DANIEL RODRIGUES, A VIAGEM – COMBOIO DE FERRO, MAURITÂNIA
Exposição no Museu Nacional Ferroviário, Entroncamento (20.06 – 15.08), no Museu Ferroviário de Macinhata do Vouga (22.08 – 30.09) e em Vila Velha de Ródão, na Casa de Artes e Cultura do Tejo (15.10 – 30.11) em 2021, Ano Europeu do Transporte Ferroviário.
.
.
.
O Iron Train – Comboio de Ferro – é um dos comboios mais compridos do mundo, com cerca de 2,5 Km, composto quase exclusivamente por vagões carregados com minério de ferro que carregam numa mina a 30 km de Zouérat, no coração do deserto do Sahara, para serem descarregados em cargueiros no porto de Nouadhibouh.
A linha tem uma extensão de 652 km e a viagem, com os vagões carregados, uma duração de 20 a 24 horas, o regresso, vazio, 16 a 20 horas.
«“A Viagem” é uma jornada épica onde residentes, com poucas posses, utilizam o hostil comboio [viajam ilegalmente nos vagões de minério] para visitar parentes na terra natal ou transportar mercadorias diversas, como animais vivos.» A viagem é dificultada pelas grandes amplitudes térmicas sentidas entre o dia e a noite, agravadas pelo vento, devido à deslocação do comboio. Mas o pior são as nuvens de poeira negra do minério de ferro que se eleva dos vagões e que submergem os passageiros, que se entranham na roupa e no corpo.
.
.
Daniel Rodrigues, Iron Train – Comboio de Ferro, Mauritânia, 2016
.
.
A Patrícia Fonseca, da Visão, Daniel Rodrigues contaria:
“Eu sabia que ia ser difícil mas foi bem mais duro do que poderia imaginar. De dia estava imenso calor, à noite gelávamos. E aquele pó de ferro, muito fino e preto, entranha-se em tudo. Levei uns óculos de natação, a achar que me iriam proteger, mas nem um dia duraram, Toda a gente naquele comboio usa lenços e turbantes mas é uma guerra inglória. Depois de regressar a casa, e de ter tomado três banhos, ainda tinha pó preto a sair dos ouvidos.”
Esses três banhos só aconteceram depois de ter aterrado em Lisboa e de ter corrido para apanhar um comboio para o Porto, que partia meia-hora depois do seu avião ter tocado no solo da Portela. Passara 10 dias sem um duche, sem entrar em nada parecido com uma casa de banho. Estava coberto por uma pasta negra, entranhada nas unhas, nos ouvidos, no nariz, nos cabelos.
Sabia que estava sujo mas, quando se sentou no lugar que o seu bilhete indicava, não tinha bem noção do impacto que o seu cheiro iria ter no passageiro do lado. Dois minutos bastaram para que o homem, de forma meio envergonhada, lhe pedisse desculpa, mas tinha mesmo de trocar de lugar… “Claro, eu também faria o mesmo!”, disse-lhe a rir.
.
Em entrevista ao Médio Tejo, diz Daniel Rodrigues:
“Em fevereiro de 2012, quando fui para a Guiné-Bissau de carro, foi a primeira vez que passei na Mauritânia e vi aquele comboio e disse ‘um dia hei-de fazer aquele comboio’. Voltei três vezes à Mauritânia e sempre que voltava dizia o mesmo. Até que em 2016 disse ‘é agora’. Marquei o voo e fui fazer a reportagem”
Ao longo de “13 [10?] dias de viagem, para trás e para a frente”, num dos comboios “mais perigosos do mundo”, contactou com as pessoas e fotografou. Viu “Desde burros a serem carregados, desde 50 ovelhas a serem descarregadas, pessoal a fazer chá ou a comer, famílias. Algo que uma pessoa não está minimamente à espera de ver, acaba por ver lá. E muita sujidade, fiquei completamente preto”.
Refere ainda que “Como a Mauritânia é um dos países mais pobres do mundo (…) os residentes acabam por utilizar o comboio ilegalmente quer para viajar, para visitar os familiares, quer para transportar todos os mantimentos que é preciso na aldeia, desde animais, comida, coisas para obras.”
Conta que o diálogo com as pessoas é sobretudo por gestos, pois embora a língua oficial seja o francês, as pessoas falam sobretudo dialetos locais. A questão que lhe punham era apenas uma: “O que é que você está aqui a fazer?”
.
.
.
António Bracons, Aspetos da exposição, MNF, Entroncamento, 2021.
.
.
.

.
A exposição “Viagem” a viagem épica do “Comboio de Ferro”, Mauritânia, de Daniel Rodrigues, integrada no RAIL FEST – Programação Cultural em Rede, apresenta-se no Museu Nacional Ferroviário, Entroncamento, de 20 de junho a 15 de agosto e no Museu Ferroviário de Macinhata do Vouga, de 22 de agosto a 30 de setembro, em Vila Velha de Ródão, na Casa de Artes e Cultura do Tejo, de 15 de outubro a 30 de novembro de 2021.
.
.
.

Daniel Rodrigues, No Comboio de Ferro, Mauritânia, 2016
.
Daniel Rodrigues, começou a sua carreira no Correio da Manhã e colaborou com a Agência Global Imagens, agência responsável pelas fotografias dos jornais Jornal de Notícias, Diário de Notícias e o Jogo. Colaborou com um vasto leque de órgãos de comunicação nacionais e internacionais como The Wall Street Journal, The Washington Post, Al Jazeera, Helsingin Sanomat, Die Welt, Daily Mail, CNN, BBC, Folha de São Paulo, Courrier Internacional, Expresso e Visão.
No seu percurso já conquistou vários prémios, dos quais destacamos em 2013 o 1º lugar na categoria Daily Life do World Press Photo, em 2015 um 3º lugar com fotógrafo do ano no POYi, em 2016 um 3º lugar como fotógrafo do ano no NPPA-Best of Photojournalism, em 2017 foi considerado o fotógrafo Ibero-Americano do ano no POY LATAM, entre outros prémios e menções honrosas.
.
.
.
Pode conhecer melhor o trabalho de Daniel Rodrigues no seu site, aqui e no FF, aqui.
Pode ler o artigo na Visão (30.05.2017), aqui; ler o artigo e ouvir a entrevista de Ana Rita Cristóvão, do Médio Tejo, a Daniel Rodrigues (19.06.2021), aqui.
.
.
.


















Pingback: AGENDA . EXPOSIÇÕES . JULHO – SETEMBRO . 2021 | FASCÍNIO DA FOTOGRAFIA
Pingback: AGENDA . EXPOSIÇÕES . ABRIL – JUNHO . 2021 | FASCÍNIO DA FOTOGRAFIA
Pingback: AGENDA . EXPOSIÇÕES . OUTUBRO – DEZEMBRO . 2021 | FASCÍNIO DA FOTOGRAFIA