JOÃO PORFÍRIO, ESTADOS DESUNIDOS DA AMÉRICA, 2021

Exposição em Porto Salvo, Oeiras, no Núcleo Central do Taguspark, de 19 de março a 14 de maio de 2021.

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João Porfírio, Estados Desunidos da América, 2020

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João Porfírio

Estados Desunidos da América

Fotografia: João Porfírio / Texto: João de Almeida Dias, Maria Mann

Lisboa: CC11 – Centro Cultural 11 / Janeiro . 2021

Português e inglês / 21,9 x 15,7 cm / 64 pp. não numeradas

Cartonado

ISBN: 9789893313909 

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Ao longo de 16 dias, entre 24 de outubro e 7 de novembro 2020, o fotojornalista João Porfírio e o redator João de Almeida Dias, percorreram mais de 2600 km nos Estados Unidos da América, para o jornal Observador, registando “um país politicamente empenhado, mas severamente espartilhado. Em Nova Iorque, encontrou uma cidade que ainda sofria o trauma da pandemia Covid-19; retratou Scranton, na Pensilvânia, a cidade natal de Joe Biden, que Donald Trump acusou de abandonar; em Filadélfia, fez uma reportagem com a comunidade afro-americana e deparou-se com as manifestações e pilhagens que se seguiram à morte de Walter Wallace Jr; na Virgínia Ocidental, captou o ambiente de um centro de recuperação de toxicodependentes; em Youngstown, Ohio, mostra os sobreviventes de uma cidade onde fechou uma fábrica da General Motors; na Pensilvânia, assistiu a um dos maiores comícios de Trump nesta campanha; em Filadélfia, cobriu um dos comícios inovadores em modo drive-in de Joe Biden; em Wilkinsburg, Pensilvânia, fez a reportagem da noite eleitoral em casa de apoiantes de Donald Trump; em Filadélfia, durante a contagem de votos, cobriu uma manifestação pró-Biden e outra pró-Trump; de regresso a Nova Iorque presenciou os festejos da eleição de Joe Biden nas ruas.”

Este livro é o catálogo da exposição homónima. Estruturado com as várias reportagens, inclui para cada uma, um texto e um conjunto de fotografias.

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A exposição tem curadoria de Maria Mann, que assina o primeiro texto do catálogo:

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DE PERTO DE LONGE

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A minha América está longe de ser perfeita. A direita e a esquerda habitam uma nação que se mantém presa por um fio, cada estado com as suas próprias leis.

Na minha carreira de directora de fotografia fui responsável pela cobertura da Casa Branca durante muitos anos. A “Febre Potomac” tomou o controle. Todas as voltas e reviravoltas, campanhas, escândalos e guerras eram a minha obsessão.

A febre nunca baixou, embora agora eu assista impotente ao desembrulhar de uma bandeira hasteada a acenar sobre uma nação dividida. De onde veio a fúria? Será que começou a crescer quando elegemos um presidente negro?

As feridas profundas da Guerra Civil nunca sararam verdadeiramente. O encorajamento desmascarado era tudo o que era necessário para uma população armada brandir armas automáticas em público. As tensões raciais são cruas e explosivas.

A crise política teve depois a companhia de uma pandemia mortífera. A Covid levou mais de 300.000 almas, uma catástrofe evitável. As empresas estão fechadas e o desemprego é galopante. No entanto, no espírito do individualismo, milhões de pessoas desdenham os conselhos fiáveis dos peritos médicos.

Infelizmente, fomos descarrilados pelo caos, pois esquecemos o que em tempos foi uma prioridade, abordando a espiral de crise opióide e as vidas perdidas. Mas de alguma forma a esperança prevalece através da boa vontade das pessoas que dão de si próprias.

Determinados a fazer a diferença, os eleitores compareceram em número histórico à eleição de Joseph Biden. Donald Trump deixou uma América em extrema necessidade de reparação, cura e reconstrução.

João Porfírio e João de Almeida Dias capturaram o próprio coração da América de hoje numa documentação eloquente e evocativa. As suas imagens e palavras colocam-nos diretamente no centro de uma América Desunida.

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João de Almeida Dias, escreve sobre o projeto:

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ESTADOS DESUNIDOS DA AMÉRICA

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Ninguém é indiferente nos EUA.

Os tempos em que se encolhiam os ombros perante a política estão para trás naquele país. A política é agora tão polarizante como o desporto, tão agressiva como uma luta de rua, tão impossível de ignorar como uma casa em chamas. E assim desde que Donald Trump saiu dos reality-shows e entrou na Casa Branca e, em 2020, ano de pandemia e eleições, tudo isto atingiria um máximo.

