DANIEL BLAUFUKS, MY TANGIER, 1991
Sobre e com dois textos de Paul Bowles, nos 110 anos do seu nascimento (Nova Iorque, 30 de dezembro de 1910 – Tânger, 18 de novembro de 1999).
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Daniel Blaufuks
My Tangier
Fotografia: Daniel Blaufuks / Texto: Daniel Blaufuks, Paul Bowles / Design: António Diogo / Supervisão da impressão: Luís Serpa / Tradução: Luís Costa
Lisboa: Difusão Cultural / 1991
Português e inglês / 24,1 x 30,9 cm / 72 p.
Cartonado (capa sem impressão no rosto) com sobrecapa / 1000 ex., edição normal / Impressão a três tons 175 linhas
ISBN(10): 9727091113
Cartonado (capa impressa no rosto) sem sobrecapa / 100 ex., numerados 1 a 100, assinados pelo fotógrafo, reservadas ao fotógrafo e ao editor
ISBN(10): 9727091121
Cartonado / Edição de luxo, 15 ex., numerados 1 a 15 e assinados pelo fotógrafo, com três fotografias originais em Agfa Record Rapid 30,5 x 40,6 cm, impressas e assinadas pelo fotógrafo, reservadas à galeria
ISBN(10): 972709113X
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A abrir, Daniel Blaufuks escreve sobre o projeto:
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Next to nothing
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Fui a Tânger para me encontrar com Paul Bowles. Os seus livros tinham-me fascinado, mas, mais do que isso, a sua vida.
Compositor e escritor, viajante no seu tempo, alguém que procura. Em sua casa encontrei, acima de tudo, serenidade. Tardes preguiçosas à volta da lareira, apenas interrompidas por algumas visitas diárias, e calmos passeios ao mercado. Mesmo assim, estes não eram tempos pacíficos. 0 prazo americano ao Iraque estava a acabar e Bowles em breve seria o último cidadão americano na cidade. Todas as tardes atravessava a Place Koweit para chegar a sua casa e cada vez o encontrava mais preocupado, aguardando as notícias que lhe traríamos da rua. Não tem televisão e nunca o vi a ligar o rádio. E, claro, não tem telefone. Estas são as fotografias desse tempo peculiar. Fazem parte de um trabalho em curso.”
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Para o livro, Paul Bowles escreve dois ensaios, o primeiro, no início da obra, sobre a sua Tânger:
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Quando cheguei pela primeira vez a Tânger, não havia quebra-mar nem doca, embora a cidade fosse, em primeiro lugar, um porto. O ferry-boat de Gibraltar lançava âncora no porto, e os passageiros eram transportados para terra num pequeno barco a remos. A estação de caminho de ferro ficava fora da cidade, no meio das dunas; chegava-se lá por um caminho ao longo da costa, paralelo à praia. Se chovia, podia alugar-se uma carruagem puxada por um cavalo débil, que, esperava-se, nos conseguisse levar até ao comboio. A carruagem era um meio agradável de andar pela cidade, uma vez que as ruas de Tânger gozavam da sombra de uma grande vegetação. A concentração da Medina era outra história, mas mesmo aí, por vezes, uma árvore espreitava por detrás de um muro, ou os seus ramos estendiam-se até à rua. Havia uma álea por onde eu adorava passar, pelo odor a jasmim que emanava de um pátio escondido.
A Medina, uma compacta colecção de edifícios rodeada de muralhas, nunca deixou de me fascinar. Tal como o mar, estava sempre ali, mas sempre diferente do que tinha sido no momento anterior. Os dramas representados pelos muçulmanos nas suas labirínticas vielas eram como a criação de um inspirado dramaturgo. (Os espanhóis, aos milhares, apresentavam os seus próprios dramas, diferentes, mas intrinsecamente menos absorventes, porque eram normalmente estimulados pelo álcool, uma substância em que, nesses tempos, os muçulmanos não tocavam.)
A cidade era tão pequena e concentrada que do Grand Socco, o seu centro, em meia hora eu podia ir a pé até minha casa, no Velho Monte, e ficar no meio do campo, onde os únicos ruídos eram os grilos e o vento nas árvores.
Os poucos marroquinos que se viam na nesses anos, eram camponeses em cima de burros, a caminho do mercado da cidade. Os Tangerinos achavam o sol venenoso e faziam tudo o que podiam para se resguardarem dele. Só mais tarde alguns jovens foram suficientemente corajosos para imitar os franceses, que não tinham problemas em nadar e estender-se na areia, ao sol. E foi ainda mais tarde que as mulheres se aventuraram (vestidas da cabeça aos pés) às ondas.
Na Medina os únicos sons eram os das vozes humanas. O rádio, com o seu som distorcido, ainda não tinha chegado. Para os que queriam ouvir música havia os velhos gramofones de manivela, que se alugavam à hora: eram entregues por rapazes pequenos, as cornetas brilhando sobre as cabeças como campainhas [Flores (N. do T.)] gigantes, e por isso muitas vezes sem poderem ver por onde iam. O Zoco Chico, no centro da Medina, rodeado de cafés por todos os lados, apresentava uma sinfonia de centenas de conversas. No início dos anos 30, a clientela diminuía depois da meia-noite, mas nos anos 40, a seguir à guerra, quando Tânger estava cheia de turistas e estrangeiros residentes, nos cafés havia movimento até ao amanhecer; exaustas das festas, as pessoas iam tomar café preto antes de se deitarem.
