VALTER VINAGRE, BOCA, 2020
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Valter Vinagre
Boca
Fotografia: Valter Vinagre / Ensaio: Eunice Ribeiro
Castelo Branco: Terceira Pessoa – Associação / Novembro 2020
Projeto “Rastro, Margem, Clarão”
Português / 14,7 x 21,0 cm / 64 pp
Capa mole, costura à linha aparente, interior / 350 ex.
ISBN: 9789893310038
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“[A] violência incompleta atravessa uma fotografia, qualquer fotografia”
Rui Nunes, Nocturno Europeu. Lisboa: Relógio de Água, 2014: 59
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Este livro, juntamente com “Basta que um pássaro voe” de Rui Dias Monteiro (fotografia) e Vítor Ferreira (texto), “Na imprecisa visão do vento” de Susana Paiva (imagem) e Diogo Martins (texto), formam um conjunto desenvolvido no contexto do projeto pluridisciplinar “Rastro, Margem, Clarão”, um projeto da Terceira Pessoa, “no qual um colectivo de criadores em artes performativas, artes visuais e ensaístas se propuseram pensar a escrita de Rui Nunes (n. 1945) nas suas heterogeneidades, nódulos temáticos e inquietações, numa abordagem arrojada e heuristicamente transdisciplinar.”
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Sobre o projeto, escreve o autor, Valter Vinagre:
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Pela boca entra o que nos é necessário e vital à nossa sobrevivência – ar e alimentos.
Pela boca também nos entra a morte – através de vírus, bactérias e venenos.
É pela boca que nos saem ordens de morte e palavras de vida.
É pela boca que nos saem as expressões de repulsa e, ou, de admiração.
É pela boca que nos saem os livros que lemos e que vemos.
A boca não só é um dos nossos “órgãos vitais” como é, também, o lugar central da representação em palco e o “lugar” das imagens por mim pensadas e realizadas.
BOCA é o lugar central do meu trabalho a partir dos livros do Rui Nunes e do mundo que me/nos rodeia.
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Mucifal, Colares 22 de Abril de 2020
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Uma primeira imagem e logo o ensaio de Eunice Ribeiro. Depois as imagens de Valter Vinagre, de um negro intenso e profundo.
Transcrevo parte do ensaio de Eunice Ribeiro que traça um paralelismo profundo entre a obra de Vinagre e de Nunes:
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Mancha a mancha
Do literário ao fotográfico (e volta)
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…eu vejo muito mal e sempre vi mal, e no entanto olhar é para mim a coisa mais fascinante, porque o mundo só pelos olhos é que me entra.
Rui Nunes, Jornal i, 2/9/2013
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1.
Percorre as imagens fotográficas de Valter Vinagre um certo sentido de extinção que é, antes de mais, extinção da própria visibilidade. Tal como a escrita de Rui Nunes que as provoca, sem constituírem propriamente a sua ilustração, as imagens de Vinagre nascem de uma perceção ‘imperfeita’ que impede de ver o mundo por inteiro e com clareza, desautorizando qualquer tentativa de espectadorismo, de consumo de um real que permanece parcialmente irrepresentado, irrepresentável. A preto e branco, são fotografias dramáticas, quase barrocas nos seus contrastes violentos de claro-escuro, ora ligeiramente desfocadas ou invadidas por reflexos, manchas e zonas de sombra, ora tão próximas do seu objeto que rasam o abstrato ou o informe. Uma humanidade anónima e sem brilho, alguns animais, traços de uma vegetação hostil ou fúnebre é tudo quanto de vivo povoa estas paisagens ruinosas e espectrais, captando ora espaços naturais (senão ‘desnaturados’; cf. Pinharanda, 2013) e cenários de província convertidos em desoladas arcádias precárias, ora quadros urbanos degradados ou mundos de subúrbio, levemente sórdidos: uma espécie de realidade de bastidor, uma wasteland pesada de despojos, destroços, pedaços de uma totalidade perdida que nada permite aparentemente recuperar. Imagens, dir-se-ia, destinadas à corrupção da própria natureza indicial da fotografia, à obstrução dessa natureza tendencialmente predatória do olho maquínico, da sua competência alucinatória de ‘ver mais’, de ver tudo. Contra uma retórica da transparência tantas vezes associada à imagem da fotografia, o que aqui parece insinuar-se é antes uma profanação do dispositivo fotográfico que desrealiza o referente ao introduzir a dúvida sobre o que é visto, permitindo por aí o exercício da imaginação, i.e., a possibilidade de mudar ou de deformar as imagens (cf. [G.] Bachelard, [O ar e os sonhos: Ensaio sobre a imaginação do movimento. Rio de Janeiro: Martins Fontes], 1990: 1), por outras palavras, operando a conversão do fotográfico no poético.