Quando chegámos ao nosso primeiro hotel, a 23 de outubro, a CNN mostrava um apresentador aos gritos com um conselheiro da campanha de Donald Trump. No canal seguinte, a Fox News, um painel de oradores punha em causa a sanidade mental de Joe Biden a dias das eleições. Ali, em canais vizinhos, duas Américas afundavam-se cada uma no seu canto.

Nos 16 dias em que estivemos juntos nos EUA em reportagem, não encontrámos ninguém disposto a ficar a meio caminho. Ouvimos quem pusesse Trump ao lado do pior dos fascistas e também quem equiparasse Biden a ditadores comunistas. Conhecemos também quem tivesse deixado de falar com amigos ou familiares por não tolerarem as suas opiniões políticas. Os poucos que tentam a via da conciliação estão habituados a fracassar.

Passámos por quatro estados: Nova Iorque, Pensilvânia, Virgínia Ocidental e Ohio, onde assinámos em conjunto 16 reportagens. Fomos dos prédios imensos de Manhattan às planícies de perder de vista no Ohio. Falámos com pessoas felizes pelo estado do seu país e outras que se sentiam no limite.

Aqui, contamos como foram esses dias, entre as pessoas que conhecemos e os desafios que encontrámos. Procurámos sempre entender as nuances de histórias muitas vezes simplificadas, quisemos chegar mais perto para entender melhor. Tentámos, mais do que escrever sobre política, falar sobre as consequências que esta tem na vida das pessoas incluindo quando as ignora. No final, encontrámos pessoas que dificilmente se sentariam à mesma mesa para trocar pontos de vista. E que, por isso ser impossível, falam consigo mesmas numa eterna discussão com o Outro. São os Estados Desunidos da América.

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As eleições para o presidente dos Estados Unidos foram o ponto de partida para a viagem e para as reportagens. Muito diferentes no modo de fazer, permito-me incluir aqui os textos de João de Almeida Dias a propósito dos tão diferentes comícios das duas campanhas – e um pouco em termos de diário de viagem – e que integram o catálogo:

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NO COMÍCI0 DE TRUMP, COM LOUIS, O IRMÃO E O RESTO DA FAMÍLIA MAGA

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Quando reparei em Louis, faltava uma hora para o comício de Trump em Butler, na Pensilvânia. A roupa dele não condizia com o frio daquele fim de tarde de 31 de outubro: vestia apenas jeans, uma t-shirt e um boné de Trump. Depois, percebi que era a antecipação que o mantinha quente.

O nervosismo começou no caminho. “Lou, não te preocupes, vais sentir-te em casa”, disse-lhe o irmão, que o acompanhou. E tinha razão: ali chegados, os dois desdobraram-se em conversas com outros apoiantes do Presidente, confirmando a sua pertença à família Make America Great Again a cada uma.

Nessas conversas, abordavam tudo que os inquietava. Atiraram contra as fake news e defenderam os media “equilibrados”, como a Fox News e a OANN. Falaram de motas e acusaram os democratas de quererem obrigar toda a gente a andar de autocarro. Admitiram que a Covid-19 existe, mas que é um exagero. Trocaram dicas sobre as melhores armas para comprar no caso de uma vitória de Biden.

Os dois irmãos mal ouvem Trump. Mas, no final, acompanham-no no seu slogan. “Vamos tornar a América grande outra vez!” grita Louis. Steve também o faz, mas mais tímido e de olho no irmão, embevecido com a sua felicidade.”

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NUM COMÍClO DRIVE-IN DE BIDEN, À PROVA DE COVID E TAMBÉM DE ENTUSIASMO

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Ainda antes de chegarmos ao comício de Trump, soubemos que Biden ia discursar em Filadélfia dentro de dois dias. Boa notícia: era um comício drive-in, formato adaptado à política em tempos de pandemia. Má notícia: era um evento fechado, em local a anunciar.

Liguei à única pessoa que nos podia ajudar: Anton Moore, o líder do Partido Democrata em Filadélfia que conhecemos dias antes. “Onde é?” perguntei. “FDR Park”, respondeu. “Podemos ir contigo?”, continuei. “Sim, bora.”

No dia do comício, entrámos de carro com Anton. Depois de três controlos de segurança, incluindo serviços secretos, estacionámos num dos lugares disponíveis. À nossa volta, poucos arriscavam afastar-se dos carros. A exceção era Sandy, que tentava juntar pessoas para um cântico pró-Biden. Sem sucesso.

