ARLINDO PINTO, CATÁLOGO DE SILÊNCIOS, 2020
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Arlindo Pinto
Catálogo de Silêncios
Fotografia e textos: Arlindo Pinto / Design gráfico: Arlindo Pinto, Susana Paiva
Carcavelos: Planeta dos Catos / Outubro . 2020
Português / 14,8 x 21,0 cm / 72 pp., não numeradas
Capa mole / Capa em papel revestido mate, 300gr/m2, míolo em Kiara, Gardapat, 130 gr/m2, impressão offsett digital / 50 ex. + 5 PA
ISBN: 9789893309513
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O livro vem num embrulho de papel de seda preto. Abro-o. A capa reproduz esse papel de seda. O título e o autor estão identificados na lombada.
Abro.
As folhas brancas, alguns textos, fotografias, anotações, páginas de bloco…
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Sobre a obra, escreve o autor:
Catálogo de Silêncios (…) junta imagens a preto e branco, fotografadas em película, que pretendem evocar silêncios, que são interiores, materializados em lugares a que o autor agrega a simbologia que a imaginação e a memória lhe permitem. Ou então essas imagens revelam o estranhamento do real que o autor pretende mostrar, tudo confluindo para infindáveis ciclos de partida e regresso.
Os textos adensam o estranhamento. São, na verdade, outras imagens.
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As imagens no seu conjunto traduzem percursos físicos e mentais e cada uma delas um silêncio interior que cada um pode catalogar, buscando em si o que nele despertam. O movimento circular da viagem leva-nos sempre aos mesmos lugares e a diferentes silêncios, porque nem sempre as mesmas presenças despertam em nós os mesmos sentimentos. Porque também nós somos seres mutantes e contraditórios. E isso não tem mal nenhum.
No entanto, no final, o percurso, a viagem, não é tão importante assim.
“Navegamos, atravessando todo o oceano, mas é quando regressamos a casa que podemos descobrir que aquilo que procurávamos, na verdade, reside no nosso interior.”
– Erling Kagge, “Silêncio na era do ruído”
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Ou é, por isso mesmo, que a viagem, o percurso, é importante. É através dele que se faz a descoberta, o encontro. Com os outros e, sobretudo, consigo próprio.
O silêncio faz parte do caminho, faz parte da busca, faz parte do encontro. Quantos silêncios diferentes!… Arlindo Pinto “cataloga” alguns dos seus silêncios, desafia-nos a encontrar os nossos silêncios, nas suas fotografias e nos seus textos.
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Permito-me transcrever dois textos de Arlindo Pinto; como ele refere, outras imagens.
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Pouco disto é real. E a realidade um erro.
Em Roma percorri a Via Sacra. Não fotografei.
Ao longe avistei a multidão ruidosa que saudava Nero e apreçava prostitutas. Esquivei-me, furtivo, à tentação da criação das representações instantâneas.
Detive-me sobre os que me rodeavam, revolvi-lhe as entranhas e soube-os perdidos. Caminhavam como quem sabe para onde vai, pisando o chão que milhões de outros, milhares de anos antes haviam pisado.
Voltei os olhos ao chão e imaginei-os, patrícios, plebeus, escravos, deitando-me à adivinhação de que propósitos os ali teriam levado uma e outra vez, como se a vida os necessitasse. Como se fossem algo mais do que pequenas frações.
Seres dum passado talvez meu, forjado na honra e gratidão pelo seu legado de bravura, cobardia, felicidade e desgraça, lágrimas e sorrisos.
De olhos trémulos, cruzaram o meu espaço as imagens difusas que Vesúvio soterrara em todo o seu esplendor de civilização perdida.
Fiquei imóvel. Em silêncio, surdo ao ruído dos outros, rodando um filme pós-modernista, ambíguo e fragmentado. E no meu silêncio persisti, deixando a fita a meio pelo chamamento de assuntos mundanos.
Senti-me bravo, um gladiador sem broquel e cimitarra, num Coliseu apinhado.
O sangue correndo veloz sob o atlas da pele fresca da separação.
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A fotografia de mim, um fugaz momento para sublinhar a morte e o abandono.
Uma quietude repentina emudeceu-me os sentidos e calmamente palrei sobre mim, após esse inopinado ato de morte instantânea.
Nada do que sussurraram teve lugar. Não vi uma luz branca ao fundo de um cunículo escuro. Nenhuma total existência me passou pela razão, que se ocupava em falecer.
Enquanto os braços me pendiam inertes, apenas as cores se esbateram e as figurinhas ridículas dos que me agoiraram uma morte lenta, se transformaram em negras silhuetas desfocadas, por entre as quais a luz do dia vigiava. Espiava, ávida no aprisionar da camara obscura do rés-do-chão, para me envolver e aconchegar junto do Criador, ou num recanto ainda mais negro do meu ser.
Na morte não há Ser nem Criador. Há apenas morte. Cessação inevitável da existência, inflexivelmente destinada a jazer entre pranchas de madeira bordada, até que a terra tudo metamorfoseie em pó.
Porque a existência é pó. Não é senão pó.
No seu fingimento de criaturas minúsculas, transformaram-me num episódio de arrogância e levaram-me ao jazigo, inchados e vestidos a rigor.
A rigor me puseram também.
Fizeram pender da parede uma efígie emoldurada em talha dourada de sacristia e passe-partout. Para mim foi tudo indiferente. Nem sequer os desprezei mais por isso.
Permaneci imóvel, consciente da minha imortalidade.
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Arlindo Pinto, Catálogo de Silêncios, 2020
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Pode conhecer melhor a obra de Arlindo Pinto no Fascínio da Fotografia aqui e no site do Autor, aqui.
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Obrigado António
Um abraço
É um livro muito interessante! Gosto muito! Abraço
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