FABRICE ZIEGLER, GENTE DAQUI

Um olhar sobre o Cortejo Histórico e Etnográfico de Serpa, que se realiza no Domingo de Páscoa. Exposição em Serpa, na Praça da República, ao ar livre e na Casa do Cante, de 2 a 30 de abril de 2021

.

.

.

Fabrice Ziegler, Gente daqui, 2017, 2018, 2019

.

.

Sobre esta série, escreve João Matias:

.

Podem ser feitas várias abordagens, mas qualquer uma delas tem como objetivo principal a valorização da experiência e o carácter único do “facto social total”, que representa o Cortejo Histórico e Etnográfico de Serpa.

.

A exposição “Gente daqui” tem como objeto as pessoas que fazem o Cortejo Histórico e Etnográfico de Serpa — organizadores, construtores, figurantes e público — e traduz o olhar de Fabrice Ziegler, um dos muitos olhares possíveis, sobre este acontecimento riquíssimo em que praticamente toda a comunidade se revê.

Ao centrar-se nas pessoas, o autor vê o Cortejo da Páscoa essencialmente como uma comunhão coletiva onde toda a gente coopera. É uma manifestação transversal que a todos inclui: não distingue idades, simpatias partidárias, condições sociais, etnias nem profissões. Criado em 1979, período em que as lutas sociais e políticas que marcaram Portugal nos anos pós-revolução estavam bem vivas nesta região, o cortejo procurou afirmar o mundo do trabalho, valorizando os trabalhadores de um mundo rural de vida difícil e fazendo da celebração da Páscoa uma festa democrática. Mas não excluiu as figuras marcantes das elites, conciliou-as. Este movimento de harmonização, dado através da integração das dimensões etnográfica e histórica do cortejo, ter-se-á completado quando o cortejo e a procissão de domingo de Páscoa, que inicialmente eram coincidentes e rivais, trocaram a competição pela cooperação. As representações do profano e do sagrado compatibilizaram-se.

O cortejo é feito por homens e mulheres que trabalham durante meses para o organizar e construir, que emprestam as suas alfaias, colaboram com os seus animais, participam com o seu próprio corpo ou com a sua voz, materializando um desfile que, ano após ano, entusiasma os naturais de Serpa — residentes ou ausentes — e os visitantes.

O presente trabalho não podia deixar de referir algumas das pessoas que foram fundamentais na criação do cortejo: desde logo João Rocha, Presidente do Conselho Diretivo da Escola Secundária de Serpa de então e que seria presidente da Câmara Municipal nas décadas seguintes — ele é considerado o idealizador do cortejo e o responsável por trazê-lo para a esfera do Município; João Mário Cadeira, presidente do Conselho Diretivo da, à época, Escola Preparatória, co-autor da ideia e a quem se atribui a conceção da parte histórica; António Palma, o “Palminha”, grande conhecedor da etnografia local; José Mariz, também professor, essencial na pesquisa dos arquivos; José Maria Piroleira, artífice dos primeiros carros, que teve em João Passarinho um digno continuador; também Piedade Gonçalves e Dulce Romão, importantíssimas desde a primeira hora. Figuras iniciais de destaque, entre outras, provavelmente tão merecedoras quanto às mencionadas, a quem as limitações humanas de quem escreveu estas linhas terá injustiçado ao não referir. Contudo, o que definitivamente marca o Cortejo Histórico e Etnográfico é a sua dimensão coletiva e democrática, corporificada através da cooperação.

Neste ano de 2021, o segundo consecutivo em que o cortejo é cancelado por causa da pandemia mundial de covid 19, é fundamental manter viva a memória deste trabalho coletivo que, anteriormente, só por uma vez (1990) não se havia realizado. Lembrá-lo hoje é assegurar que ele regressará às ruas de Serpa, assim que os serpenses tiverem condições para voltarem a fazer o tanto que gostam: dar total liberdade à sua imensa e criativa forma de celebrar a vida.

.

A exposição

.

O trabalho é constituído por fotografias tiradas pelo autor durante os meses de construção dos cortejos e desfile dos cortejos de 2017, 2018 e 2019; e por imagens de desfiles anteriores que pertencem ao acervo municipal.

O eixo central é dedicado à participação popular. São fotografias dos figurantes e do público, que enchem as ruas de Serpa no domingo de Páscoa para ver o cortejo passar.

Há, também, fotografias de anos anteriores, que Fabrice Ziegler selecionou para transmitir a dimensão histórica do cortejo. Pertencem ao arquivo municipal e muitas são de autoria desconhecida.

Não podiam deixar de ser retratados os construtores do cortejo. É a parte não visível para o público, constituída, na quase totalidade, por operários e outros trabalhadores da câmara municipal.

.

.

.

.

A exposição “Gente daqui. Um olhar sobre o Cortejo Histórico e Etnográfico de Serpa”, de Fabrice Ziegler, apresenta-se em Serpa, ao ar livre, na Praça da República, e na Casa do Cante, de 2 a 30 de abril de 2021.

.

.

.