FERNANDO PENIM REDONDO, FLASHBACK – AS CÂMARAS FOTOGRÁFICAS E AS SUAS FOTOGRAFIAS
Exposição na Biblioteca Municipal de Cascais, em S. Domingos de Rana, de 10 de julho a 19 de Agosto de 2021.
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Fernando Penim Redondo começou a fotografar em 1968, na Guiné, enquanto cumpria o serviço militar. Aí comprou uma Asahi Pentax Spotmatic – que podemos ver na exposição patente no Arquivo Municipal de Loures. A partir daí, as viagens passaram a ser a grande oportunidade para fotografar.
Contudo, a grande paixão surgiu em 2012: as câmaras fotográficas, de rolo de filme, fabricadas ao longo do século XX. De então para cá, são já mais de 500 as que integram a sua coleção. Mas esta não é apenas ‘juntar’ câmaras: procura conhecer a sua história: desde o período de fabrico, origem, história… E fotografar. Com o formato de filme próprio (120, 135, 127,…) – ou, em caso de impossibilidade, com película compatível.
Uma câmara nova é assim o pretexto para uma saída, para um passeio ou viagem, para um ou dois rolos. Cada câmara faz sentido com as suas fotografias.
Uma exposição do Fernando é composta pelas fotografias – feita com a câmara e da câmara – e a própria câmara, também em vários casos, exposta. E, a pretexto das câmaras, outras peças ligadas à fotografia: filmes, envelopes de fotografia, cartazes, fotografias dos rolos que, por vezes, vêm no interior da câmara, que retira, manda revelar e imprimir: instantâneos que por vezes permitem identificar por onde a câmara passou…
E, também nesta exposição, uma preciosidade: na revista O Panorama, o artigo publicado em 16 de fevereiro de 1839, que dava eco em Portugal da apresentação da fotografia feita pelo cientista Dominique François Arago, director do Observatório de Paris, secretário permanente da Academia das Ciências e deputado dos Pirinéus-Este, numa comunicação à Academia das Ciências de Paris, em 7 de Janeiro de 1839. Sobre este texto falaremos em breve.
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António Bracons, Fernando Penim Redondo, 2021
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Sobre a sua coleção, escreve Fernando Penim Redondo:
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CONFISSÕES DE UM COLECCIONADOR
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A coleção de câmaras fotográficas antigas é uma espécie de lar da terceira idade, uma Babel de olhares desmemoriados.
As máquinas foram chegando dos quatro cantos do mundo, com seus achaques, deixando para trás, sabe-se lá onde, as suas memórias de celulóide.
Umas têm as lentes toldadas pelas cataratas do vidro, outras disparam devagar na dolorosa artrite dos seus obturadores e outras ainda sofrem da incontinência luminosa causada pelos orifícios nos foles.
Mas todos aqueles olhos que tanto viram ao longo do século XX, nos mais desvairados locais e situações, parecem agora pasmados pelo vazio dos seus interiores negros de onde os homens, invejosos e cansados das imagens fátuas do cérebro, arrancaram as películas em que o tempo se suspendera.
Este Alzheimer fotográfico do já visto só pode ser revertido fotografando outra vez.
A cada nova velha máquina que desperto do seu sono, qual bela adormecida, sinto-me um príncipe encantado.
Excita-me imaginar o que elas sentem quando abrem os seus olhos há tanto tempo cerrados. Quase tudo o que eu lhes possa mostrar, quando as disparo, deve ser para elas uma espantosa novidade.
Umas, posso imaginá-las na Chicago elegante dos anos vinte e tento perceber o seu choque quando abrem a lente para a arquitectura vanguardista da Expo.
Outras, podem muito bem ter servido para um fazendeiro boer fotografar as suas orgulhosas plantações, ou para um nababo do Pundjab eternizar o palácio e os seus adornos femininos; mas agora piscam o seu obturador em remotas aldeias transmontanas.
Elas viajaram no tempo e no espaço para, nos meus braços, sair da sua prolongada letargia.
É ao fotógrafo que cabe levar as máquinas a olhar e registar de novo, num reviver de mecanismos e gestos. Reter as suas memórias num enrolar de filme e depois pô-las frente a frente com as suas próprias obras.
