DR. J. DA SILVA ARAÚJO, UM AMADOR APAIXONADO PELA LEICA
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A revista “Leica Fotografie”, deste fabricante de câmaras fotográficas, divulga os equipamentos e a obra de fotógrafos que utilizam as excelentes câmaras da marca.
No seu primeiro número de 1959, publicou um artigo: “Eine portugiesisher amateur erzahlt / Zu den bildern von J. da Silva Araújo” – “Um amador português conta / Sobre as fotos de J. da Silva Araújo”, nas páginas 10 a 17.
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Anónimo, Dr. Jorge da Silva Araújo
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O fotógrafo escreve sobre a sua paixão pela Leica (tradução expedita do alemão):
Como tantos amadores, comecei minha carreira fotográfica com uma câmara de caixa. Cheguei a uma Leica depois de várias câmaras. Não foi fácil na época, porque não havia muitos fotógrafos em Lisboa com quem pudesse compartilhar experiências. Tive de passar por uma aprendizagem longa e difícil. Apenas alguns livros (incluindo “Neue Fotoschule”, de Windisch) e revistas me ajudaram; não me arrependo dessa aprendizagem, porque apenas o estudo diligente e muitas horas na câmara escura oferecem uma sólida experiência prática.
Quando o ‘Foto-Club 6×6’ foi fundado em Lisboa, em 1952 (o nome é impreciso, porque todos os formatos são permitidos), eu inscrevi-me, fui um dos primeiros membros. As minhas fotografias tímidas foram muito bem recebidas e tive tanto sucesso em exposições, que fui eleito presidente do clube, cargo que ocupo há quatro anos. Ao mesmo tempo, fui designado para presidir a júris.
Esses cargos trazem muito trabalho: há palestras para realizar, exposições para montar, cursos de fotografia e muito mais. O meu sucesso contribuiu muito para o facto de outros membros do Clube terem optado pela Leica, por isso temos um grupo de amigos apaixonados pela Leica na nossa associação.
A Leica impressionou-me não só por causa da perfeição técnica, o manuseio simples, a seleção de corpos recíprocos de primeira classe, sem os quais não me consigo imaginar a fotografar hoje, mas também por causa da sua beleza. Além da Summicron I, que mais uso: 1:2/50 mm, também uso a Summaron 1:5/35 mm, a Summarex 1: 5/85 mm, a Elmar 1: 4/90 mm e a Hektor 1:4,5 / 135 mm.
O meu trabalho como médico e chefe de departamento num hospital de Lisboa não me deixa muito tempo livre.
Com a Leica há sempre um pretexto para uma caminhada ao ar livre e, portanto, cumpre um duplo objetivo!
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Leica Fotografie, n.º 1/1959, “Eine portugiesisher amateur erzahlt: J. da Silva Araújo”
(Peço desculpa aos leitores, mas o exemplar que tenho tem furação de arquivo.)
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As fotografias estão identificadas com o título, a objetiva e película utilizada.
Os editores esclarecem, a propósito da fotografia de altos tons:
A técnica da fotografia “high-key” exige uma experiência praticamente sem sombras. As cores vivas da blusa, pele e cabelo destacam-se muito pouco do fundo claro. O tempo de exposição é praticamente o desenvolvimento, mas é mais normal. Com um tempo curto de exposição ao aumentar o zoom, o desenvolvimento é difícil. É assim que o efeito ocorre.
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Sobre o Dr. Jorge Nunes da Silva Araújo (Lisboa, 1906 – Lisboa, 1995), permito-me transcrever parte de um texto de Pedro Foyos, “Retalhos da vida de um fotógrafo amador (amador: aquele que ama)”:
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O mais belo cartão-de-visita que recebi até hoje tinha inscrito sob o nome do ofertante:
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Médico-cirurgião
dos Hospitais Civis de Lisboa
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Fotógrafo Amador
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Gratamente não faço segredo do nome: Dr. Jorge Silva Araújo, notável veterano da medicina portuguesa e, já se deixa ver, tão amante da arte fotográfica que lhe conferia a dignidade de figurar no cartão-de-visita, a par da insigne profissão. Quem considerasse despropositada (para não dizer outra coisa) a informação final, simplesmente mostraria grande ignorância sobre a salutar coexistência de uma atividade profissional e de uma outra assumida como reduto do prazer criativo. Sendo esta tão confortante, espiritualmente, como a primeira, por que não manter a equidade, a começar num singelo cartão-de-visita? Era uma corajosa declaração de amor: amador é aquele que ama. E o Dr. Silva Araújo não escondia o orgulho de ser autor de admiráveis imagens fotográficas (a sinonímia de “boa fotografia” passava então por expressões como “uma boa chapa” ou “um bom boneco”, esta mais associada a um flagrante jornalístico). Tradição interessante naquele tempo era a dos médicos, em número apreciável, conciliarem o exercício da Medicina com o amadorismo fotográfico. Igualmente a de serem escritores, por vezes pintores, como se sabe. Vem à memória uma frase célebre de Abel Salazar: «O médico que só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe.» Tive o ensejo de manter relações de grande amizade com alguns destes médicos-fotógrafos, como José Fontes, Manuel Abranches, Manuel Valente Alves, também escritor. Felizmente, esse culto continua a fazer caminho.
