INSTANTES – FESTIVAL DE FOTOGRAFIA DE AVINTES . 6 – FÁTIMA VICENTE SILVA, CLARA AZEVEDO, CÉLINE CROZE E QUEILA FERNANDES

Em exposição respetivamente nos Plebeus Avintenses em Avintes, na Casa da Cultura de Lourosa, no CICL – Centro de Interpretação da Cultura Local de Castelo de Paiva e na Academia Sénior de Vilar de Andorinho, de 1 a 30 de maio de 2021.

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Esta é a sexta e última publicação, concluindo a apresentação das exposições que integram a 8.ª edição do INstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes, este ano dedicada à fotografia no feminino, sob o tema: “Combinações, numa dimensão maior”. A curadoria é de Alice WR.

Hoje apresento os trabalhos de Fátima Vicente Silva, Clara Azevedo, Céline Croze e Queila Fernandes, que estão em exposição respetivamente nos Plebeus Avintenses, Rua 5 de Outubro, 2095, em Avintes; na Casa da Cultura de Lourosa , EN 1 – Av. Principal, 3120; no CICL – Centro de Interpretação da Cultura Local de Castelo de Paiva, Largo do Conde de Castelo de Paiva, 23 e na Academia Sénior de Vilar de Andorinho, rua do Soieme, 6, em Vilar de Andorinho.

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Fátima Vicente Silva, Na senda da cidade

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Fátima Vicente Silva, Na senda da cidade

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Na senda da cidade

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Trabalho fotográfico que regista momentos da vida das gentes que se movem num diálogo permanente entre a luz e a sombra, entre o Ser e a realidade.

Pessoas que se cruzam em espaços anónimos, anonimamente. Passos que se desenham na calçada, ao ritmo pendular e invisível de um constante vaivém entre chegar e partir.

O Tempo que escoa e se esvai num eterno movimento.

A Rua. A Casa.

A ida. O regresso.

Rostos sem rosto em espaços urbanos. Rotinas traçadas por pequenos seres na imensidão da cidade. O vazio da ausência de nome. O Nada de não ser, existindo.

Partida.

Chegada.

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Fátima Vicente Silva

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Clara Azevedo, Under skin

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Clara Azevedo, Under skin

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UNDER SKIN

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Rasgar o corpo da pele como um bisturi onde regurgita o sangue e se desenham territórios e países feitos de cicatrizes. Desde sempre e há muito, símbolos e signos são sinais evidentes da pátria dos poros, onde a carne rasgada é a marca da geografia que veste a derme. É nesse vestir que se abre o despir e se revela a persona e a alma da pele.

Rupestres pinturas habitam a ritualidade da passagem e seu veloz ciclo terreno. O grito e a voz.

Depois o corpo e a carne desaparecem. Sucumbem. Permanecem na memória o mapa, caminhos e significados. Desenho da obra no corpo. O seu manto com um templo do tempo sagrado e profano.

São e insano.

A dor do corte e o prazer da penetração da agulha dilaceram a pele quando surge a taxidermia plena, tendo o corpo da alma como a alma do corpo.

Quando iniciava a reflexão e mergulhava neste trabalho tattoo, duas questões me surgiram de imediato: índios e negros, que na sua ancestralidade já o faziam como modo de ser e estar; e o filme O Livro de Cabeceira, do genial Peter Greenway.

Contudo, Clara Azevedo atinge mais que ásperas metáforas no seu cortante e incisivo olhar. Além de extremamente perturbadoras e instigantes, as obras deste novo conjunto da fotógrafa atingem uma subtileza, delicadeza e elegância de extremo requinte na sua construção e interpretação assim como na regência do domínio técnico. Impossível ficar passível ou isento. Renasce e ressurge na música das veias em carne viva, plantando e desenhando a transpiração do espírito de cada um. A liturgia do corpo com espelho. Há um transfer e uma ferida na poética, na leitura dos signos, códigos e ideias que percorre à flor da pele. É sem dúvida a mais bela e noturna flor que rasga os espinhos do cato que assina com sangue as suas prints e o seu olhar em sal.

