MANOEL DE OLIVEIRA, MANOEL DE OLIVEIRA FOTÓGRAFO, 2020
Exposição na Fundação de Serralves de 23 de outubro de 2020 a 27 de junho de 2021.
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Manoel de Oliveira
Manoel de Oliveira Fotógrafo Photographer
Fotografia: Manoel de Oliveira / Textos: António Preto, Manoel Oliveira, Bernardo Pinto de Almeida, Emília Tavares, David Campany, Maria do Carmo Serén
Porto: Fundação de Serralves / Outubro . 2020
Português e inglês / 21,7 x 26,6 cm / 352 pp.
Capa mole
ISBN: 9789727393800
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Este catálogo é uma verdadeira surpresa, correspondente à descoberta da surpreendente fotografia que Manoel de Oliveira desenvolveu sobretudo entre 1939 e 1945, quando participou em diversos salões fotográficos, com o entusiasmo transmitido por António Mendes, amigo e diretor de fotografia dos seus filmes. Mendes estava também ligado à delegação no Porto do Grémio Português de Fotografia, aberta em 1939.
A fotografia de Oliveira é contemporânea ao seu tempo, experimentalista, ao nível do muito bom que se fazia na Europa e em Portugal. As mais de cem imagens que o catálogo reproduz testemunham-no.
Oliveira participou em vários salões neste período e teve duas fotografias publicadas nos catálogos. Curiosamente durante o período da II Guerra Mundial, em que as preocupações da maior parte dos países da Europa e do Mundo estavam centradas no esforço da guerra, pelo que os salões de fotografia eram reduzidos, agravado pelas dificuldades de comunicação.
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O catálogo, além de reproduzir as fotografias de Manoel de Oliveira patentes na exposição, inclui diversos ensaios: “ A fotografia no cinema de Manoel de Oliveira”, por António Preto, diretor da Casa do Cinema Manoel de Oliveira; “Angélica, um filme que não me deixaram fazer”, de Manoel Oliveira; Bernardo Pinto de Almeida escreve “Manoel de Oliveira, fotógrafo?”; Emília Tavares, “O manipulador da luz”; David Campany, “Um aditamento: a fotografia de Manoel de Oliveira, então e agora” e Maria do Carmo Serén escreve “A imagem parada”.
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Manoel de Oliveira Fotógrafo, pág. 138. (detalhe).
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Da folha de sala da exposição transcrevo este texto:
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As mais de cem fotografias que agora se apresentam na exposição Manoel de Oliveira Fotógrafo são, sem dúvida, uma das grandes surpresas que o arquivo pessoal do realizador, integralmente depositado em Serralves, reservava. Produzidas entre o final dos anos 1930 e meados dos anos 1950, estas imagens, guardadas durante várias décadas e na sua maioria inéditas, revelam não só uma faceta desconhecida de Oliveira – a sua atividade enquanto fotógrafo –, como abrem igualmente novas perspetivas sobre a evolução da sua obra cinematográfica.
Esta passagem de Manoel de Oliveira pela imagem estática é uma etapa determinante do seu percurso como cineasta. Em diálogo tanto com o pictorialismo como com o construtivismo e com as experiências da Bauhaus, as suas fotografias estão a meio caminho entre a exploração dos valores clássicos da composição e o espírito modernista que animou toda a primeira fase da sua produção cinematográfica.
Pode presumir-se que a curiosidade do jovem realizador pela fotografia se deve, em boa medida, à convivência e amizade que, nesse tempo, o unem a António Mendes. É este reputado fotógrafo amador, com fortes ligações ao associativismo, nomeadamente à delegação nortenha do Grémio Português de Fotografia e aos Salões Internacionais de Arte Fotográfica, quem assegura a câmara nos cinco filmes que vão de Douro, Faina Fluvial (iniciado em 1929 e concluído em 1931) a Aniki-Bóbó (1942), todos rodados a preto e branco. Será no contexto desses Salões que, entre 1939 e 1945, Oliveira exibirá, com bastante assiduidade, algumas das suas imagens – como dão nota os exemplares dos catálogos que se apresentam na exposição.
