ALFREDO CUNHA, A CIDADE QUE NÃO EXISTIA: AMADORA 1970-2020
Exposição na Galeria Municipal Artur Bual / Casa Aprígio Gomes, na Amadora, de 11.09.2020 a 10.01.2021.
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A Galeria Municipal Artur Bual, da Amadora, apresenta a exposição de Alfredo Cunha, “A Cidade que não existia – Amadora 1970-2020”. Na Amadora, onde residia e onde começou a trabalhar, Alfredo Cunha fotografou no início da sua carreira, desde o início da década de 1970, há 50 anos. Amadora como outros subúrbios de Lisboa, via crescer os ‘bairros da lata’, as barracas. As crianças brincavam nas ruas de terra, entre o lixo. Os homens e mulheres procuravam sobreviver às portas de Lisboa.
Ao longo de 50 anos, a carreira fotográfica de Alfredo Cunha, muito mudou. Construíram-se habitações sociais e acabaram as barracas, os espaços foram recuperados, o nível e a qualidade de vida subiu.
O Município da Amadora convidou Alfredo Cunha a voltar e a fotografar a cidade, agora diferente. 2020 foi, pois, um ano em que Cunha regressou à Amadora, para ver “A Cidade que não existia”: viu novas imagens e fotografou também os sítios que havia fotografado antes! E que diferença!
Esta exposição apresenta um conjunto significativo destas imagens. Diversos cartazes pela cidade anunciam a exposição e divulgam as fotografias de Cunha. Paralelamente foi editado um álbum, um pequeno livro e uma coleção de postais, pela Tinta da China, em parceria com a Câmara da Amadora.
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Luís Pedro Nunes, autor do texto, escreve:
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Ali, mesmo ali, da sua janela, ele via a Ribeira da Falagueira, onde um êxodo urbano dos anos 60 tinha desaguado humanos em busca de vida melhor. Com a esperança depositada nas promessas de industrialização feitas por um regime moribundo, estes migrantes viram‑se a morar em barracas junto a um fio de água que atravessava uma ‘cidade que ainda não existia’. O fotógrafo — que já existia, com as suas rotinas, o seu dia‑a‑dia — foi pacientemente fotografando esse choque, esse corte entre a sua vida de rapaz que fora para Lisboa em busca de emprego e os «outros» com quem se cruzava — aqueles que não vemos, os invisíveis. […]
Este não é um livro [uma exposição] de imagens (só) sobre a Amadora. É um retrato de Portugal e dos portugueses. Revejo aquelas caras dos anos 70 na minha Escola Primária do Alentejo, todos índios, sujos e (sejamos sinceros) um pouco ranhosos. A pobreza era o denominador comum — sendo que havia um grande fosso entre o ‘remediado’ e o pobre, entre a janela do apartamento e o outro lado da ribeira. Estes são os portugueses de antes, mas também os de hoje. Nos anos 70, Alfredo fotografou na Amadora um país que já não podia existir, mas que teimosamente queria estar só no mundo. Voltou 50 anos depois para fotografar o país a ser, a rir — a querer ousar. Apanhou um país suspenso, num pânico enclausurado — a antítese do que quer para o seu trabalho. Viu ruas sem gente, caras tapadas por máscara e sem expressão, aquele momento em que se está a cair no abismo e ainda não se sabe como vai ser o impacto.»
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António Bracons, Aspetos da exposição de Alfredo Cunha, “A Cidade que não existia – Amadora 1970-2020”, 2020
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A exposição de Alfredo Cunha, “A Cidade que não existia – Amadora 1970-2020”, esteve patente na Galeria Municipal Artur Bual / Casa Aprígio Gomes, na Amadora, de 11 de setembro de 2020 a 10 de janeiro de 2021 (inicialmente até 15.11.2020).
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Alfredo Cunha nasceu em Celorico da Beira, em 1953.
Em 1970, iniciou a sua carreira profissional em fotografia e, em 1971, entrou no jornal Notícias da Amadora. Desde então, tem colaborado com muitas publicações, como O Século, o Público ou o Jornal de Notícias, tendo exercido em algumas o cargo de editor de fotografia. Foi fotógrafo oficial dos presidentes da República Ramalho Eanes e Mário Soares, recebendo a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique em 1996. É autor das famosas séries fotográficas dedicadas ao 25 de Abril de 1974 e à descolonização portuguesa, entre outras. Já publicou dezenas de livros de fotografia e apresentou dezenas de exposições, tendo recebido vários prémios e distinções pelo seu trabalho.
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Pode conhecer mais sobre a obra de Alfredo Cunha no Fascínio da Fotografia, aqui.
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