DAVID CACHOPO, LONESOME TRAVELER PROJECT. LISBOA – VIK, 2020
Uma viagem fotografada sem sair de casa.
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David Cachopo
Lonesome Traveler Project. Lisboa – Vik
Fotografia: David Cachopo / Texto: Luís Mendonça, João Pedro Cachopo
Edição do Autor / Agosto 2020
Brochura / 12,7 x 20,3 cm / 372 pp.
Brochura
ISBN: 9781715363178
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Que [a fotografia] enriqueça rapidamente o álbum do viajante…
Charles Baudelaire, “Le public moderne et la photographie”, 1859.
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Pode-se viajar em tempo de pandemia e em estado de emergência? Sim. Quem o diz é David Cachopo, através deste livro. Há vários modos de viajar. E David Cachopo, que esteve já duas vezes na Islândia, quis regressar ao país. Foi, “sem sair de casa”. E melhor, fotografou. Dessas fotografias surgiu este livro.
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Durante o período de “estado emergência” devida à Covid-19, David Cachopo viajou desde porta de sua casa em Lisboa até Vik, na Islândia.
Esta viagem foi impulsionada por uma conversa com a sua namorada, no final do seu 10ºdia de confinamento, na qual lamentava não poder ir a Vik devido às circunstâncias em que se encontravam. A resposta desarmou-o: essa inevitabilidade podia ser contornada, viajando pelo Google Street View.
Assim se iniciou uma viagem, click a click, pelas ruas captadas pela Google, ao longo de 45 dias, sem sequer sair de casa. David Cachopo não só viajou como fotografou essa viagem, a sua principal motivação para se fazer ao caminho. Fotografou o que lhe chamou a atenção, o que lhe suscitou reflexões e curiosidade.
O resultado foi Lonesome Traveler Project, apresentado neste livro que não só materializa, e o “diário de bordo” que foi publicado no Instagram durante a viagem, como acrescenta outras imagens e as põe em diálogo criando novas leituras neste que é o formato idealizado para o projecto desde o seu início.
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João Pedro Cachopo escreve sobre a viagem:
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Um solitário por entre imagens
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Poisou, nestes tempos de pandemia, a máquina fotográfica. Mas não deixou de fotografar. Nem de viajar. Pôs-se a caminho — virtualmente a caminho — da Islândia. Já lá havia estado e há-de voltar. Esta viagem de Lisboa a Vik, atravessando Portugal, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Dinamarca; de onde apanha um ferry até à Islândia — fá-la através do Google Street View. Solitário por entre imagens, David Cachopo adentra-se no mundo fotografado. Em cada esquina, uma história que se não sabe mas se inventa, um aroma que se não sente mas se imagina, um embate que se não sofre mas se deseja. Que se deseja como a própria viagem. É ela – a experiência da viagem – o real remediado. E, porém, não há remédio. Não nos curamos do desejo de viajar. Estas fotografias deixam-nos com ainda mais vontade de partir. Entretanto, contam-nos imagens do que não sabíamos e revelam, porventura, um pouco de nós.
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Como descrever o “mundo fotografado” que o viajante solitário percorre? O Google Street View foi lançado pela Google em 2007. Mostra vistas panorâmicas de estradas, ruas e carreiros, incluindo algumas travessias marítimas, pelas quais é possível percorrer o planeta. Estas imagens são capturadas por uma câmara orbicular montada no topo de um carro ou de veículos de menores dimensões ou ainda acoplada á mochila de um viajante pedestre. Hoje, a realidade virtual correspondente à totalidade destas imagens abrange grande parte do mundo dito “desenvolvido” e atinge espaços remotos como estepes mongóis, os fiordes escandinavos ou o deserto do Atacama. Nalguns casos, sobretudo em ambiente citadino, as imagens são actualizadas com uma periodicidade que varia entre os seis meses e os três anos. Viaja-se, pois, não só no espaço, entre paisagens, mas também no tempo, entre estações.
