TERESA RIBEIRO, OFICINAS DO INTENDENTE, 2020
Algumas fotografias deste livro integram a exposição das XI Narrativas Fotográficas no Intendente, na Casa Independente, no Largo do Intendente, em Lisboa, de 04.11.2020 a 15.02.2021.
.
.
.
Teresa Ribeiro
Oficinas do Intendente
Fotografia: Teresa Ribeiro / Conto: Tiago Salazar / Design gráfico: Teresa Ribeiro e Jorge Coimbra / Capa: Catarina Marques
Edição do Autor / Dezembro . 2020
Português e inglês/ 26,1 x 21,1 cm / 60 pp
Brochura / 100 ex., numerados e assinados / Capa mole: Creator Gloss 350gr; miolo: Creator Gloss 170gr / Impressão: laser digital / Cadernos cosidos
ISBN: 9789893313077
.
.

.
.
Este livro de Teresa Ribeiro mostra a vivência das oficinas de automóveis do Intendente, em Lisboa, num olhar intimista por estes espaços. Oficinas antigas, em vias de extinção, com muitas histórias para contar…
O livro segue um percurso de cores. As cores vivas e intensas que preenchem as oficinas.
.
Sobre a série, escreve Teresa Ribeiro:
No âmbito da edição das Narrativas Fotográficas do Intendente, percorri durante alguns meses as oficinas de automóveis do Intendente. Visitei um total de nove oficinas, das quais, por razões de conceção estética, apenas sete constam deste livro.
Num bairro de características tão singulares como o Intendente, as oficinas mais antigas datam de 1947-1956, sendo indelével o carácter emblemático com que contribuem para a nossa história cultural e social.
.
As oficinas retratadas são, provavelmente, as últimas a sobreviver aos irreversíveis avanços tecnológicos, à forte competição de mercado trazida pelas muitas empresas que foram aparecendo na periferia, e aos serviços oferecidos por grupos de marca. Também sobreviveram às várias crises económicas ao longo das últimas seis décadas e, mais recentemente, aos efeitos de uma inesperada pandemia global.
Os trabalhadores com quem conversei dedicaram toda a vida ao aprimoramento do seu ofício, sempre no sentido de encontrar novas soluções e adaptando as suas técnicas às necessidades dos clientes. Homens que são criadores de engenhos e engenhocas que tantas vezes se assemelham a verdadeiras peças de arte, dignas de museu.
Nas oficinas maiores encontrei equipas que empregaram até vinte trabalhadores: mecânicos, bate-chapas, pintores, lavadores, gasolineiros, guardas nocturnos, fora os aprendizes e os ajudantes.
Em muitas ocasiões, especialmente em tempos idos, as oficinas ocuparam um lugar especial no apoio à comunidade residente no velho bairro. “Socorriam-se pessoas e a oficina era a salvação de muitos” – alguém me disse. Muitos moradores depositavam as suas chaves de casa num grande chaveiro que ficava à guarda da oficina, num gesto de total confiança bairrista. Contam que alguns ainda hoje vêm buscar água em jerricans, saindo daqui agradecidos e de sorriso aberto.
Agora já não se respira o ar poluído dos escapes, nem se aspira o aroma do óleo quente. Os tempos mudaram muito. Para alguns o trabalho foi-se tornando escasso e várias das oficinas são agora garagens para fazer a recolhas de táxis, carrinhas ou tuk-tuks eléctricos.
Os trabalhadores destas oficinas são homens algo esquivos, quase sempre ocupados nas suas tarefas e inúmeros compromissos. Mas, nos dias melhores e menos agitados, dispõem-se a partilhar velhas memórias e gostam de contar as suas histórias. Histórias das suas oficinas que são também as histórias das suas vidas.
Haja quem as escute.
.
.
A obra integra ainda um conto de Tiago Salazar, do qual transcrevo uma parte:
.
A foice, o martelo e a longarina
.
Todo o passo tem um peso e uma dimensão. Quando me juntei ao partido (PCP) recebi diversas advertências. (…)
O mecânico António Chiquita está para a sua garagem Manique como Da Vinci para os esquissos de engenhos voadores.
Posso dizer isto provando-o.
Um dia entrei na garagem Manique com uma presumível avaria hidráulica. Chamei o mestre Chiquita e disse das minhas suspeitas. “Vamos ouvir”, disse.
Debruçou-se então sobre o capot e pediu uma ligeira aceleração. “Devo dizer-te que andas a ser demasiado brusco com as travagens. O problema é do injector”.
Escutei o diagnóstico, surpreso com a certeza do dito. O mestre anda sempre de caderninho no bolso e lápis atrás da orelha. “Eu faço-te um desenho” e pôs-se a rabiscar “a alma do carro”. “Queres que um carro dure então cuida-o com esmero e não te limites às limpezas”.