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O CASO DO GRÃO MÁGICO QUE PERTENCIA À ESFERA “DO ESPECTRAL”
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O nome e a obra do brioso médico-cirurgião Dr. Silva Araújo, que amava a fotografia como tantos outros talentosos amadores portugueses, dissiparam-se no implacável anonimato que nos sentencia a todos, a menos que alcancemos a fasquia da genialidade, e mesmo assim… O caso do Dr. Silva Araújo reveste-se de especial injustiça porque foi um pioneiro mundial na área da pesquisa laboratorial. Entre outros êxitos merece realce a obtenção da grande ampliação praticamente sem “grão”, ou seja, era possível ampliar uma imagem para qualquer tamanho sem nenhuma espécie de “grão” visível. Poderosas produtoras fotográficas, sobretudo a Leitz, cobiçaram-lhe os negativos, mas o médico português apenas autorizou a realização de várias exposições dos seus trabalhos na Alemanha. As fotografias do Dr. Silva Araújo pareciam mágicas. E não eram? Ampliava-se um negativo de 6 x 6 cm para meio metro de largura e o “grão” continuava a ser o de um postal. Até o aristocrático Trovisqueira (já muito idoso mas assíduo naquele claustro lisboeta nomeado Foto-Clube 6 x 6), que de hábito andava com uma lupa no bolsinho do casaco para perscrutar as obras dos neófitos, declarava com um trejeito de incompreensão que o engenho do Dr. Silva Araújo pertencia à esfera «do espectral». Ao amável Trovisqueira atribuía-se a máxima: «o grão causa estampidos visuais». Então, decerto por maldade, puríssima maldade, eu e outros heréticos membros da comunidade fotográfica desatámos a puxar o “grão”, tão desalmadamente que, acaso estivesse aberta uma janela, o estampido (ou)via-se no prédio vizinho.
Por esse tempo, o Dr. Silva Araújo cessara o mandato como presidente da assembleia geral da Liga Portuguesa dos Deficientes Motores e um grupo de associados dirigiu-lhe o convite para assumir idêntico cargo na coletividade de que era sócio quase desde a fundação. Anuiu de imediato. Eu mal imaginaria que na década seguinte ele seria o meu ilustre antecessor naquele cargo no clube que entretanto adotara a denominação de Associação Portuguesa de Arte Fotográfica.”
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A sua paixão pela fotografia levou-o a aderir a outros grupos, como o Grupo Câmara, sedeado em Coimbra.
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Cartaz da exposição.
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O reduzido grão das provas do Dr. Silva Araújo foi também notado por Hans-Michael Koetzle, que organizou a obra “Eyes wide open! 100 years of Leica Photography”, Heidelberg, Berlim: Kehrer Verlag, 2015, ISBN: 9783868285307, e comissariou a exposição homónima que esteve patente em vários países, incluindo em Portugal, na Galeria Municipal do Porto, de 30 de novembro de 2016 a 5 de fevereiro de 2017. No livro, cujo ensaio sobre os fotógrafos rendidos à Leica em Portugal é de Emília Tavares, apresentam-se também diversas fotografias do Dr. Silva Araújo (p. 280, 281, 288-289, 292-293. 294 inf).
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Hans-Michael Koetzle (org.), “Eyes wide open! 100 years of Leica Photography”, Heidelberg, Berlim: Kehrer, 2015. As imagens do Dr. Jorge Silva Araújo.
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Pode ler “Retalhos da vida de um fotógrafo amador (amador: aquele que ama)”, de Pedro Foyos, aqui.
Pode ler a entrevista de Sérgio B. Gomes a Hans-Michael Koetzle a propósito da exposição “Eyes Wide Open!” no Porto, no jornal Público, aqui.
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