Foram esses os anos mais animados da cidade Os dólares e as libras atingiam, na Zona Internacional, em francos e pesetas, o dobro do seu valor em Paris ou Madrid (ou mesmo em Casablanca). (…)
Mas algumas pessoas pareciam atribuir poderes mágicos à Zona Internacional. Excitava-os sentir que não estavam em nenhum país, que a Zona era uma espécie de terra de ninguém onde cada um fazia o que queria e onde não havia interferência da lei. E, de facto, a cidade tinha uma aura de permissividade geral, e isto em elevado grau, cuja semelhança eu nunca antes vira nem voltei a ver.
A velha Tânger que conheci em 1931 não durou muito. Quando voltei em 1947, a seguir à guerra, dificilmente se reconhecia. Tinham desaparecido casas, tinham sido derrubadas árvores, tinham sido abertas ruas nos campos à volta; e na Medina as casas tinham fachadas novas, tendo sido destruídos os arcos mouros por cima da porta da entrada, roubando assim às ruas o charme visual. Mas a maior parte dos marroquinos é completamente indiferente a tais pormenores. Admiram aquilo que é novo, sem se importarem com o aspecto que tem. Para além de alguns velhos edifícios do Casbah, o único lugar, de que me lembro, que não sofreu alterações modernizadoras é um pequeno café no Marshan, no limite de um enorme rochedo sobre o mar. Nos anos 30, eu costumava lá ir jogar loto, durante o Ramadão, e foi lá que aprendi a contar em árabe. Este pequeno estabelecimento, com uma placa que o identifica como La Guinguette Fleurie, era gerido por um velho francês. O que é admirável é que, passados cerca de sessenta anos, pareça o mesmo, tenha a mesma deliciosa identidade, com a sucessão de terraços que vão até ao limite dos rochedos. As gaivotas vão e voltam com o vento e, ocasionalmente, um petroleiro desloca-se vagarosamente pela água no seu caminho de ou para o estreito de Gilbraltar. O estabelecimento é agora pertença de marroquinos e não tem tabuleta, mas toda a gente o conhece como o Café Hafa, ou o Café do Rochedo. Se não se souber ao certo onde fica, nunca se encontrará.
Durante estes anos, desde que cheguei pela primeira vez a Tânger e fui cativado pelo seu charme, a cidade de sessenta mil habitantes multiplicou por dez esse número e, a julgar pela construção crescente que por aí vai, continuará a expandir-se enquanto a actual vaga de prosperidade durar.
Comparada à maioria das cidades, Tânger é ainda um lugar agradável para viver, mesmo apesar de hoje termos de aceitar muitas coisas feias que a princípio aqui não havia. Claro que a fealdade é a companheira inevitável da construção dos nossos dias nos países do terceiro mundo. As paredes erguem-se rapidamente de blocos de cimento, e já não há a atenção cuidadosa ao pormenor, que só pode ser realizada pela mão do homem.
Lembrando que geralmente se escreve melhor sobre aquilo que mais intensamente se sente, digo a mim próprio que fico desculpado ao falar de uma Tânger que só na memória existe, mas que, apesar de a passagem do tempo a ter deixado para trás, não deixa de ser, neste caso, menos válida.
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A fechar, após as fotografias, Paul Bowles escreve sobre si:
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Isto é uma espécie de ensaio exemplar cuja mensagem é que falar de si próprio convida ao desastre. A razão para tal não é imediatamente aparente, embora seja claro que uma conversa na qual um dos participantes insista em falar sobre si próprio rapidamente se torna estática e morre. Por alguma razão se considera má-educação falar de si próprio.
Mas estou a pensar no tipo de conversa na qual uma pessoa é obrigada a falar, a dizer acerca de si mais do que alguma vez lhe ocorreria dizer. Refiro-me, é claro, à entrevista.
Está uma manhã calma. Estou só no meu apartamento, a ler ou a escrever, ouvindo talvez o chamamento do muezin do minarete mais próximo, desfrutando a solidão, desfrutando a calma. De súbito batem à porta. Algumas pessoas aguardam de pé do lado de fora. Diz uma delas: «Somos de Zurique.» (Ou Paris ou Madrid, ou donde quer que sejam.) «Queremos fazer-lhe uma entrevista.» Entram, explicam que tentaram telefonar, mas não conseguiram encontrar o número. Não lhes digo que mandei tirar o aparelho trinta anos atrás.
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Daniel Blaufuks, My Tangier, 1991
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Este livro foi publicado por ocasião da exposição “My Tangier”, de Daniel Blaufuks, organizada pela Galena Serpa, Lisboa, no Ministério das Finanças, ao Terreiro do Paço, em Lisboa, de 11 de setembro a 12 de outubro de 1991, num ciclo de três exposições e correspondentes edições, que inclui “Das Áfricas”, de José Afonso Furtado (17 de outubro a 16 de Novembro de 1991) e “The secret agente”, de Jorge Molder (25 de outubro a 29 de novembro de 1991), esta na Galeria Cómicos / Luís Serpa.
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Paul Bowles nasceu em Nova lorque em 30 de dezembro de 1911. “Veio para a Europa em 1931, a fim de estudar música com Aaron Copland. Em 1938 casa com Jane Auer e, após a guerra, o casal passa a viver em Tânger, ainda hoje local de residência de Bowles. É autor de quatro romances célebres: The Sheltering Sky (O Céu que nos Protege), Let it Come Down, The Spider’s House e Up Above the World Em 1979 a Black Sparrow Press editou as suas Collected Stories 1939-1976, acerca das quais Gore Vidal escreveu: “As suas ‘short stories’ estão entre as melhores alguma vez escritas por um Americano.” Faleceu em Tânger, a 18 de novembro de 1999.
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Sobre Daniel Blaufuks no Fascínio da Fotografia, aqui.
Sobre o livro “Das Áfricas”, de José Afonso Furtado no Fascínio da Fotografia, aqui; e “The secret agente”, de Jorge Molder, no Fascínio da Fotografia, aqui.
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