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Orlando Azevedo

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Céline Croze, SQEVNV

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Céline Croze, SQEVNV

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“Siempre que estemos vivos nos veremos” foi a última frase que Yair me disse. Estávamos na azotea (terraço) do Bloco 11, a névoa envolvia Caracas, o burburinho louco da cidade parecia uma canção fúnebre. Foi uma bala no meu coração. Havia algo terrível e sublime na consciência do próprio fim. Tudo foi dito. A urgência da vida, o fascínio pela morte, o colapso do país. A extrema violência e o absurdo da situação faziam a vida parecer um jogo.

Lembrei-me dois dias antes da gallina (arena de luta de galos). O cheiro de sangue misturado com rum e suor, os gritos de raiva, a excitação de cada homem. Um transe intangível intoxicou a arena. Como se estivéssemos todos loucos. Como se sangue, morte e poder trouxessem vida.

A energia caótica da cidade ecoou em cada tuta como uma dança que se desenrola, termina e chora impotente. Um mês depois, Yair morreu baleado. Tinha 27 anos.

As minhas andanças pela América Latina foram cruzadas por outros encontros marcantes. Como aqueles galos lutadores, vi seres dançando e agarrando-se ao caos. De cada vez, encontrava ali a mesma sensualidade insolente, como uma provocação furiosa, como o grito de um adolescente divertido pelo perigo, condenado e livre.

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Céline Croze

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Queila Fernandes, Lar

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Queila Fernandes, Lar

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« Lar » é uma serie de fotos que representam as memórias da minha infância, através da minha família. Foram feitas em três ilhas de Cabo Verde, Santo Antão, São Vicente e Santiago.

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Fátima Vicente Silva Nasceu em Ponta Delgada, nos Açores, mas vive em Lisboa desde 1982.

Com formação académica nas áreas da literatura, das línguas e das tecnologias, a fotografia foi, desde cedo, um hobby que tem vindo a ocupar um lugar cada vez mais relevante na sua vida. Realizou um curso no Instituto Português de Fotografia, assim como vários workshops.

Tem participado em alguns projetos de que salienta: EF16 Arruda dos Vinhos – Encontro fotográfico com Exposição Coletiva no Centro Cultural do Morgado; EF18 Mafra/Ericeira – Encontro Fotográfico com Exposição Coletiva de Rua no Jardim da Ericeira; “Uma Imagem Solidária”, Lisboa e Porto, 2017, 2018 e 2019); “Exposição no Jardim” – Coletiva, Lisboa, 2019. Algumas das suas fotografias encontram-se publicadas em revistas e sites de fotografia nacionais e estrangeiros.

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Pode conhecer melhor a obra de Fátima Vicente Silva aqui (Facebook) e no Instagram: fatimavicentesilva_photography .

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Clara Azevedo Nasceu em Lisboa, mas aos quatro anos mudou-se para o Brasil com os pais e irmãos. Durante vários anos, conheceu e viveu em muitos outros países, devido ao emprego do pai, que trabalhava para a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Madagáscar, Bolívia, Itália, Paquistão. Afeganistão e Quénia foram, por algum tempo, a sua casa.

De regresso a Portugal, decidiu frequentar um curso no IADE — Instituto de Arte e Design, e pouco depois o curso ARCO, dedicando-se a partir de então totalmente à fotografia.

Com uma bolsa da Secretaria de Estado da Cultura de Portugal, e com o patrocínio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), durante dois anos (1986-1987) realizou um trabalho sobre a comunidade portuguesa na Nova Inglaterra, que deu origem à sua primeira exposição individual.

Em 1987, começou a colaborar no jornal Expresso, onde se manteve até 1995. Nesse ano, decidiu lançar-se como freelancer.

Trabalhou em diversas revistas, com diferentes abordagens: reportagem, retrato, fotografia de interiores e fotografia de viagens. Privilegiando a fotografia documental, já publicou 11 livros e, atualmente é a fotógrafa oficial do primeiro-ministro português, António Costa.

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Pode conhecer melhor a obra de Clara Azevedo aqui (site) e no FF, aqui.

