JORGE MOLDER, ETHOS, 1985
Pedro Tamen (Lisboa, 1 de dezembro de 1934 – Setúbal, 29 de julho de 2021)
.
.
.
Pedro Tamen faleceu a 29 de julho de 2021. Como homenagem, trago este catálogo de Jorge Molder com texto do poeta.
.
.
.
Jorge Molder
Ethos
Fotografia: Jorge Molder / Texto: Pedro Tamen / Tradução: Pedro Elston / Design: Jorge Molder e Luís Serpa
Lisboa: Galeria Cómicos / Abril . 1985
Português e inglês / 21,0 x 29,7 cm / 8 p.
Capa com badana de dimensão idêntica, ensaio no interior; caderno de 2 folhas dobradas (8 p.), sem costura ou ligação. Assinado pelo fotógrafo no verso da contracapa, número com numerador. / 500 ex.
.
.

.
.
O guerreiro segue o seu ethos
Ernst Junger
.
.
Esta é uma peça muito interessante, reproduzindo seis fotografias, impressas em zincogravura, como foram apresentadas na exposição. A cor é fiel ao original e o peso da cartolina confere uma dimensão e textura especial à obra, destacada pelo grafismo, limpo, centrado no essencial.
.
Pedro Tamen escreve o ensaio sobre “ethos”:
À primeira vista, a passagem da fotografia em papel à “zincogravura” pareceria ser apenas uma fase intermédia e necessária para a reprodução do ponto de partida. O tomar-se este habitual modo de transição como objecto em si mesmo, eis o que conduz desde já a reflexões que têm que ver com o fenómeno de apropriação de um processo, ou de um real processado, pela chamada arte. Mas não é por aí que vou.
Mais interessante, ou o que mais me interessa agora, é verificar que a simples e tão comezinha transposição do suporte de papel para o zinco, do branco para o preto e do preto para o branco, não é afinal uma simples transposição, mas uma transformação radical. Logo, metáfora. Ou, antes, dupla metáfora, pois que já o era a fotografia inicial.
O que, aparentemente (ou não aparentemente, isto é, longe dos olhos ou antes deles, por simples operação conceptual), seria o contrário de um real verifica-se ser, muito misteriosamente, um outro real e um real outro; o negativo do primeiro é afirmação do segundo.
A fotografia, que, como o nome indica, é solar — ainda quando o objecto não fosse a Grécia e ainda que a luz fosse artificial, que imitaria a natural — volve-se aqui em objecto lunar, literalmente de outro planeta.
“Outra coisa” não é apenas a que possui aparências diferentes, mas a que também, e por isso mesmo, tem um diverso sentido. E as fotografias sobre zinco de Jorge Molder são “outra coisa” relativamente às fotografias que lhes estiveram na origem — tal como as fotografias o eram iá relativamente aos objectos fotografados. Neste caso concreto poderíamos até prosseguir em mais um escalão, uma vez que os objectos fotografados eram já, por sua vez, “outra coisa” relativamente aos torsos, pernas ou bichos que estiveram no princípio de tudo.
Tudo isto para dizer, portanto, que mudança de forma gera e implica mudança de sentido. Para dizer que metamorfose é metáfora.
Nos claros-escuros esgueirando-se em brilhos de prata que os nossos olhos agora vêem — e que são o “ethos encaminhado” de outras formas longínquas — o mundo resultou diverso e como que só por acaso não totalmente alheio aos mundos inicial e intermédios.
Forma, carácter do sentido? Sim (passe o pedantismo), morphê é o ethos do logos.
O resto é silêncio, como diria o Guilherme: a paixão de Jorge Molder e a de quem vê.”
.
Março, 1985
.
.
Jorge Molder, Ethos, 1985
.
.
Na última página do miolo, lemos:
Este catálogo foi publicado por ocasião da exposição de JORGE MOLDER na Galeria CÓMICOS — Lisboa (9 de Abril a 4 de Maio de 1985), tendo sido subsidiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, numa edição de 500 exemplares, numerados e assinados pelo Artista, impressos por Neogrifo — Artes Gráficas, Lisboa, em cartolina Conqueror Vergé 220 grs. (capa) e Printomat 250 grs. (interior), aos 4 de Abril de 1985.”
.
.
.
Jorge Molder Nascido em Lisboa, em 1947, estudou Filosofia na Universidade de Lisboa e, desde 1977, quando fez a primeira exposição individual, tem vindo a mostrar o seu trabalho em galerias, centros de arte e museus em Portugal e no estrangeiro.
Privilegia a imagem a preto e branco, a representação teatral de espaços vazios ou habitados por personagens, elas mesmas em coreografias teatrais, e quase sempre retratando-se a ele próprio.
Foi o artista convidado da 22.ª Bienal de São Paulo (1994) e representou Portugal na 48.ª Bienal de Veneza (1999).
Recebeu o Prémio Associação Internacional de Críticos de Arte/Portugal 2006/7 e, em 2010, o Grande Prémio EDP Arte.
“Rei Capitão Soldado Ladrão” foi a maior mostra mais recente do seu trabalho em Portugal, em 2013, repartida entre o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado e o Museu da EDP, em Lisboa, e viria a ser apresentada em Madrid.
Em 2015 mostrou obras na coletiva “Olhos nos Olhos”, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, apresentada na Galeria de Exposições Temporárias.
Está representado em coleções como a do Art Institute of Chicago, Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, o Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, a Maison Européene de la Photographie e o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
.
.
Pedro Mário Alles Tamen (Lisboa, 1 de dezembro de 1934 – Setúbal, 29 de julho de 2021), poeta. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, foi diretor da Editora Moraes, administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, e co-dirigiu as revistas Anteu e Flama. Lecionou no ensino secundário, fez traduções, crítica literária no semanário Expresso e foi presidente do PEN Clube Português (1987-1990).
.
.
.
Pode conhecer melhor a obra de Jorge Molder no Fascínio da Fotografia, aqui.
.
Peço desculpa por o exemplar apresentado não estar em perfeitas condições.
.
.
.