Desenvolvendo-se a par do cinema, a sua prática fotográfica intensifica-se no início da década de 1940 e viria a ser abandonada quando, após a longa paragem de catorze anos que se seguiu a Aniki-Bóbó, regressa finalmente à realização com O Pintor e a Cidade (1956). Depois de em setembro de 1955 ter frequentado um estágio para aprendizagem da cor na AGFA, em Leverkusen (Alemanha), Manoel de Oliveira assumiria, de ora avante, a direção de fotografia dos seus próprios filmes, até à realização de O Passado e o Presente (1972), longa metragem de ficção que marca uma nova viragem no seu percurso.
O interesse de Oliveira pela fotografia é, por isso, coincidente com um período em que, tanto por razões censórias como por não ser simpatizante do regime, não conseguiu reunir as condições necessárias para realizar muitos dos argumentos que, nessa altura, escreveu. Mas se, de certo modo, a fotografia pode ter sido, nesta fase, um substituto circunstancial do cinema, constata-se que muitas dessas imagens têm uma relação direta com alguns dos projetos fílmicos não realizados. Disso são exemplo as fotografias das vindimas, onde transparece o projeto de “Gigantes do Douro” (1934-35), mas também das imagens no circo, produzidas no mesmo ano em que escreveu o guião “O Saltimbanco” (1944) – e que dialogam com os desenhos que António Cruz criou propositadamente para a preparação desse projeto –, ou, ainda, dos retratos de uma jovem morta que dariam origem a O Estranho Caso de Angélica, filme escrito entre 1952-54 e que só seria realizado em 2010. Também as fotografias referentes à aviação, datáveis de 1937-38, se relacionam com um projeto de documentário, até agora desconhecido, sobre os cursos de pilotagem do Aero Club do Porto (dos quais Oliveira foi um dos primeiros alunos) e os benefícios da então nascente aviação civil.
Investida, quase sempre, de propósitos artísticos, a fotografia é para o realizador um instrumento de pesquisa formal e de experimentação, uma outra modalidade para interrogar, em relação tão direta quanto complementar com os filmes (os realizados e os idealizados), a construção de uma linguagem visual. Ao mesmo tempo que a prática fotográfica de Manoel de Oliveira é uma atividade informada (e enformada) pelos movimentos estéticos que dominavam a produção internacional – como bem o demonstram as numerosas publicações dedicadas à arte fotográfica que integram a biblioteca pessoal do realizador –, ela traduz a disponibilidade de quem está apostado em tirar partido de todas as potencialidades da máquina fotográfica, sendo a nota dominante de todas estas imagens o ecletismo.
Além do que poderíamos designar como uma fotografia de estúdio ou de cavalete, onde a pose e a reconstituição convivem com composições de objetos que dialogam com a tradição das naturezas mortas, descobrem-se igualmente na exposição outras imagens que, estando mais próximas da straight photography, poderiam inscrever-se sob a rúbrica do realismo social, declinado em realismo poético. Sublinhando a tensão entre a objetividade mecânica e a subjetividade, algumas fotografias de rua, instantâneos de transeuntes anónimos ou de trabalhadores, contrastam com a tendência pictoralista de certas paisagens, onde Oliveira confere ao bucolismo natural uma carga simbólica e, nalguns casos, intervém diretamente sobre a imagem de modo a reforçar formas, salientar brilhos e contrastes, ou, inversamente, para atenuar fundos e neutralizar superfícies. Disso mesmo são exemplo algumas tiragens da época, impressas pelo próprio realizador sobre uma grande variedade de papéis, nas quais podem observarse retoques e outras manipulações gráficas e químicas do positivo, viragens a sépia, inversões e reenquadramentos, sobreimpressões e diferentes tipos de tintagens.