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Ver mal constitui, em ambos os artistas, uma filosofia da visão impura e desobediente que se afirma contra a armadilha dos olhos e a fluência de todas as linguagens: “quando nos sentimos bem na linguagem que produzimos, no próprio discurso que produzimos”, recorda Rui Nunes ([“Não basta compreender o terror, é preciso participar dele”. [Entrevista a Diogo Vaz Pinto]. Jornal i, 09.09.] 2013), “isso só significa para mim que estamos numa gaiola”. Criar pontos de fuga, abrir fissuras, ferir (e interferir com) uma discursividade hegemónica é tomar posição contra o poder. É ainda abraçar uma atitude de comprometimento humanista com um mundo sem beleza e sem teleologia que não recuperou de um abismal luto moderno, consentir voluntariamente num exercício de não-saber em que “se sobrevive na desarmonia” ([Rui] Nunes, Cães. Lisboa: Relógio d’Água], 1999: 174), se participa do medo, da surpresa, do risco, e porventura das suas fatalidades.
Neste distanciamento de um logocentrismo ótico crente nas ‘mitologias brancas’ da arte realista, há em Valter Vinagre e em Rui Nunes uma inevitável identificação com a contemporaneidade estética e filosófica em que se enquadram, que os enquadra: uma contemporaneidade que tem sistematicamente repensado conceitos de cegueira (Derrida, [Mémoires d’aveugle: L’autoportrait eta utres ruines. Paris: Éditions de la Réunion des musées nationaux] 1990), de invisualidade (Vidal, [Invisualidade da pintura: Uma história de Giotto a Bruce Nauman. Lisboa: Fenda] 2015), de visão intervalar ou de aparição (Didi-Huberman, [Phalènes: Essais sur l’apparition, 2. Paris: Les Éditions de Minuit] 2013) e equacionado as suas implicações no quadro da teoria artística e, em particular, do pensamento sobre a imagem. Desde o final do século passado e o dealbar do nosso século, vimos, na verdade, entendendo a visão como ‘um trabalho de monstro, trabalho de quem corre atrás do que se retira no acto mesmo em que se lhe mostra” (Frade, [Figuras do Espanto. A fotografia antes da sua cultura. Porto: Edições Asa] 1992: 104).
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2.
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Mas, enquanto lugar por excelência do reversível, a abertura é também, na imagem, um ‘princípio de animação’ (cf. Didi-Huberman, [L’image ouverte: Motifs de l’incarnation dans les arts visuels. Paris: Gallimard] 2007: 32), uma espécie de orifício orgânico, de ‘boca’ animal (conforme a compreendeu Bataille) que incorpora e/ou devolve, que ingere e/ou revela: um lugar (ou um limiar) de devoração e de perda, mas também de fecundidade e de potencial reencenação do mundo, anunciando a própria imagem enquanto superfície de metamorfose e de indagação.
