GUIDO GUIDI E ÁLVARO SIZA, ARQUIGRAFIAS

Guido Guidi fotografa a obra de Álvaro Siza. Exposição na Casa da Arquitetura, em Matosinhos, de 17 de abril a 3 de outubro 2021.

No 88.º aniversário de Álvaro Siza Vieira (N. Matosinhos, 25.06.1933)

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Guido Guidi, Casa de Chá da Boa Nova, Leça da Palmeira – Bairro da Bouça, SAAL, Porto – Plano de Reconstrução do Chiado, Lisboa [6 fotografias] – Atelier-Museu Júlio Pomar – Terraços do Carmo, Lisboa

Fotografia analógica, ampliações 17,3×17,3 cm 

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Paula Pinto e Joaquim Moreno explicam a génese desta exposição:

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Em Dezembro de 2014, quando fizemos a exposição “Guido Guidi. Carlo Scarpa: Túmulo Brion” na Garagem Sul do Centro Cultural de Belém, Guido Guidi expressou vontade de fotografar a arquitectura de Álvaro Siza. Não pensámos que fosse tão difícil concretizar este encontro entre duas figuras tão singulares.

Esta é a primeira auto-proposta de Guido Guidi para fotografar a obra de um arquitecto. É também a primeira vez que as suas fotografias puderam ser mostradas ao arquitecto para o qual foram realizadas. Foi para todos nós surpreendente poder ouvir o arquitecto Álvaro Siza falar de fotografia e poder devolver-lhe dessa forma a sua arquitectura. Convidámos o Paulo Catrica a realizar em vídeo, alguns dos momentos que deram significado a esta exposição e permitem conferir-lhe uma voz.

Tendo em conta que Guido Guidi levou 11 anos a fotografar projectos do arquitecto Carlo Scarpa até conseguir captar o que até aí ninguém conseguira ver, ficaremos muito gratos se puderem acompanhar este início de diálogo que se expõe agora na Casa da Arquitectura (Matosinhos).

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Guido Guidi e Álvaro Siza

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Os curadores selecionaram oito projetos situados em Lisboa, Porto e Matosinhos: a Casa de Chá da Boa Nova, Leça da Palmeira, Matosinhos (1958-63), Piscina de Marés, na Praia de Leça (1961-66), o Bairro de S. Victor – SAAL, Porto (1974-79), o Bairro da Bouça – SAAL, Porto (1975-77), o Plano de Reconstrução do Chiado, Lisboa (1988-89) e vários edifícios integrados no Plano (1988-1996), edifício para a Associação 25 de Abril, Lisboa (1994), o Atelier-Museu Júlio Pomar (2010) e os Terraços do Carmo, Lisboa (2015), e que estão representados através de 97 imagens de Guido Guidi.

Arquigrafias oferece assim um “diálogo entre a obra fotográfica de Guido Guidi (Cesena, 1941) e a obra arquitetónica de Álvaro Siza (Matosinhos, 1933) e constitui um encontro singular entre duas figuras ímpares nos seus respetivos campos de trabalho”.

Encontramos nestas fotografias um autorretrato: Guidi está refletido numa das janelas que Siza desenhou para o Chiado.

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Guido Guidi, Piscina de Marés, Praia de Leça – Bairro de S. Victor, SAAL, Porto – Edifício para a Associação 25 de Abril, Lisboa

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ARQUIGRAFIAS. GUIDO GUIDI E ÁLVARO SIZA

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A fotografia escreve com a luz. O conceito inventado de arquigrafia é uma fotografia escrita com a arquitectura, uma tentativa de fixar a passagem do conhecimento através das coisas e transportar a arquitectura ao encontro das ficções que constrói. Esta arquigrafia é um diálogo entre a fotografia de Guido Guidi e a arquitectura de Álvaro Siza. Retrato e reflexo de um encontro entre duas figuras singulares, estas imagens são um tributo a Siza e às relações que a sua obra estabelece com a luz, os corpos e o passar do tempo. 

Guidi é um fotógrafo da arquitectura vernacular, da paisagem trivial e corrente e das margens e periferias, que “usa a fotografia como uma armadilha” para esperar pacientemente que realidades menos evidentes se imprimam nas imagens. Regista a passagem da realidade concreta ao que dela fazemos. Guido diz que mais que olhar as coisas, a fotografia mostra os efeitos do olhar, e por vezes chega a sentir que, uma vez enquadradas, são as coisas que olham para o fotógrafo e o transformam. Aos oitenta anos, as primeiras imagens de um processo em curso revelam a urgência do encontro entre uma arquitectura que nasce do seu lugar e circunstância e um instrumento de conhecimento que devolve o que não prevíamos ou não sabíamos ver. 

“Imaginar a evidência” é uma frase célebre de Álvaro Siza que tão bem descreve o encontro do extraordinário com o necessário nas suas obras. As suas obras e projetos são de facto evidentes depois de imaginados por Siza. Muito mais que simplesmente o produto das circunstâncias, as obras refletem as múltiplas determinações do projeto e são uma oportunidade de inventar algo que em muito as excede, ultrapassando sempre o necessário. As imagens que estas obras projetam expandem o real. De outra maneira, as fotografias de Guido Guidi também dão imagem à evidência. Descobrem o insólito em arquiteturas desgastadas pelas imagens. 

Guidi admite experienciar a fotografia como uma espécie de transe e mesmo que a melhor experiência seria a de dormir numa arquitectura de Siza, e acordar no sítio sem ideia do que fotografar. Siza sugere para esta experiência um edifício que viu passar o tempo sem ser alterado pelo habitar e outro profundamente alterado na sua construção. A fotografia de Guidi não capta um pensamento feito, antes materializa uma capacidade analítica de experienciar o lugar, de troca de olhares que serve igualmente para perceber quem somos. Esta Arquigrafia é uma viagem que obriga o fotógrafo a sair do próprio ego para sentir a transformação provocada por uma arquitectura que lhe devolve mais do que um reflexo; lhe devolve outras possibilidades de aproximação ao mundo. 

Assumindo as múltiplas vidas da obra de Siza, as arquigrafias de Guidi celebram as memórias visuais testemunhadas pela matéria arquitetónica. Mais do que imagens do desenho ou dos conceitos dos projetos, estas imagens retratam a arquitectura a partir de dentro, na sua relação com os habitantes, o tempo e a luz. Além de evidenciar as formas ou singularizar os objetos, Guidi pretende olhar para o que a obra vê, para o seu entorno, para os diferentes tipos de usos e para o seu estado atual de preservação. E nesse sentido, devolve a Siza um retrato da sua arquitectura.  

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Paula Pinto e Joaquim Moreno

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Ivo Tavares Studio, Aspetos da exposição, 2021

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“Guido Guidi e Álvaro Siza, Arquigrafias”, exposição com curadoria de Paula Pinto e Joaquim Moreno, está patente em Matosinhos, na Casa da Arquitetura, na Real Vinícola, Av. Menéres, 456, de 17 de abril a 3 de outubro 2021.

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Cortesia: Paula Pinto e Casa da Arquitetura.

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