CORRÊA DOS SANTOS, 70 ANOS DE FOTOGRAFIA

Tributo na Galeria de Santa Maria Maior, na R. da Madalena, 147, em Lisboa, de 22 de abril a 4 de junho de 2021.

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Corrêa dos Santos, Rainha Isabel II – Amália e Daniel Gélin, nos bastidores das filmagens de “Os Amantes do Tejo” – BB King – Marcelo Rebelo de Sousa, mergulho no Tejo – Mário Soares – Simone de Oliveira e Ary dos Santos.

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Aos 87 anos, Corrêa dos Santos é um dos mais antigos foto-repórteres portugueses.

Fernando Corrêa dos Santos, filho e neto de modistas de alta-costura, nasceu a 1 de junho de 1934, em Lisboa, no Chiado, onde cresceu e vive – mostra as janelas da sua casa numa fotografia do Incêndio do Chiado – iniciou-se na fotografia com 13 anos e garante que morrerá de máquina na mão.

Conta que a sua avó teve necessidade de arrendar um quarto, foi a um fotógrafo profissional e via-o sempre a correr para um lado e para outro. Os pais de Francisco separaram-se tinha ele quatro anos e ele sentiu que devia trabalhar para ajudar a mãe. Começou no laboratório J.C. Alvarez, ali próximo, ganhando sete escudos e cinquenta centavos por semana, como aprendiz, mas pouco depois mudava-se para os Laboratórios Fotográficos IFE, a ganhar 150 escudos por mês.

Iniciou-se no jornalismo n’ ‘O Mundo Ilustrado’, a fazer reportagens de certa envergadura. Ganhava 25 escudos por fotografia. Tinha 18 anos. Começou com máquinas emprestadas pelo engenheiro Castelo Branco, e também usava o laboratório dele.

É aos 23 anos que faz uma das suas fotografias mais icónicas: a da rainha Isabel II. Conta que acompanhou a rainha desde o Cais das Colunas até ao Parque Eduardo VII, a correr, atrás do coche. Fotografou-a a acenar para a multidão, com uma câmara Voigtlander Bessa 2. Refere que “de Inglaterra até chegou um telegrama a felicitar-me e a encomendar-ma em formato de 8 por 10 polegadas, para ser oferecida a Isabel II”. E teve pedidos de vários países.

Uma das fotografias que considera mais única é a de Salazar a beijar a mão do cardeal Cerejeira, “Mais ninguém apanhou aquele momento, tanto quanto sei. Foi num 10 de Junho, depois das condecorações no Terreiro do Paço.”

Corrêa dos Santos colaborou com várias revistas: Portugal Ilustrado, Flama, R&T, Flash e TV Guia. Em 1967, começa a trabalhar no Diário Popular, então dirigido por Pinto Balsemão, fazendo as férias de Judah Benoliel, que vem a falecer nessa altura, ele permanece no jornal até 1991. Ao longo da sua vida, colabora com todos os jornais nacionais, fornecendo reportagens pontuais.

Pela sua objetiva passaram muitos vultos das artes e da ciência, políticos: Christian Barnard, o primeiro cirurgião no Mundo a realizar transplantes de coração, fotografou-o em Coimbra, também todas as todas as peças que o Raúl Solnado fez no Teatro Villaret, a Eunice Muñoz, o Ruy de Carvalho, o João Perry e tantos outros. Foram também grandes eventos que registou: a inauguração do Estádio do Benfica, no 25 de abril, a RTP, então na Alameda das Linhas de Torres; o incêndio do Chiado, junto de casa, mas que não foi atingida; o primeiro ‘bebé-proveta’ português, em 1986, no Hospital de Santa Maria, com o médico António Pereira Coelho; o acidente de Camarate, são apenas alguns dos presentes na exposição.

Numa das fotografias está o General Ramalho Eanes, então presidente da República, com o seu filho ao colo. Conta que foi pai por causa do casal Eanes: casou tarde, com 46 anos, e em conversa com Manuela Eanes disse-lhe que era demasiado velho para ser pai, ela respondeu que era um disparate, o Ramalho Eanes, tinha a mesma idade que ele, tinha sido pai há pouco tempo, um ano depois, nascia o seu filho. Quando tirou a fotografia que vemos na exposição, tinha ido fotografar o Presidente Ramalho Eanes, em Cascais, num 10 de junho. O Presidente convidou-o para a receção, mas respondeu que não podia, tinha a família no carro, à espera. Respondeu que os fosse buscar. Os seguranças não permitiram que subissem, pois era contra o protocolo. Foi então despedir-se do Presidente, que desceu à entrada para autorizar a subida: “O protocolo? Eu é que faço o protocolo!”

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Em 2015 publicou um livro com algumas memórias e fotografias: “Portugal da década de 50 aos dias de hoje. 100 Fotografias únicas comentadas pelos seus protagonistas”, edição Prime Books, 2015, reeditado em 2021: “Portugal da década de 50 aos dias de hoje. 100 Fotografias únicas com histórias contadas pelos próprios”, ISBN: 9789896552923.

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Na visita que fiz à exposição, por sorte, apareceu o fotógrafo, de surpresa, com uma pessoa amiga, a quem ia mostrar a exposição. Bem-disposto, conversador, recorda a história de cada fotografia, tantos episódios, tantos momentos!

Uma vida cheia!

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2021

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Aos 87 anos, Corrêa dos Santos é um dos mais antigos da fotografia nacional. A mostra patente na Galeria de Santa Maria Maior, na R. da Madalena, 147, em Lisboa, de 22 de abril a 4 de junho de 2021 ( inicialmente até 29 de maio), percorre a carreira de 70 anos do repórter fotográfico, através de painéis que integram as fotografias, um pouco da sua história e testemunhos vários, ficando disponível para outras apresentações.

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António Bracons, Corrêa dos Santos, 2021

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Corrêa dos Santos (Lisboa, 01.06.1934). Iniciou-se na fotografia em 1947 (com 13 anos) tendo a sua atividade profissional começado em 1952 como colaborador permanente de várias revistas e posteriormente em todos os jornais diários de expansão nacional.

Ingressou no Diário Popular em 1968, onde trabalhou até à suspensão daquele título.

É atualmente colaborador permanente, há mais de 20 anos, das revistas Flash e TV Guia.

Entre as suas várias distinções, contam-se o Prémio Gazeta (1987), o Prémio do Clube Português de Imprensa (1987), Prémios da Feira do Livro (1972, 1973, 1982, 1983, 1987, 1988 e 1989) e o Prémio de reportagem fotográfica sobre a Feira Popular de Lisboa (1984).

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Pode ler uma entrevista a Ana Maria Ribeiro, no Correio da Manhã, aqui.

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