O interesse pelos fenómenos óticos estende-se, nalgumas imagens, a uma reflexão sobre o próprio ato de fotografar, uma autorreferencialidade que descobrimos, nomeadamente, nos retratos: naqueles em que Manoel de Oliveira capta a sua própria imagem espelhada (no farolim de um automóvel, numa jante) ou naqueles em que, como numa das fotografias realizadas no âmbito do casting para Aniki-Bóbó, o fotografado e o fotógrafo coabitam na mesma imagem. E se este aspeto é ainda mais evidentemente revelado nas fotografias onde vemos material fotográfico (negativos, provas, uma ampliação: fotografia da fotografia) ou onde a lente é apontada a alguém que, do outro lado, dispara o diafragma da sua própria máquina, também nas imagens de pose se vê que a fotografia capta, antes de mais, uma relação entre o modelo e o fotógrafo, como bem o demonstram os retratos de Maria Isabel, mulher do cineasta.
Muitas vezes se disse que o realizador filmou infatigavelmente a morte, sendo verdade que essa temática se torna, a partir de O Passado e o Presente, cada vez mais constante: basta pensar no modo como a morte é o motor do desenlace trágico de todos os filmes da dita “Tetralogia dos Amores Frustrados”. Mas não será a morte o objeto por excelência da imagem-fixa? Na exposição encontramos imagens que podem ser lidas como alegorias da morte, colocadas em relação com o filme O Estranho Caso de Angélica, inspirado em factos vividos pelo próprio realizador e onde um fotógrafo é convidado a capturar a imagem de uma jovem recém-falecida que, perante a objetiva, esboça um sorriso. Em diálogo com este episódio, em que ironicamente a imobilidade suprema da morte é quebrada pela arte da imagem parada, apresenta-se uma das recorrências temáticas mais marcantes da fotografia de Manoel de Oliveira (evidente no interesse por árvores secas, jazigos, portas com postigos negros, ou na série dos cubos de gelo que derretem).
Na sua globalidade, as fotografias que integram a exposição são, porventura, algumas das primeiras formulações imagéticas da desnaturalização da representação que percorre todo o cinema do autor, onde um dos requisitos fundamentais é que a imagem, não sendo — ou não podendo ser — consciente de si própria, se dê pelo menos conscientemente a ver como imagem.
As fotografias que se dão a conhecer pela primeira vez acrescentarão, certamente, um novo capítulo à história da fotografia portuguesa dos anos 1940, mas – enquanto testemunhos de uma prática efémera, ou, se preferirmos, de um “estágio” – elas constituem, sobretudo, um precioso instrumento para compreender melhor o modo como Manoel de Oliveira passa a assegurar, durante um período de dez anos, a direção de fotografia dos seus próprios filmes, bem como para contextualizar, numa perspetiva mais ampla, o rigor de composição e enquadramento que, de uma maneira geral, carateriza toda a sua obra cinematográfica. Estas imagens espelham as polaridades fundamentais do seu cinema: tempo e espaço, estatismo e movimento, narração e mostração, documento e representação. Olhando para estas imagens, não interessará muito saber onde começa o fotógrafo e onde acaba o cineasta, nem definir, com precisão, até que ponto o primeiro poderá ter tomado, por vezes, o lugar do segundo. Importará, sim, interrogar o modo como esta convivência entre dois modos de ver e de pensar se corporiza na obra de Manoel de Oliveira.
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Manoel de Oliveira Fotógrafo, 2020
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A exposição Manoel de Oliveira Fotógrafo, com curadoria de António Preto, Diretor da Casa do Cinema Manoel de Oliveira, esteve patente na Fundação de Serralves, de 23 de outubro de 2020 a 27 de junho de 2021 (inicialmente até 18 de abril). A exposição foi apresentada em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, de 29 de outubro de 2021 a 17 de janeiro de 2022.
Todas as fotografias expostas pertencem ao Acervo de Manoel de Oliveira, Casa do Cinema Manoel de Oliveira — Fundação de Serralves, Porto.
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Sobre esta exposição, pode ver:
A visita guiada à exposição pelo Diretor da Casa do Cinema, aqui e aqui;
“A propósito da produção fotográfica de Manoel de Oliveira”, conversa de António Preto com Emília Tavares, conservadora e curadora para a área da Fotografia e Novos Media no Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, aqui;
Lançamento deste catálogo, conversa de António Preto com o fotógrafo André Cepeda, o crítico, investigador e professor nas áreas do cinema e da fotografia, Luís Mendonça e a investigadora Maria do Carmo Serén, aqui;
“Sobre a produção fotográfica de Manoel de Oliveira”, conversa de António Preto com Pedro Mexia, escritor e crítico literário, aqui.