O meu primeiro carro foi um Datsun 1200 de 1972. DN na matrícula como o jornal onde tinha assentado praça como estagiário.
Comprei-o com o primeiro ordenado ao Raul Esperto, um mecânico e piloto de automóveis que o tinha quitado para a competição. Fui até Ponte de Sôr na Rodoviária Nacional e entrei na oficina de olhos a brilhar. O Datsun estava no elevador a afinar. Esgueirei-me à cafurna do silo e fiz por aprender mais qualquer coisa do que as lições básicas do meu pai, entre ver o óleo e a pressão dos pneus, as folgas na direcção e o estado das pastilhas.
Apreciar um motor era então como ainda hoje como um burro olhar para um palácio. Fui dar uma volta à terra com o Raul Esperto ao volante, a explicar-me a ciência da tracção à retaguarda.
(…)
Foram muitas as viagens até Ponte de Sôr para ter as mãos, os olhos e os ouvidos do Esperto a cuidarem do Datsun. Até ao dia em que como todas as vidas tudo se acaba. Regressado de mais uma revisão, de pneus insuflados e um sol de rachar ia a toda a brida a serpentear as curvas da barragem quando um patego entrou sem parar na via rápida e quase me levou para o Além.
Só me lembro de rodopiar nos ares e ir aterrar numa valeta, de volante rachado ao meio e metade do corpo fora da janela. Por acasos insondáveis, segundos antes de fazer a curva abri a janela do meu lado em par e saí cuspido em lugar de ficar esmagado entre o tejadilho e os bancos.
O patego sobreviveu à aselhice e ao susto e tornou-se meu leitor até hoje.”
.
.
.
Teresa Ribeiro, Oficinas do Intendente, 2020
.
.
Algumas fotografias desta série integram a exposição das XI Narrativas Fotográficas no Intendente, que tem lugar em Lisboa, na Casa Independente, no Largo do Intendente, de 04 de novembro de 2020 a 15 de fevereiro de 2021 (no Fascínio da Fotografia aqui).
.
.
António Bracons, Aspetos da exposição, 2020
.
.
Teresa Ribeiro. Alguém que na vida como na profissão, de psicoterapeuta, procura religar o que nunca existiu separado: corpo e mente.
A fotografia está presente na sua vida há muitos anos, a celebrar dias soalheiros e a salvá-la de tormentas e tempestades.
Em 1983/84 realizou uma Formação Avançada no Instituto Português de Fotografia (IPF). Em 1994, frequentou o curso de fotografia do Ar.Co. Desenvolveu diversos projetos fotográficos documentais sob orientação de Nelson D’ Aires, no Movimento de Expressão Fotográfica (MEF).
Desenvolveu vários projetos criativos e colaborações: Na Escrever-Escrever: “construção de um documento em vídeo”, com Pedro Sena Nunes (Lisboa, 2009); Participou na NextArt com a instalação “Há uma Diva em cada uma de nós?” e a instalação “Abrigo para sem Abrigo”, no Jardim do Príncipe Real (Lisboa, 2010); Projeto “Uma Imagem Solidária”, com a Fundação Portuguesa das Telecomunicações (Lisboa, 2018); na CROMA – Exposição Coletiva de Fotografia Instagram (Oeiras, 2017); Exposição Coletiva de Fotografia na Galeria Atmosfera M (Lisboa, 2018); Residência Artística coordenada pela fotógrafa Pauliana Valente Pimentel (Algarve, 2020); Exposição Colectiva Internacional “Celebração dos 30 Anos da United Photo Press Creative Artists (UPP)”, no Museu da Eletricidade (Funchal, 2020); Narrativas Fotográficas do Intendente (Lisboa, 2020).
.
.
.
Pode ver outros trabalhos de Teresa Ribeiro no Fascínio da Fotografia, aqui.
Para adquirir o livro deve contactar a autora <teresaribeiro08@gmail.com>.
.
.
.

















Pingback: GUILLAUME PIETRI, TERESA RIBEIRO, MARIANA DELGADO, LAWRENCE SEMENZA, CATARINA GUERREIRO, INÊS VENTURA. XI NARRATIVAS FOTOGRÁFICAS NO INTENDENTE | FASCÍNIO DA FOTOGRAFIA
Pingback: AGENDA . CONVOCATÓRIAS E EVENTOS . JANEIRO – MARÇO . 2021 | FASCÍNIO DA FOTOGRAFIA
Pingback: 11.ª FEIRA DO LIVRO DE FOTOGRAFIA DE LISBOA, 2021 . MAQUETAS / DUMMIES | FASCÍNIO DA FOTOGRAFIA