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Céline Croze artista visual nascida em Marrocos e radicada em Paris, com formação em cinema. Sensível às fissuras da nossa sociedade, Céline usa códigos cinematográficos para transgredir o mundo à sua volta, para se imiscuir nas falhas daqueles que observa. O seu trabalho foi apresentado no Rencontres Internationales de Ia Photographie de Fez, no Billboard Festival de Casablanca e Istambul, nas Bienais de Marraquexe e do Paraguai, no Fotobook Festival de Kassel, no FUAM Photobook Festival de Istambul e na Photography Foundation de Tanger. Em 2019 ganhou o Festival de Cadaqués, bem como o Prémio Revelação dos Festivais Map (Toulouse) e Face à Ia mer (Tânger), com a sua série “SQEVNV”. Em 2020, ganhou o Prémio Mentor pelo seu projeto “Mala Madre”.

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Pode conhecer melhor a obra de Céline Croze aqui (site), aqui e aqui (Vimeo).

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Queila Sofia Gomes Fernandes, nasceu em Cabo Verde na ilha de Santo Antão, a 11 de Dezembro de 1994.

Desde sempre esteve interessada por fotografia e cinema, mas começou a fotografar aos 17 anos de idade com a sua primeira câmera.

Viveu praticamente toda a sua vida na ilha de São Vicente.

Fazer fotografia foi a forma que ela encontrou de estar mais conectada com as pessoas e tentar compreender as coisas a sua volta.

Teve a oportunidade de expor o seu trabalho no Centro Nacional de Arte e Design de Mindelo em junho de 2018, por ocasião da “terceira edição da Cachupa Factory”, que é uma residência artística organizada pela Associação AOJE (Associação Olho de Gente), também fez uma exposição num festival de arte contemporânea chamada “Afirika Savoies 2019” localizada em França, na cidade Chambery, participou da” IX Bienal de Jovens Criadores da CPLP”, em Luanda – Angola e fez duas exposições em simultâneo no Centro Cultural De Mindelo e Palácio da Cultura Ildo Lobo em 2019.

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O INstantes, Festival de Fotografia de Avintes, foi criado por Pereira Lopes.

Nesta 8.ª edição, apenas com fotografia no feminino, a curadoria é de Alice WR:

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(…) cabe-me contribuir para que o impacto emocional que as imagens possam provocar aconteça, como uma dança entre o lugar e as obras, pelo prazer da arte fotográfica e pelos cruzamentos possíveis, numa dimensão maior.

O primeiro propósito, alicerçado na capacidade que as autoras têm de falar de si e de se constituírem como referentes, é destacar a autoconsciência e reflexão crítica de onde emergem, de vários prismas, diferentes identidades no feminino. Alguns trabalhos são ensaios auto-reflexivos onde as autoras, simultaneamente fotógrafas e performers, nos conduzem pelo território irreverente das suas narrativas de corpos fotografados. Seja pela busca criativa de uma imagem atrevida ou perturbadora da realidade, pela desconstrução pós-moderna, pela revalorização de uma linguagem hibrida ou pela fabricação da imagem na interseção da escultura ou da pintura com a fotografia, os trabalhos apresentados são, simultaneamente, afirmação, resistência e libertação.

O segundo propósito, reside no facto de salientar o domínio do invisível, aquele que está por detrás do que é mostrado e que importa considerar para assim se apreender a obra de forma plena. Inerente ao conjunto das subjectividades e autoralidades dos trabalhos, existe o significado/simbólico que, de forma mais literal ou mais poética, translúcida ou efémera, nos possibilita a dimensão da invisibilidade presente em conceitos universalistas como amor, morte, identidade, sofrimento, incerteza ou esperança.

Por oposição às imagens técnicas e a uma homogeneidade visual asfixiante, repetida à exaustão, o terceiro propósito consiste em refletir e fazer emergir o avesso dos processos criativos, as pontas soltas e os fios e maranhados, que são tornados públicos, nos seus lados direitos. A enfâse está na importância do processo das artistas, que experimentam diferentes procedimentos, alinhavando-os criativamente e dando lugar a um inesgotável repertório de combinações.

Por último, o propósito de afirmar a presença das mulheres no mundo da Arte e da Fotografia em particular. Tal como em tantos outros países, também em Portugal, várias mulheres fotógrafas se dedicam (e dedicaram) à Fotografia como hobby, criação artística ou meio de subsistência. (…) Os seus trabalhos, não são compatíveis com a ausência, a invisibilidade ou o silêncio.

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Pode saber sobre os eventos e as exposições na Agenda do Festival no FF, aqui e no site aqui.

Sobre as restantes exposições no FF: aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

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Cortesia: iNstantes / Alice WR.

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