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A biografia de Manoel de Oliveira, podemos ler no site da Fundação de Serralves, aqui (transcrevo):
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Manoel Cândido Pinto de Oliveira nasceu a 11 de dezembro de 1908, no Porto. Foi o realizador com a mais longa carreira da história do cinema, num total de 84 anos entre a sua estreia na realização (Douro, Faina Fluvial, em 1931) e o seu último filme (Um Século de Energia, em 2015). Com uma filmografia que inclui mais de cinquenta títulos, foi o único cineasta a passar do cinema mudo ao cinema sonoro, do preto e branco à cor e da película de nitrato ao suporte digital. Conhecido como “o Mestre”, Manoel de Oliveira foi reconhecido internacionalmente pelos mais importantes festivais de cinema do mundo como expoente da arte cinematográfica e também pela sua longevidade, recebendo o título de “mais velho realizador em atividade”, uma vez que continuou a filmar até aos 106 anos.
Depois do seu percurso liceal, o jovem Manoel de Oliveira ganha notoriedade através do seu envolvimento com o desporto. Ora pelo atletismo, sagrando-se vice-campeão nacional de salto à vara durante três anos consecutivos pelo Sport Club do Porto (e praticando outras atividades acrobáticas, como o trapézio voador), ora pelo automobilismo, ficando em 3.º lugar no circuito da Gávea, no Brasil, competindo como amador e vencendo várias corridas a nível nacional.*
Casa-se com Maria Isabel Brandão Carvalhais a 4 de dezembro de 1940, com quem permanecerá casado até à data da sua morte, numa união que durou perto de 80 anos. Tiveram quatro filhos. A sua aproximação ao cinema dá-se primeiro como ator. Aos 20 anos junta-se à escola de representação de Rino Lupo, cineasta italiano radicado em Portugal, aparecendo como figurante no filme Fátima Milagrosa (1928). Pouco depois, com o auxílio do amigo António Mendes (guarda-livros e entusiasta da fotografia), filma e revela o negativo de 35 mm de Douro, Faina Fluvial na garagem de sua casa, e monta o filme (à mão e “a olho”) na sua mesa de bilhar. O filme mudo, inspirado pelas sinfonias urbanas dos anos 1920, é apresentado em 1931 no V Congresso Internacional da Crítica, no Cinema Central em Lisboa, sendo pateado pelos espectadores nacionais e louvado por algumas personalidades internacionais (como Émile Vuillermoz e Luigi Pirandello), inaugurando assim o que viria a tornar-se recorrente no que respeita à receção da sua obra em Portugal e no estrangeiro. Avelino de Almeida, José Régio e Adolfo Casais Monteiro foram alguns dos poucos intelectuais portugueses que defenderam o filme. *
Durante os anos 1930, Oliveira prepara vários projetos, a maioria gorada (alguns deles retomados várias décadas depois), realiza documentários (como Hulha Branca, 1932, e Famalicão, 1940) e filmes de encomenda (Portugal Já Faz Automóveis, 1938), todos de metragem curta. Participa ainda como ator em A Canção de Lisboa (1933), filme marcante do modelo de comédias populares das décadas seguintes, na personagem de galã, e Douro, Faina Fluvial acaba por estrear em 1934, juntamente com Gado Bravo de António Lopes Ribeiro, que co-produziria a sua estreia na longa-metragem: Aniki Bobó, em 1942. Adaptando o conto de João Rodrigues de Freitas, Os meninos milionários, o filme faz um terno retrato da infância nos bairros mais pobres do Porto. Devido ao insucesso comercial do filme, a obrigações familiares e a um fechamento da área do cinema durante os primeiros anos do Estado Novo, Manoel de Oliveira inicia um interregno de 14 anos em que não consegue filmar. *