Tal como nos livros de Rui Nunes, nas 37 imagens que compõem BOCA — nome de repetida entrada nos livros do escritor e que Valter Vinagre escolheu como título para este seu projeto —, o fotógrafo inscreve-se como sujeito nas imagens que produz, afirma a sua presença enquanto intérprete de uma realidade que não está meramente diante de si, mas que o contém e que interroga ‘de dentro’. Não por acaso, o autorretrato comparece aqui enquanto sombra, sob/sobre a imagem do mundo fotografado, trazendo diretamente o campo autoral/corporal para o interior da série. Longe de qualquer aspiração ecfrástica invertida que tentasse Der o dizer, traduzir o literário no fotográfico, Vinagre produz situações que implicam, todavia, o recetor numa análoga experiência de perda. Como um noturno fotográfico, a série assimila um valor de choque, inquieta pela sua falta de condescendência elegíaca. Absorvendo a mesma obscuridade da escrita de Rui Nunes (onde abundam os nevoeiros, as névoas, o fumo, as nódoas), são imagens menos liricamente melancólicas do que paisagens convulsas (cf. Nunes, [A boca na cinza. Lisboa: Relógio D’Água] 2003: 117), à semelhança das que se dispersam pelos vários livros publicados do autor. Delas poderíamos talvez afirmar aquilo que afirmou o próprio Rui Nunes ao comentar o trabalho de Paulo Nozolino, cujas fotografias integram Nocturno Europeu: “Os seus olhos veem, o seu olhar escolhe: não mostra o homem com medo, mostra o medo do homem; não mostra o mundo abandonado, mostra o abandono do mundo; não mostra a ausência de Deus, mostra o Deus da ausência: a solidão de todos nós” (Nunes, [Intempestivo até à desolação. In Ph.02 Paulo Nozolino (pp. 127-129). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda] 2018: 127).
No seu distanciamento face a um referente concreto, as fotografias de Vinagre são também, nesse sentido, eminentemente conceptuais ou poéticas. A solidão, o medo, a ausência, a morte habitam cada uma das imagens que captam resíduos de um real desnarrativizado, sem peripécia, sem história. Enquanto cortes visuais operados sobre uma realidade já de si percebida como descontínua e absurda, as imagens de BOCA são até certo ponto reordenáveis, suspendendo as habituais conexões da narração e do sentido para trabalharem contra a linguagem, nos intervalos do não-mostrado e do não-dito. É nesses intervalos de indeterminação que as fotografias de Vinagre devêm, a um só tempo, pensativas (cf. Rancière, [“A imagem pensativa”, in O espectador emancipado (pp. 155-190). Lisboa: Orfeu Negro] 2010) e erradas: fautographies, diríamos com Cheroux ([Fautographie: Petite histoire de [‘erreur Photographique. Crisnée: Éditions Yellow Now] 2003), grafias da falta e da violência, da violência da falta.
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Valter Vinagre, Boca, 2020
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A exposição “Rastro, Margem, Clarão” esteve patente em Castelo Branco, na Casa Amarela – Galeria Municipal, de 6 de novembro a 23 de dezembro de 2020.
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Cada livro da série “Rastro, Margem, Clarão” resulta de uma colaboração entre um fotógrafo e um ensaísta, “apresentando uma visão pessoal criada em torno de um universo inclassificável no panorama literário português: algures entre a forma e o informe, o medo e a raiva, a evidência intolerável do real e a vacilação das imagens”: a obra de Rui Nunes.
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Pode ver os outros dois livros no Fascínio da Fotografia: “Basta que um pássaro voe” de Rui Dias Monteiro (fotografia) e Vítor Ferreira (texto), aqui e “Na imprecisa visão do vento” de Susana Paiva (imagem) e Diogo Martins (texto), aqui.
Pode saber mais sobre esta obra ou sobre a Terceira Pessoa, aqui e adquirir o livro aqui.
Pode conhecer melhor a obra de Valter Vinagre aqui e no Fascínio da Fotografia aqui.
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Atualizado em 11.05.2021, “Sobre o projeto, escreve Valter Vinagre”.
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