FLÁVIO ANDRADE, ISOLATION, 2021

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Flávio Andrade

Isolation

Fotografia: Flávio Andrade / Texto: Maria do Carmo Serén, Flávio Andrade

Pinhal Novo: Flankus Books / Abril 2021

Português e inglês / 29,2 x 28,2 cm / 144 pp

Cartonado / 200 ex. numerados e assinados; os ex. 1 a 25 constituem ed. especial, integram uma fotografia original, assinada (guardas de cor creme; restantes, guardas pretas)

ISBN: 9789893310496 

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Foi com o início do período de confinamento, em meados de março de 2020, que Flávio Andrade iniciou este projeto.

Sobre a sua fotografia diz:

O que exploro fotograficamente situa-se num processo de associações e metáforas, que nascem do questionamento do que é a realidade e do que somos. E, como tal não me interessa a clareza que o documento encerra, mas sim o resultado que ele me proporciona, transformando-o no “meu real”. Nestes últimos anos procuro temas ligados ao pensamento, ao conhecimento do eu, e aos problemas da mente. As doenças, as patologias e o que lhes está associado, fascinam-me pelas vastas possibilidades de material com que posso trabalhar. A compreensão do ser humano enquanto indivíduo – a sua existência, são matéria de estudo constante. O meu trabalho está inteiramente ligado ao que sinto e penso, é interno, nalguns casos é visceral e cru. Este acto de desconstruir e reinventar não se encerra em mim, estende-se aos outros, e é esse o sentido – o outro, as pessoas. Estou neste processo, mais ou menos documental e próximo, em que a subjectividade e a contaminação da ficção estão presentes.

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Surge assim uma reflexão profunda e interior sobre a pessoa, o eu, o confinamento, o isolamento. Sozinho, em autorrepresentação, cada fotografia um conjunto de exposições múltiplas, num mesmo frame digital – como se a múltipla exposição resultando numa múltipla presença, fosse uma companhia – fotografou-se.

Ao lado da sua casa, a antiga casa de família, o quarto que fora do seu avô. É esse o cenário das suas fotografias.

As imagens pensadas e materializadas através da câmara, por vezes com exposições longas. O movimento, a presença, o grito, a força, o desespero…

Cada fotografia tem um título, escrito a letra pequena na página da esquerda, ao lado da imagem. Vemos a fotografia, mas temos de nos aproximar para ler o título. Podem as imagens ser vistas sem o título ou com ele. E podemos ler apenas os títulos e, desse modo, fazer uma outra leitura.

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Como o autor escreve em Isolation:

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Isolatian é inspirado na realidade sobre o estado de emergência que levou ao confinamento imposto pelo Governo Português face à situação excepcional de saúde pública mundial e à proliferação de casos registados de contágio de COVID-19 decretado em 18 de Março de 2020 pelo Presidente da República.

Após a releitura de A Era do Vazio, de Gilles Lipovetsky, reflecti sobre a sociedade individualista dos anos setenta do século XX, de que Lipovetsky descreve e a forma como vivemos e pensamos neste século XXI. Esse lugar narcisista e egocentrista onde o eu é o lugar comum e que, parece ter-se intensificado ao longo dos anos; aprisionados, em nós próprios, sem podermos fazer o qua desejamos, como se estivéssemos numa cela, condicionados sem a liberdade de circular, conviver, viajar e partilhar ao vivo e em tampo real. Senti uma certa resignação, do que somos, queremos e fazemos. Onde está o lugar do outro? Da partilha, da solidariedade? Vivemos vidas paralelas – Aquela que pensamos e aquela qua nos é possível ser. Potenciados pelo confinamento, numa vivência superficial e virtual, em muitos casos, o isolamento obriga-nos a experimentar os nossos limites físicos e psicológicos, obrigando-nos a pensar sobre a existência e as incertezas do amanhã. Isto leva-nos para determinados sentimentos e comportamentos, aqui recriados fotograficamente, em auto retrato.

Isolation, veio a revelar-se uma surpresa, pela possibilidade de, mesmo confinado a quatro paredes, existir uma libertação emocional que ultrapassou a barreira física. Estas fotografias são a minha visão, do que eu sinto, do que outros sentam e, ou, sentiram, nestes momentos que todos vivenciamos.

