ANA BOTELHO, CARLA DE SOUSA, CLARA MOURA, FÁTIMA LOPES E TERESA VALENTE, O MEU AMOR NÃO CABE NUM POEMA, 2021
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Ana Botelho, Carla de Sousa, Clara Moura, Fátima Lopes e Teresa Valente
o meu amor não cabe num poema
Fotografia: Ana Botelho, Carla de Sousa, Clara Moura, Fátima Lopes e Teresa Valente / Poema: Maria do Rosário Pedreira / Coordenação: Carlos Dias
Edição de Autor / Março . 2021
Português / 21,0 x 21,0 cm / 100 pp.
Brochura / 110 ex. numerados / Inclui cinco fotografias, uma de cada autora, numerada e assinada no verso, formato 15 x 20 cm em papel fotográfico de haleto de prata Fujicolor Crystal Archive Paper Supreme, lustro, 238 g/m2
ISBN: 9789893315262
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O meu amor não cabe num poema – há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.
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O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto –
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.
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O meu amor não se deixa dizer – é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.
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O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome – é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.
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Maria do Rosário Pedreira (2001, 2012). in: O Canto do Vento nos Ciprestes. Lisboa: Gótica: p. 18. e Poesia Reunida. Lisboa: Quetzal: p. 94.
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O meu amor não cabe num poema
Este livro é uma ternura,
Não fosse ele o olhar de cinco mulheres,
A impressão suave,
E os olhares serenos.
Folheio-o em silêncio…
O meu amor não cabe nestas fotografias.
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Foi através de Fernanda Botelho que Carlos Dias conheceu a poesia de Maria do Rosário Pedreira. Para este projeto, escolheu este poema, sem título, mas cujo primeiro verso deu o nome à obra, e convidou 5 fotógrafas para criarem com base no poema.
Fotografando propositadamente ou trabalhando no arquivo pessoal, as cinco autoras apresentam-nos cinco portfólios distintos, acompanhados pontualmente por algum breve texto.
O projeto desenvolveu-se no período de poucas semanas, em pleno período de contingência.
O livro foi apresentado no passado dia 8 de março, Dia Mundial da Mulher.
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Carlos Dias, o coordenador, escreve sobre a obra:
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Maria do Rosário Pedreira é uma escritora que admiro. Descobri-a em 2004 com o livro A Casa e o Cheiro dos Livros e o meu encantamento pelas suas palavras foi imediato. Desde então, acompanho a sua obra poética com crescente admiração.
Em 2015, tive a experiência de criação de imagens fotográficas a partir de um livro de poesia de outro autor, processo que se revelou multo gratificante e constituiu um verdadeiro desafio ao meu Imaginário.
Entretanto, tenho vindo a explorar, cada vez mais, esta vertente da fotografia, que consiste em criar imagens fotográficas que, metaforicamente, procuram desenvolver um olhar subjectivo com base em textos, poemas, conceitos, emoções e, também, aferir o meu quotidiano: uma realidade que é parcialmente minha, vivida entre a realidade dos outros.
A ideia de celebrar o Dia Internacional da Mulher foi o ponto de partida para a realização de um projecto que se materializaria num foto-livro a ser apresentado publicamente no dia 8 de Março de 2021. Para tal, convidei cinco fotógrafas a criarem um ensaio fotográfico individual a partir do poema O meu amor não cabe num poema de Maria do Rosário Pedreira. O ensaio seria desenvolvido individualmente com toda a liberdade e autonomia, respeitando apenas dois requisitos: a limitação ao número de páginas (16 no total para cada fotógrafa) e a utilização de imagens a preto-e-branco.
Desafiei as cinco autoras por conhecer os trabalhos fotográficos que têm vindo a apresentar nos últimos anos; pelo olhar poético que lançam sobre o que as rodeia e sobre a sua inquietude quotidiana; por acreditar no potencial de criatividade que encerram e por estar convicto de que poderiam produzir ensaios fotográficos interessantes, publicados, agora, neste livro, também ele imageticamente poético.
Agradeço a Maria do Rosário Pedreira que gentilmente aceitou a citação, na íntegra, do seu poema. Grato também às autoras das imagens: Ana Botelho, Carla de Sousa, Clara Moura, Fátima Lopes e Teresa Valente, por terem aceitado o desafio e acreditado na viabilidade do projecto.