David Cachopo não foi o primeiro e não será seguramente o último — fotógrafo a aventurar-se no mundo virtual do Google Street View. Pelo que cabe perguntar: o que atrai os fotógrafos neste tipo de experiência? Quais as suas motivações? Voyeurismo? Curiosidade? Inventividade? Nenhuma destas respostas pode estar certa ou errada de antemão, pois é provável que as razões se misturem e confundam. E há uma – motivação (negativa) ainda mais óbvia: a impossibilidade viajar. Esta impossibilidade, por sua vez, decorre de circunstâncias de vário tipo: a mera contingência geográfica, uma fobia psicológica, um surto epidémico. Passandoa viver entre Hong kong e Paris, o fotógrafo Michael Wolf cedo se apercebeu de que Paris se transformara num mausoléu. É então que decide explorar Paris a partir do Google Street View. Já a autora de “The Agorafobic Traveler”, como o nome do projecto sugere, pouco dada a viagens e a ambientes citadinos. Mas nem por isso deixou de viajar e de deambular por cidades. No caso de “Lonesome traveler”, esta impossibilidade – que é comum a muitas e muitos de nós por estes dias – prende-se com o que sabemos: a pandemia da Covid-19 e as restrições à mobilidade que implica.
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David Cachopo definiu o trajeto pela Google: qual o percurso, para fazer a pé, de sua casa, em Lisboa, a Vik, na Islândia? A Google traçou o percurso.
O Google Street View regista praticamente toda a Europa, excepto na Alemanha, onde apenas as grandes cidades estão fotografadas, saltou aqui os troços entre cidades. E na Dinamarca apanhou o navio para a Islândia, indo buscar uma fotografia do mar do Norte, da travessia, que alguém acrescentou (p. 319).
Levantava-se, tomava o pequeno-almoço e sentava-se ao computador, nove e meia, dez horas. Pausa para o almoço e retomava o caminho até ao fim da tarde. Recomeçava no dia seguinte, do mesmo local. De 24 de março a 6 de maio de 2020. 45 dias de caminhada.
David Cachopo fez todo o percurso, estação a estação, passo a passo. E a cada passo olhou em redor. “Fotografou” o que o tocou, como se caminhasse realmente. O detalhe, a panorâmica, as pessoas, a paisagem… Com as colagens das sobreposições desfasadas dos frames, os rostos desfocados pelo programa da Google (a que escapam alguns, como encontrou), o auto-retrato da câmara fotográfica refletido nalgum espelho, os edifícios, os “momentos decisivos”, uma folha no ar…
As imagens foram organizadas seguindo basicamente o percurso, por vezes com algum ajuste. No final identifica-se o local de cada uma. Estão a preto e branco.
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Luís Mendonça escreve sobre as imagens de Cachopo, como elas lembram as de outros fotógrafos e sobre o processo utilizado, em “Pelo mundo perdido da aventura”:
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Estranhar o algoritmo
O fotógrafo David Cachopo realizou a ordem e efectivamente conferiu materialidade às suas imagens. Realizou-as, imprimiu-as. Passo decisivo para as entendermos como “fotografia”, fotografar é interromper, criar uma ordem do sensível, capturar qualquer coisa que os outros não viram, não viram assim, essa captura – transferi-la para o mundo, tornar realizado e reconhecível um certo ângulo do olhar. Cachopo scana e (re)corta a imagem pré-configurada, procurando adaptar o algoritmo a uma sensibilidade viva, tangível, de fotógrafo, alguém que, apesar de tudo, existe, está no mundo — fotografar é conferir importância (diria Sontag) mas no online é dar mundo, abrindo fendas no movimento sempiterno (dromosférico, diria Virilio [2000: 47]), sem dia e noite, da Internet.