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O prefácio é assinado por Maria do Carmo Serén, que faz uma leitura profunda da obra:

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Comecei a olhar esta narrativa, (porque é mesmo uma narrativa em imagens de um comportamento obsessivo) com a ajuda do Lipovetski da Era do Vazio, tentando reencontrar o olhar de Flávio Andrade. Nessa obra sobressai o papel desumanizador das prótases e da propaganda, aquela forma como a biotecnologia e a nova farmacopeia química de análise e bloqueio molecular alteram profundamente o nosso corpo físico e fisiológico. Vi o paralelo com as tecnologias digitais usadas para expressar ritmos internos do comportamento, o fluo ou esbatimento, a sobreposição, a duplicação, a sépia envelhecida, a manipulação, a imagem sobre a imagem, sobre a imagem…

A Era do Vazio fala da homogeneização do indivíduo e das massas e aqui é, decididamente, o inconsciente qua fala da falta, essa falta que faz o nexo da Psicanálise e aqui se consubstancia na falta do contacto direto. Essa centralidade mostra-nos que a dominância do contacto digital se revela insuficiente e a nossa vocação se mantém social e não socializante. Esta narrativa é, ainda, sobre o efeito em nós de uma falta de sentido de uma existência, alheado da verdadeira escolha e opção que, naturalmente, acumula inconscientes medos e frustrações, atualizando o secreto pequeno mundo de que fala Murakami com novas regras aleatórias e temores renovados. O Inconsciente Pequeno Mundo, elaborado com imagens e palavras recalcadas, não é, não é totalmente, o de Flávio Andrade, que é o autor da sua representação, mas é o do que o confinamento representa para todos nós. E aí, porque é imposto ou mesmo autoimposto é a perda da liberdade e da sociabilidade direta, que fomos perdendo sem o notar. E aí, e sempre de novo Foucault e o seu conceito de sociedade disciplinar e de controlo, onde a normalidade é a primeira regra.

Perdida a sociabilidade direta a representação de si vai-se desgastando. Não há cuidados com o corpo, não há conforto, não há necessidade da roupa: ficam os signos da perda, as máscaras, as feridas, a visão perdida (os óculos clínicos, o olho no vaso do hospital…), o movimento limitado (belíssima a composição da dança com as sombras), a anormalidade das formas e das ausências, o grito e o pânico. O contexto degradado, elementar, desprovido, (a cadeira só para nos lembrar Mapplethorpe e o desejo) é o da nudez e a desordem do inconsciente, da incompletude e da falta. Não são imagens de um qualquer apocalipse, mas o sentir do homem entregue a uma parte de si mesmo.

No confinamento não há exposição de si, onde o inconsciente fala de poder e o consciente intencional traduz como prestigio, capacidade ou incapacidade, esperança ou esquecimento, ação ou projeto memória. Não há a perversidade da dúvida e do remorso, nem o discurso da vida normal, há apenas o que escapa ao controlo do sujeito, a explosão do pânico, da anomia do social.

E, no entanto, estas imagens são perversas, porque nos dizem a matéria imagética que deslisa para o secretismo do inconsciente a aí constrói o não dito e o não pensado, como se o homem juntasse em si, bem oprimido e ocultado, todo o mal de que o mundo é feito, pronto a explodir em cada crise da normalidade aprendida.

São ainda perversas porque são belas.

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Este é um livro impressionante, em vários aspetos. O seu formato (quase 30 x 30 cm), a dimensão grande das imagens (c. 24,5 x 16,3 cm), centradas na página, com um espaçamento branco que cria uma concentração e permite a leitura centrada na imagem, o título na página oposta, letras pequeninas, o grafismo cuidado, exato, limpo, o essencial, sem mais. Por vezes, um fólio em branco cria uma pausa no sentir. Para respirar fundo. Isolamento. Isolation. A impressão com grande qualidade. Os tons sépia das imagens. A força e a brutalidade (pode-se dizer) das imagens. A rigidez da capa cartonada, dando coerência e corpo a toda a obra.

Isolation. Isolamento. O desespero, a revolta, o grito. O inconsciente. Neuroses. Flávio Andrade chama-lhe ‘emoções’, para Maria do Carlo Serén, são ‘sentimentos profundos’, “o sentir do homem entregue a uma parte de si mesmo”.

Por isso, este é um livro intemporal.

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Flávio Andrade, Isolation, 2021

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Flávio Andrade (n. 1964) é fotógrafo e artista visual, nasceu e reside em Pinhal Novo, Portugal.

Publicou cinco livros, incluindo lsolation (2021), Nubes (2018), Vago (2017), Déjà vú (2017) e Circle of life (2017).

As suas abras fazem parte de colecções públicas e privadas; expõe regularmente desde os anos noventa. No ano de dois mil e dezassete criou a editora FlankusBooks.

Estudou comunicação social no ESE, fotografia no Ar.Co, no Cenjor e mais recentemente o curso “Seeing Through Photographs” no Museu de Arte Moderna da Nova lorque. Foi professor de fotografia durante dez anos na Universidade Católica Portuguesa onde co-leccionou a disciplina da teoria e prática da fotografia. É formador de fotografia analógica, digital e fotojornalismo.

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Para adquirir o livro, pode contactar o autor: livros [at] flavioandrade.com

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Com o início do período de confinamento, fiz uma chamada para colaborações com o FF, no âmbito do “Ficar em casa”. Flávio Andrade foi dos primeiros a enviar uma colaboração, exatamente com a génese deste projeto, a primeira a ser publicada, em 13.04.2020. Pode ver aqui.

Pode conhecer melhor o trabalho de Flávio Andrade no FF, aqui.

Pode visitar o site do autor, aqui.

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Atualizado em 19.06.2021.

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