“Se as eleições correrem tão bem como isto aqui, então vamos com o Trump mais quatro anos”, diz.

Só piorou. Quando Biden discursou, chovia torrencialmente. Alguns aproximaram-se do palco, mas pouco, guardando distância do candidato, que chegou ao local com duas máscaras. Ficou claro que era um comício à prova de Covid — mas também de entusiasmo. Anton é prova disso: nunca saiu do carro.

1 de novembro 2020.”

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E, já no dia de regresso…

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O RESULTADO DAS ELEIÇÕES CHEGOU, AO CONTRÁRIO DO TESTE

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Na manhã de 7 de novembro acordámos em Nova Iorque. Entreguei o último texto de cedo e dei o meu trabalho por concluído. Pouco depois, o João Porfírio juntar-lhe-ia as fotografias e faria o mesmo. Estávamos errados.

Saí para comer um brunch perto da Union Square. Sentei-me, pedi a comida e peguei num livro. Depois, ouvi gritos na rua. Peguei no telemóvel e os alertas começaram a cair: Joe Biden ia ser Presidente. Despachei a comida e entrei em direto na Rádio Observador. Enquanto falava, ouviam-se gritos e buzinas.

Enquanto isso, o João Porfírio estava na Times Square. Passeava quando teve a mesma experiência. Primeiro, os urros de felicidade. Depois, os alertas no telemóvel. Enfim, a festa. O João Porfírio fotografou tudo, mas agora sem as minhas letras a acompanhar. A minha preocupação era outra: o teste à Covid. Embarcávamos para Lisboa daí a cinco horas. Ele já tinha o resultado do teste, que chegou de madrugada. Já eu, passei o resto do dia ao telefone a perguntar pelo meu. Lá admitiram: “Não vai recebê-lo hoje”. O João Porfírio acabou por voltar sozinho e eu fiquei mais dois dias à espera dos resultados — não das eleições, claro. Esses estavam finalmente resolvidos.”

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João Porfírio, Estados Desunidos da América, 2020 (fotografias), 2021 (edição)

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A exposição “Estados Desunidos da América”, de João Porfírio, estava prevista para inaugurar na Casa da Imprensa, em Lisboa, a 20 de janeiro, data da tomada de posse do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, tal não foi possível devido à situação de emergência. Pode-se ver no Núcleo Central do Taguspark, em Porto Salvo, Oeiras, de 19 de março a 14 de maio de 2021 (até 5 de abril apenas para funcionários).

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António Bracons: João Porfírio, Bruno Portela (CC11), Maria Mann, Aspetos da exposição, 2021.

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João Porfírio, natural de Portimão (1996), estudou jornalismo em Lisboa. É editor de fotografia e fotojornalista do Observador tendo já passado pela agência Lusa, pelo semanário SOL e o Jornal i. Já realizou reportagens em diversos países como Iraque, França, Espanha, Reino Unido, Alemanha, Croácia, Sérvia, Turquia, Grécia, Hungria, Eslovénia, Marrocos e Estados Unidos. Acompanhou a crise dos refugiados durante o ano de 2015 e 2016. Em Portugal cobre diariamente assuntos relacionados com política, sociedade e cultura.

Foi convidado por Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente da República Portuguesa, a participar no livro de comemoração do segundo ano de mandato.

Venceu o Prémio Estação Imagem 2019 na categoria de Notícias e o segundo prémio do concurso Somos – Imagens da Lusofonia, edição de 2021, organizado pela Fundação Oriente, em Macau.

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Maria Mann, natural dos EUA, foi directora de relações internacionais da EPA de 2007-2018; anteriormente, foi directora de eventos globais actuais na Corbis, Paris, directora de fotografia para as Américas na Agence France-Presse (AFP), e depois editora-chefe de fotografia internacional da AFP em Paris. Tem julgado concursos de fotografia para a UNICEF, Bayeux War Correspondents, PoY, integrou por duas vezes o júri do World Press Photo.

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João de Almeida Dias, natural de Évora, entrou no jornalismo em 2012. Escreveu no Observador e noutros órgãos nacionais e internacionais. Fez reportagem a partir de vários países em quatro continentes. Recebeu o Prémio de Jornalismo “Direitos Humanos & Integração”.

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Pode conhecer mais sobre o trabalho de João Porfírio no site do jornal Observador, aqui.

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