Só em 1955 pôs fim a esta travessia do deserto, através de uma formação na Alemanha, nos estúdios da Agfa-Gevaert AG, para adquirir conhecimentos sobre o cinema a cores. Desse estudo resulta O Pintor e a Cidade (1956), que escreve, filma, monta e realiza — e que lhe dá o primeiro de muitos galardões, a Harpa de Prata no Festival da curta-metragem de Cork. Já no final da década, realiza o documentário O Pão (1959) por encomenda da Federação dos Industriais de Moagem. Uma obra que descreve o “ciclo do pão” como o “ciclo da vida”. A fechar aquela que pode definir-se como a primeira fase da sua obra, marcada pelos hiatos de inatividade, pela diversidade de abordagens e pela produção irregular, estão duas obras já subsidiadas: a curta-metragem alegórica A Caça (1963) — cujo final seria censurado — e Acto da Primavera (1962), uma longa-metragem semidocumental que regista uma representação do Auto da Paixão de Cristo numa aldeia de Trás-os-Montes. Nestes filmes, nomeadamente em O Pintor e a Cidade e Acto da Primavera, Oliveira inicia uma (…) experimentação formal sobre a duração dos planos (fixos) e sobre a aproximação ao teatro e à predominância da palavra que caracterizarão o “sistema Oliveira” e que fundarão uma corrente do cinema nacional, a “Escola Portuguesa”. Nos seus filmes seguintes, embora ainda haja grande mobilidade de câmara nalguns dos primeiros títulos, esta vai progressivamente fixando-se e distendendo-se sobre o corpo e o rosto dos atores que abordam o texto numa perspetiva artificial que recusa entoações sentimentais ou psicologistas. A preponderância do texto literário ou teatral é cada vez mais marcada e as adaptações (quase) integrais sucedem-se. Esta foi, e ainda é, uma abordagem vanguardista ao cinema narrativo que só encontra paralelo, no foco e no rigor, em cineastas como Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, Werner Schroeter, Raúl Ruiz e poucos mais. *
No contexto do Novo Cinema Português dos anos 1960, Manoel de Oliveira é elevado a figura de proa da nova geração e o seu exemplo insubmisso faz com que, no âmbito do sistema de financiamento do recém-inaugurado Centro Português do Cinema, Manoel de Oliveira seja o primeiro a receber apoio, filmando O Passado e o Presente em 1971, já com mais de 60 anos de idade. Essa adaptação da peça teatral de Vicente Sanches marcaria o primeiro ponto na autointitulada (e muito celebrada) “tetralogia dos amores frustrados”, que incluiria nos anos seguintes: Benilde ou a Virgem Mãe (1974, rodado durante a Revolução de Abril — adaptação da peça homónima de José Régio), Amor de Perdição (1978, adaptação quase-integral de Camilo Castelo Branco — coproduzido pela RTP e exibido em horário nobre; o estilo teatral e exaustivo da adaptação causaria choque e aceso debate público) e Francisca (1981, adaptação de Fanny Owen, que inauguraria colaboração próxima com a escritora Agustina Bessa-Luís). Logo após estes quatro títulos, Oliveira roda Visita ou Memórias e Confissões (1982, com 73 anos): filme póstumo, em que filmou a sua casa da Rua da Vilarinha, no Porto. No entanto, o realizador não poderia antecipar que a partir da epopeia recitativa de quase sete horas de duração que é Le Soulier de satin / O Sapato de Cetim (1985, adaptação integral de Claudel), iniciaria uma produção muito regular e praticamente anual, que incluiria a vanguardista colagem teatral (Mon Cas / O Meu Caso, 1986, adaptando Régio, Samuel Beckett e a Bíblia) e um filme de sketches (Inquietude, 1998), um musical cómico-negro (Os Canibais, 1988, adaptado de Álvaro do Carvalhal) e uma comédia de seduções (Party, 1996), uma erótica adaptação agustiniana de Madame Bovary de Flaubert (Vale Abraão, 