O primeiro elemento transgressor deste trabalho está, assim, na sua materialidade. Mas radica, logo a seguir, no acto de ver como paragem, recorte ou corte (crop enquanto cadrage). O fotógrafo do ciberespaço não deixa de ser um caçador furtivo. Nesse sentido, o exercício dê David Cachopo passa também por encontrar uma fotografia de observação, de rua ou de viagens, sem sair do espaço (muito [de]limitado) do ecrã do computador. A fotografia pode estar e ser encontrada aí; a arte fotográfica faz-se numa predisposição para procurar, para se procurar algo onde quer que seja, mesmo num espaço de ninguém, onde tudo é simulacro e a realidade aparece partida em imagens imóveis, reduzidas à condição de puros meios para se fazer chegar a algum lado. No online reina um movimento-tempo que parece cobrir tudo e não deixar nada à descoberta ou à aventura. “O mapa é este, sirva-se dele.” Cachopo serviu-se para outros fins, interrompendo o fluxo sem centro de imagens-paragens com o movimento da arte, impondo àquele a tradição viva da fotografia — por muito que esta “estranhe” o algoritmo. Eis uma forma do artista de, como também enuncia Sloterdijk (2004: 43), produzir “calma na tempestade para seres princípio ao fim condenados à acção”.
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Este livro levanta diversas questões: o que é a fotografia e a fotografia de autor?
A Google apresenta fotografias sem autor, por serem obtidas automaticamente por sistemas fotográficos e informáticos que registam a distâncias programadas, olhares sistemáticos de 360º, tudo captando, desfocando automaticamente os rostos (quase todos…) e as matrículas de viaturas. Estas fotografias são fragmentos desses registos, mais ou menos amplos, mais ou menos reduzidos, que Cachopo fotografou, enquadrou como faria se os visse na realidade. As imagens obtidas passaram a ser olhares pessoais, fotografias, personalizadas, com autoria. Baseadas não na realidade viva e em movimento permanente, mas num registo – fotográfico – dessa realidade.
O registo fotográfico torna-se, assim, na realidade.
A viagem que seria impossível há alguns anos, torna-se agora possível, viável, como que real.
Há pouco tempo, ao procurar localizar algumas imagens que fiz em Veneza, ao percorrer algumas artérias e refazer o percurso, através do Google Street View, fui reencontrar algumas das fotografias que registei. Estavam ali alguns dos meus olhares, fragmentos em capturas mecânicas/automáticas de 360º…
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David Cachopo, Lonesome Traveler Project. Lisboa – Vik, 2020
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David Cachopo
Pós-graduado em Discursos da Fotografia Contemporânea pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e licenciado em Cinema, Vídeo e Comunicação Multimédia pela Universidade Lusófona, tendo frequentado o primeiro ano do curso na Escola Superior de Teatro e Cinema.
Formação suplementar na área de fotografia analógica pelo NAF e pela Ar.Co, na área do fotojornalismo pelo Cenjor e pela World Academy.
Publicou os livros: Metro, 2018; Passa num instante, 2020 e Lonesome Traveler Project Lisboa – Vik, 2020.
Exposições individuais:
-“Lisboa com história” – Trampolim Gerador (Lisboa) – 2019
-“Circulatio” – Centro de Interpretação de Monsanto (Lisboa) – 2019
– “Jardim da Memória” – Galeria da Livraria Barata (Lisboa) – 2019
– “Jardim da Memória” – A Reserva na Fábrica, Fábrica da Pólvora (Barcarena) – 2019
-“In Bocca al Lupo. Crepi il Lupo” – Foruns Fnac (Lisboa,Porto,Guimarães) – 2018 – 2019
-“In Bocca al Lupo” – Galeria Raúl Solnado, Casa do Artista (Lisboa)- 2017
-“Observador e Observado” – Casa do Sal (Castro Marim) – 2016
Exposições Colectivas:
– “Em cc – Suspensão e Gravidade” – FBAUL (Lisboa) – 2019
– 4º Prémio de Fotografia de Sintra – Mu.sa (Sintra) – 2018
– 3º Prémio de Fotografia de Sintra – Mu.sa (Sintra) – 2017
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Pode saber mais sobre a obra de David Cachopo e adquirir o livro, aqui.
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