalo dizia ele, eu dizia o álcool das garrafas na rapariga de viés. Concordámos que era bom, que era a vida, deixar as pessoas meterem-se na frente, aparecerem de trás e de costas a ocupar focos imprevistos, embora eu prefira naturezas desimpedidas. O Ivo é mais bicho de pessoas ou as suas simulações, suas transmigrações em manequins, máscaras, bonecos, animais humanizados pela obstinação, e ao contrário – por exemplo, estátuas reveladas em posições e movimentos de gente. Concordámos que os céus ocupavam espaços, personagens importantes, às vezes imponentes, outras entalados, inesperadamente renovados, recortados pelas nuvens, silhuetas de vapor ou de sabão. “Sob céus estranhos” podia ser outro nome para esta exposição (embora ele saiba e possa dizer nomes e contextos que conheço, Nova lorque, Melides, Fátima, Lia, Tomás, Clara, Eugénia não fará diferença digo eu, pois não diz ele, extrai-se a identificação, outros se apropriarão). Há um céu em quase todas as fotografias. Quando não, há uma auréola, uma tiara, um pompom, uma ave com um papo de luz, um rosto banhado que se transfigura e é o rosto que as pessoas não veem em si mesmas nem nos outros quando normais. E, contudo, disse-me o Ivo, agradam-lhe sobremaneira as sombras, longas, longas, maiores do que os objetos, do que as pessoas ou os seus símbolos, as suas chamas às vezes ficam tão pequenas em perspetiva com um contraste, um contraditório que se agiganta. Também lhe agradam as posições novas de onde ver: de baixo para cima, o assalto à expressão facial, de dentro para fora, ou o fora por dentro.

Mas a exposição chama-se “Suspension of Disbelief’, tem um pedigree que vem do romantismo inglês. Terá sido S. T. Coleridge que a cunhou, recordando os propósitos que o haviam motivado e ao seu amigo Wordsworth a comporem as Lyrical Ballads, um cancioneiro moderno (no dealbar do século XIX), que o povo pudesse adotar, reconhecendo comuns experiências e projetando-as na vidência, nas antípodas do populismo que veio logo a seguir e hoje recrudesce. Contou Coleridge na sua Biographia Literaria que o seu encargo para o livro era o de atender a figuras sobrenaturais mas buscando nelas um elo com a natureza interior do humano e uma semelhança de verdade que pudesse “lograr para tais sombras da imaginação essa voluntária suspensão da incredulidade por momentos, que constitui a fé poética.” Quanto ao companheiro de Wordsworth, ficou com a missão de dar às coisas da vida rotineira uma expressão nova, abalar a letargia do costume para ultrapassar a convenção por forma a reconhecer o que tem de encanto e estranho espanto o mundo à frente. O Ivo aposta em ambos estes tabuleiros e também no político, radicado na subjetividade que declara as suas limitações e permite assim ver diferenças e disparidades não como ameaças mas como descobertas, oportunidades de (se) conhecer no mundo, mais vasto e mais dentro.

Como ator, o Ivo sempre soube suscitar a nossa suspensão da incredulidade: nunca foi o meu amigo que ali vi, mas a pessoa da história; agora, como fotógrafo, também não, mas pelo seu olhar sensível posso fazer as minhas histórias, participar nas que nos são comuns, e pressentir, num ponto de fuga, a existência de mais além destes enredos.

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Ivo Canelas, Suspension of disbelief, 2020

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“Suspension of disbelief”, de Ivo Canelas, está em exposição em Loures, na Galeria Municipal Vieira da Silva, no Parque Adão Barata, entre 24 de outubro de 2020 e 28 de agosto de 2021.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2021

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