1993) e uma perversa revisitação de Luis Buñuel (Belle Toujours, 2006), um sarcástico passeio pelas ruas da Mouraria (A Caixa, 1994, adaptando Prista Monteiro) e uma queirosiana visita a Lisboa (Singularidades de uma Rapariga Loura, 2009), uma interrogação sobre a verdadeira nacionalidade de Shakespeare (O Convento, 1995, mais uma vez em diálogo com Agustina) e outra sobre as origens de Cristóvão Colombo (Cristóvão Colombo, O Enigma, 2007), uma excursão autobiográfica no último papel para cinema de Marcello Mastroianni (Viagem ao Princípio do Mundo, 1997), outra com Michel Piccoli (Je rentre à la maison / Vou Para Casa, 2001) e, por fim, com o próprio e o seu neto ator, Ricardo Trêpa (Porto da Minha Infância, 2001). E também reflexões sobre a história de Portugal e da Europa, vistas a partir das suas figuras e das suas derrotas (Non, ou a Vã Glória de Mandar, 1990; sobre o Padre António Vieira, Palavra e Utopia, 2000; sobre o Rei D. Sebastião — a partir de Régio —, O Quinto Império — Ontem como Hoje, 2004; e um tour pelo Mediterrâneo em Um Filme Falado, 2003). *
Já no século XXI, a obra de Manoel de Oliveira voltou a alternar entre o formato longo e curto, discorrendo sempre com grande ironia sobre os tempos presentes e até sobre a sua própria obra. O Gebo e a Sombra (2012) apresenta-se como uma sátira sobre a crise financeira, a curta-metragem O Conquistador Conquistado (2012) reflete sobre os modos do turismo contemporâneo e a curta- -metragem Do Visível ao Invisível (2007) diverte-se com as falhas de comunicação modernas. Esta fase final da sua obra caracteriza-se também pela recuperação de projetos antigos deixados incompletos. Destaque para O Estranho Caso de Angélica (2010), baseado num argumento originalmente escrito em 1952, para a dupla de curtas-metragens Romance de Vila do Conde e O Poeta Doido, O Vitral e a Santa Morta (1965/2008), rodada com José Régio nos anos 1960, mas só terminada (montagem e gravação da voz off de Luís Miguel Cintra) mais de quarenta anos depois. Também Um Século de Energia (2015), que inclui imagens rodadas por Oliveira para Hulha Branca e O Velho do Restelo (2014), revisita igualmente vários dos títulos anteriores do cineasta através do encontro, num banco de jardim, de Dom Quixote, Luís Vaz de Camões, Teixeira de Pascoaes e Camilo Castelo Branco. Ao longo da sua carreira Manoel de Oliveira rodeou- -se de uma série de técnicos e atores com os quais formou uma equipa de caras recorrentes. Vejam-se os diretores de fotografia Mário Barroso e Renato Berta, a montadora Valérie Loiseleux e a anotadora Júlia Buísel, ou dos diversos produtores que o acompanharam ao longo da sua carreira, como Paulo Branco, Miguel Cadilhe, François d’Artemare ou, mais recentemente, Luís Urbano. E claro, atores portugueses como Luís Miguel Cintra, Leonor Silveira, Ricardo Trêpa, Diogo Dória ou Leonor Baldaque, e atores estrangeiros como, Catherine Deneuve, John Malkovich, Michel Piccoli, Marcello Mastroianni, Michael Lonsdale, Jeanne Moreau, Bulle Ogier ou Claudia Cardinale. Os seus filmes foram presença habitual nos mais reconhecidos festivais de cinema do mundo, com especial destaque para os festivais de Cannes e Veneza.
Recebeu vários prémios ao longo da sua extensa carreira, notoriamente, o Leão de Ouro Especial em 1985 por Le Soulier de satin / O Sapato de Cetim e o Prémio Especial do Júri, também em Veneza, por A Divina Comédia, em 1991. Em Cannes, recebeu uma Menção Especial na Quinzena dos Realizadores, em 1993, com Vale Abraão; já em 1997, o Prémio da Crítica Cinematográfica por Viagem ao Princípio do Mundo, e em 1999, o Prémio do Júri para La Lettre / A Carta.
