ATLAS SUZANNE DAVEAU
Exposição organizada por Duarte Belo, na Biblioteca Nacional, em Lisboa, para ver de 16 de abril a 30 de julho de 2021.
.
.
.
Não conheço um território tão pequeno com uma tão grande diversidade de paisagem.
Suzanne Daveau, sobre Portugal
.
.
Duarte Belo desenvolveu diversos trabalhos com Orlando Ribeiro (1911-1997), geógrafo, para quem a fotografia desempenhava um papel fundamental. Acompanhava-o a sua Leica, responsável por registar tantas paisagens físicas e humanas, de Portugal e do mundo. Entre estes trabalhos regista-se o livro “Orlando Ribeiro seguido de uma viagem à Serra da Estrela”, ed. Assírio & Alvim, 1999; “A Casa e o Mundo”, ed. Câmara Municipal de Lisboa, 2004 ou “Portugal Luz e sombra – O país depois de Orlando Ribeiro”, ed. Temas e Debates / Círculo de Leitores, 2012, no qual Belo parte de algumas fotografias de Ribeiro e fotografa os mesmos lugares do mesmo ponto de vista, algumas décadas depois.
O contacto com o geógrafo estendeu-se naturalmente à esposa, Suzanne Daveau, com o apoio de quem realizou aqueles projetos. Duarte Belo conheceu a fotografia de Daveau e encontrou uma riqueza tão grande como entre as imagens de Orlando Ribeiro.
Trabalhando com a geógrafa, Duarte Belo, em colaboração com Madalena Vidigal, organizou o livro e a exposição que se mostra na Biblioteca Nacional, foi o responsável pela montagem e organização (as molduras são manufaturadas, em papéis e cartões, num trabalho artesanal perfeito, como é costume nas suas exposições). O Atlas Suzanne Daveau são registos captados em todo o mundo, a beleza e variedade da paisagem, e ao longo de várias décadas: de final dos anos 1940 a 2000!
Uma exposição impressionante!
.
.

Suzanne Daveau, Duarte Belo, Atlas Suzanne Daveau, 2021 (capa)
.
.
Duarte Belo e Madalena Vidigal escrevem a propósito da exposição:
.
As fotografias de Suzanne Daveau registaram o tempo longo das sociedades rurais ocidentais ou tribais de África, as paisagens quase intocadas pela mão humana, mas também o enunciar de um mundo em progressiva mudança. O Atlas Suzanne Daveau é este percurso por um singular universo fotográfico que procurou uma ideia de verdade. Este é o retrato, o mapa, a geografia de uma mulher incansável que procurou conhecer e transmitir a sabedoria humana que se revela da terra. Talvez o que essa busca hoje nos devolva seja a inquietação do tempo presente. As suas fotografias dizem-nos, também, que o conhecimento é a melhor ferramenta que temos para lidar com um mundo aberto e em mudança permanente.
Esta abordagem ao universo fotográfico de Suzanne Daveau constitui uma interpretação concreta das imagens com que nos deparámos. Este não é um trabalho definitivo, na medida em que muitas outras leituras poderão ser feitas por outras pessoas. Este trabalho não tem um carácter monográfico. Foi nosso desejo construir um objeto de comunicação que, de algum modo, consiga transmitir a força das imagens e ao mesmo tempo fazer uma ponte com a contemporaneidade, com alguns dos problemas com que a humanidade hoje se depara, nomeadamente aqueles que se prendem com a terra que nos acolhe.
.
A exposição organiza-se em quatro grandes áreas temáticas: Rural; Humanidade; Cidade; e Natureza. Estes são os elementos que, diríamos, emanam da representação que Suzanne Daveau procurou com as suas fotografias. Na referência ao carácter científico das suas imagens, adicionámos as fichas que se encontram em arquivo no Centro de Estudos Geográficos, no núcleo Processo. Um sexto grupo de imagens, Tempo, é constituído por fotografias do seu avô, Léon Robert. Considerámos ainda dois grupos de imagens que, de algum modo, são unidades «flutuantes» nesta exposição, estabelecendo relações de descontinuidade com os grupos anteriormente referidos. Há um conjunto de imagens em que estão representadas pessoas, quase sempre isoladas, que contemplam a paisagem. Nessas diferentes pessoas quase que podemos ver Suzanne Daveau a ler, perscrutar, a interpretar as paisagens. Um último conjunto de fotografias é definido por imagens que tivemos dificuldade em ligar a qualquer uma das categorias anteriormente apresentadas. São imagens, por vezes, enigmáticas e inquietantes. São descontinuidades no seu trabalho que abrem portas para outras leituras, à margem de um pensamento geográfico.
.
.
.
António Bracons, Aspetos da exposição [Suzanne Daveau], 2021
.
.
.
Na apresentação ao último núcleo da exposição, lemos:
.
São da autoria de Léon Robert as imagens com que encerramos esta visita ao universo fotográfico da sua neta, Suzanne Daveau, cujos primeiros registos são de 1900. Há nestas fotografias uma linha de continuidade que se prolonga pelo trabalho de Suzanne Daveau. De algum modo estas fotografias fazem um enquadramento do ambiente em que cresceu Suzanne Denise Robert, sua mãe, teve um papel preponderante, quer como alguém que vai passar o saber técnico da fotografia à sua filha, quer como uma mulher de grande sensibilidade para a visualidade, para o artístico, bem como pelo desejo de viagem e de conhecimento de diferentes paisagens, particularmente os Alpes, as montanhas, espaço de distanciamento a um mundo quotidiano.
Suzanne Daveau pousa a câmara fotográfica no ano 2000, um século depois de terem sido feitas as primeiras fotografias pelo seu avô Léon Robert. As datas, que são apenas uma coincidência, englobam um século inteiro, «redondo». O motivo pelo qual Suzanne Daveau deixou de fotografar foi a perceção de já não ter capacidade para fazer a referenciação e arquivo das imagens produzidas.
.
.
António Bracons, Aspetos da exposição [Léon Robert], 2021
.
.

.
A exposição “Atlas Suzanne Daveau”, organizada por Duarte Belo e Madalena Vidigal, está patente na Biblioteca Nacional, ao Campo Grande, em Lisboa, de 16 de abril a 30 de julho de 2021.
.
.
.
Suzanne Daveau, de seu nome completo Suzanne Blanche Daveau Ribeiro, nasceu a 13 de julho de 1925, tem hoje com 96 anos. Começou pelo ensino secundário, mas seria quase toda a vida Professora Universitária em Besançon, Dakar, Reims e Lisboa. Investigou em temas variados como Geomorfologia e Climatologia, Geografia Histórica e Regional, História da Geografia e Cartografia. A partir de 1965 colaborou estreitamente com Orlando Ribeiro (1911-1997). Entre as suas obras destacam-se Les Régions Frontalières de la Montagne Jurassienne (tese de doutoramento, 1959), O Ambiente Geográfico Natural (1970, 5ª ed., 2019), La Zone Intertropicale Humide (com O. Ribeiro, 1973), Distribuição e Ritmo de Precipitação em Portugal (1977), Portugal, o Sabor da Terra (com J. Mattoso e D. Belo, 1998, 2ª ed., 2010) e Um Antigo Mapa Corográfico de Portugal (2010).
.
.
.





