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Coimbra, Março de 2021
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Ana Botelho, Carla de Sousa, Clara Moura, Fátima Lopes e Teresa Valente, o meu amor não cabe num poema, 2021
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Ana Botelho
Natural de Vila Real, vive e trabalha em Coimbra. Funcionária Pública, sempre com e para a Cultura, por convicção e forma de vida. Fotógrafa com cerca de duas dezenas de exposições, nacionais e internacionais, é a área de criação artística eleita. E algumas obras publicadas. Desde cedo a memória foi enriquecida e fantasiada pela fotografia, primeiro com as imagens de uma ascendência familiar, depois com as suas próprias imagens, em momentos impossíveis de estar presente e de memorizar, que a leva a criar esses instantes, das pessoas e dos lugares.
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Carla de Sousa
Natural de Luanda, Angola, onde nasceu em Abril de 1974, vive em Leiria. A fotografia tem sido, desde 2012, a sua principal forma de expressão artística. Através das suas imagens, busca a poesia do quotidiano em detalhes minimalistas e estudos de luz, utilizando o corpo e a auto-representação, simultaneamente, como ferramenta de auto-conhecimento e de performance poética. O seu trabalho tem integrado várias exposições, colectivas e individuais, em Itália Espanha, Noruega, Finlândia e Portugal.
Pode conhecer mais sobre o trabalho de Carla de Sousa aqui.
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Clara Moura
Natural de Ribeira dos Carinhos, concelho e distrito da Guarda, vive e trabalha em Coimbra desde 1974, ano em que regressou a Portugal, depois de 7 anos emigrada em França. Desde cedo se interessou pela fotografia, mas só há pouco tempo lhe tem dedicado maior empenho enquanto meio de expressão artística. Nesse sentido, tem vindo a participar em diversas formações e projectos criativos centrados na dimensão expressiva da fotografia, questionando a sua essência, a sua pertinência na actualidade e o seu futuro enquanto meio de expressão artística, O seu trabalho, comprometido com a dimensão poética da realidade, inscreve-se na linha do que François Soulage identifica como sendo as três sub-categorias da estética fotográfica: a estética da encenação, a estética da ficção e a estética do referente imaginário.
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Fátima Lopes
Natural de Cantanhede, onde vive e trabalha como professora de Educação Especial. Divide a sua atividade entre a docência e a Associação fotografARTE dedicando o seu tempo livre à Fotografia. A Fotografia pode ter vários tipos de uso, mas gosta particularmente de a usar em processo criativo. O ato de criar através da fotografia, é um ato de reflexão, de comunicação e de maior descoberta sobre nós próprios. Investe na leitura e formação na área da Fotografia. Participou em exposições coletivas e este é o seu terceiro trabalho de desenvolvimento nesta arte criativa.
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Teresa Valente
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, vive em Cantanhede. Expressar uma realidade imaginária tornou-a fotógrafa. As referências autorais e a boa cultura visual são os alicerces da sua criação imagética. A fotografia é a trans(posição) da sua realidade. Do seu percurso artístico constam várias exposições e edições colectivas.
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Carlos Dias
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, vive em Coimbra, onde trabalha como Consultor Web em Usabilidade e Acessibilidade, Sites WordPress, Design Gráfico e ainda como Fotógrafo e Formador de Fotografia. Desde 1992 que tem tido imagens integradas em exposições individuais e colectivas, em Portugal, Espanha e Bélgica. Encara a Fotografia como uma Arte do Olhar, que o Inspira e desafia.
Poe conhecer melhor o trabalho de Carlos Dias aqui.
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Maria do Rosário Pedreira
Natural de Lisboa. É editora e dedica-se à descoberta e divulgação de novos autores portugueses. Como poeta, estreou-se em 1996 com A Casa e o Cheiro dos Livros, a que se seguiram O Canto do Vento nos Ciprestes e Nenhum Nome Depois. Também é autora do romance Alguns Homens, Duas Mulheres e Eu e de duas séries de livros juvenis adaptados à televisão. Recebeu vários prémios literários. Mantém o blogue Horas Extraordinárias no qual partilha diariamente a sua paixão pelos livros.
Pode ver o blog aqui.
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