Além de vários outros galardões e homenagens, destacam-se os prémios de carreira dos festivais: de Berlim (em 1981, Prémio Interfilm Especial, e em 2009, Prémio Berlinale Kamera); de Locarno (Leopardo de Honra, em 1992); e de Cannes (Palma de Ouro Honorária, em 2008). E as condecorações da República Portuguesa (Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, em 1980, GrãCruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, em 1988, e a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, em 2008) e da República Francesa (Grande-Oficial da Ordem Nacional da Legião de Honra, em 2014).
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LISTA SELETIVA DE PRÉMIOS
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PRÉMIOS A FILMES
O Pintor e a Cidade Festival de Curta-metragem de Cork — Harpa de Prata;
Acto da Primavera: Festival de Siena (1964) — Prémio para a Melhor Realização da Casa da Imprensa, Medalha de Ouro; Amor de Perdição Festival da Figueira da Foz (1979) — Prémio Especial do Júri para o filme e para o conjunto da obra; Francisca Festival de Cinema de Sorrento, Itália — Medalha de Ouro, Prémio Vittorio de Sica; Le Soulier de satin Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica (1985) — Leão de Ouro especial pelo conjunto da obra; Os Canibais Festival Internacional de Cinema de São Paulo (1988) — Prémio Especial de Critica; A Divina Comédia Festival de Cinema de Veneza (1991) — Prémio Especial do Júri; Vale Abraão Festival de Cannes (1993) — Quinzena dos Realizadores (Menção Especial); Festival Internacional de Cinema de São Paulo (1993) — Prémio da Crítica; Festival Internacional de Cinema de Tóquio (1993) — Prémio para a melhor contribuição artística; O Convento Festival Internacional de Cinema da Catalunha (1995) — Prémio Especial da Critica Literária; Viagem ao Princípio do Mundo Festival de Cannes (1997) — Prémio FIPRESCI; Festival Internacional de Cinema de Tóquio (1997) — Prémio Especial de Carreira; Prémios Europeus de Cinema (1997) — Prémio FIPRESCI; Festival Internacional de Cinema de Haifa (1997) — Âncora de Ouro; La Lettre Festival de Cannes (1999) — Prémio do Júri; Inquietude Festival de Cinema de Mar del Plata (1998) — Prémio Especial do Júri; Globos de Ouro (1999) — Globo de Ouro para o Melhor Realizador; O Porto da Minha Infância Festival de Cinema de Veneza (2001) — Prémio UNESCO Je rentre à la maison Festival Internacional de Cinema de Haifa (2002) — Âncora de Ouro; Festival Internacional de Cinema de São Paulo (2001) — Prémio da Crítica; Um Filme Falado Festival de Cinema de Veneza (2003) — Prémio SIGNIS; O Gebo e a Sombra Festival de Cinema de Abu Dhabi (2012) — Prémio Especial do Júri. *
PRÉMIOS DE CARREIRA *
Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz (1980) — Prémio CIDAIC, Medalha de Ouro Festival Internacional de Cinema de Berlim (1981) — Prémio Interfilm Especial Festival de Cinema de Cannes (1990) — Prémio FIPRESCI Especial Festival Internacional de Cinema de Locarno (1992) — Leopardo de Honra Festival Internacional de Cinema de São Francisco (1994) — Prémio Akira Kurosawa Prémios David di Donatello (1994) — Prémio Luchino Visconti Prémios Internacionais Flaiano (1998) — Prémio Carreira Festival de Cinema de Munique (2001) — Prémio CineMerit Festival Internacional de Cinema de São Paulo (2004) — Prémio Humanitário Camerimage (2004) — Lifetime Achievement Award for Directing Festival Internacional de Cinema de Chicago (2005) — Lifetime Achievement Award Fantasporto (2006) — Prémio Especial de Carreira Festival Internacional de Cinema Documental de Jihlava (2006) — Contribution to World Cinema Prémios Europeus de Cinema (2007) — Prémio Honorário Festival de Cinema de Cannes (2008) — Palma de Ouro Honorária Festival Internacional de Cinema de Berlim (2009) — Berlinale Kamera Globos de Ouro (2009) — Prémio Carreira Prémios Sophia (2013) — Prémio Mérito e Excelência
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Nota: nomes dos filmes destacados e * parágrafos introduzidos pelo autor do FF.
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