Ao fazer isso, o fotógrafo reinventa a sua própria biografia. Repetindo os modos que há muito esquecera ou descobrindo os gestos que nunca tinha feito.
O visor à altura do olho ou da cintura, o avanço da película com alavanca ou com rotação da lente, a focagem por estimativa ou por sobreposição, a medição da luz pelo selénio ou pelo cádmio, o empunhar da câmara com dois dedos ou com as duas mãos, o disparo espontâneo ou encenado, um olho que pisca ou então um olho que arregala, são determinantes do que se pode fotografar e de como se fotografa.
Os desenvolvimentos tecnológicos e ergonómicos que percorreram o século XX não constituem apenas uma parada de tentativas e de abandonos, de sucessos e de fracassos; cada nova realização da técnica e do design transformou o gesto de fotografar de forma irremediável.
Ao reconstituir essa caminhada desvendamos as raízes da fotografia actual.
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2021.
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A exposição de câmaras fotográficas e fotografia de Fernando Penim Redondo, “Flashback”, encontra-se na Biblioteca Municipal de Cascais, em S. Domingos de Rana, de 10 de julho a 19 de agosto de 2021, data em que, às 18:00, terá lugar uma conversa com o autor e os fotógrafos Homem Cardoso, António Guerra, Carlos Almeida, Luís Viegas Mendonça e Jorge Manuel Duarte Alves sobre “Fotografia em filme no séc. XXI”.
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Fernando Penim Redondo Nasceu em Lisboa, em Maio de 1945.
Aos 13 anos falhou os seus objectivos escolares e, como castigo, passou o Verão a trabalhar ao balcão de uma loja de fotografia na Baixa de Lisboa onde descobriu que “fazer fotos” podia ser uma coisa muito divertida. Em 1967 foi incorporado na Armada e enviado como tenente fuzileiro para a Guiné até 1970. Lá comprou a sua primeira máquina “a sério” e começou também a usar em casa um pequeno laboratório fotográfico.
Em Lisboa publicou reportagens fotográficas na imprensa: “Furadouro” no Diário de Lisboa e “A primavera de Moscovo” em “O Jornal”, 1988. O livro “Camera Craft – Black & White” da editora AVA Publishing SA incluiu, em 2005, trabalhos seus. Em anos recentes participou durante um ano no workshop Kmaster, da Kameraphoto. Frequentou diversos cursos de Estética, História da Arte e História da Fotografia no AR.CO. Participou também no Workshop “Narrativas 2019” do MEF.
Ao longo da vida fotografou em locais como a Guiné, EUA, Rússia, Cazaquistão, Sibéria, Marrocos, Cuba, China, Índia, Egipto, Nepal, Peru e Patagónia, etc, o que lhe permitiu constituir um banco de imagens com centenas de milhares de originais. Em 2010 foi-lhe atribuido o primeiro prémio no concurso promovido pelo banco MONTEPIO GERAL sob o tema “Pobreza e exclusão social”. Em 2012 foi seleccionado para participar na Exposição Central do KAUNAS Photo Festival, na Lituânia. Desde 2006 realizou cerca de quarenta exposições, quer de fotografias quer de câmaras, em Portugal, na Holanda, na Lituânia e no Brasil. A maior parte das exposições teve lugar em museus, centros culturais e bibliotecas municipais mas também ao ar livre, como a mostra permanente Expo Mocho (em Sacavém). Tornou-se entretanto coleccionador de câmaras fotográficas antigas e, nessa qualidade, desde 2012 vem realizando o projecto Flashback que consiste em fotografar o seu habitat com 500 câmaras fotográficas de rolo de filme fabricadas ao longo de todo o século XX.
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Pode conhecer melhor a coleção de câmaras fotográficas de Fernando Penim Redondo nos seus blogues: CAMERAMINE – as câmaras com as suas características em tag; CAMERALIKE – uma publicação por cada máquina efectivamente usada: câmara e fotografia; um álbum Google: CAMERAMANIA – com todas as câmaras usadas por ordem inversa da cronologia
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