JOÃO SANTOS, ACORDA VEM VER A LUA, 2018

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João Santos, Acorda vem ver a lua, 2018

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Sobre esta série escreve o autor:

“Acorda vem ver a lua” é um projeto documental sobre uma criança cigana da comunidade cigana do bairro do Olival.

O Domingos de 13 anos, tem problemas de comunicação e dialogar não é a sua melhor habilidade. Algumas palavras são inaudíveis. Comunica à sua maneira. O primeiro contacto com ele, ainda de parcas palavras, mas assim que começava a comunicar não mais parava. Desabafou chorando os momentos mais delicados. Violentado na escola, a prisão do pai, os irmãos e a casa. “Sinto-me só” disse por algumas vezes. Chorava. “Tenho saudades do meu pai” apontando para a carrinha, ainda estacionada à porta do prédio, do seu progenitor.

Domingos vive com a mãe Maria, o Rúben e a Cecília (irmãos).

O Domingos fica agitado junto de multidões, tem maneirismos como abanar de forma recorrente as mãos, saltar no mesmo lugar e alguns espasmos vocais. Quando nos encontramos lá no bairro, chamo pelo nome dele. Ele vem à janela. Quase sempre com a cara suja e eu digo-lhe para ele lavar o rosto e ele responde com um simples “O.K” fazendo o sinal com o polegar. Diz que tem fome, ou que comeu batata frita em saco ou que não comeu na escola.

As crianças trazem com elas algo mágico às nossas vidas, pela forma como o dizem ou agem na sua infinita leveza de ser.

“Gosto muito de ti, João” quando nos despedimos. “Também gosto muito de estar contigo” digo surpreendido. “Vais voltar. Espero por ti aqui no bairro.”

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João Santos. Nasci a 28 de Maio de 1991 em Vila Nova de Gaia. Licenciado em Comunicação Audiovisual e Multimédia pela Universidade Lusófona do Porto (2015-2018) e do Curso Profissional de Fotografia (2016-2018) pelo Instituto Português de Fotografia.

O meu trabalho espelha a relação da memória, do tempo e o espaço tendo como pano de fundo a sociedade portuguesa contemporânea. Trabalho sobre o que vejo nas ruas, sobre as pessoas. Caraterizo o meu trabalho como autobiográfico pelo nomadismo, pela viagem e pela deriva. Estou numa constante tentativa de construção de novos modos de ver a realidade e sobre os cenários que me são apresentados.

Procuro fotografar o que foi esquecido, rejeitado ou deixado suspenso. Sinto-me particularmente interessado por temas quotidianos, a crise económica, a instabilidade, a incerteza, momentos e pessoas que não pertencem à história, os rejeitados, uma espécie de heróis esquecidos. Com as minhas imagens procuro provocar nostalgia e desconforto, sendo apenas as marcas, os testemunhos, de um momento congelado através do meu olhar.

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Pode conhecer melhor o trabalho de João Santos aqui e no Fascínio da Fotografia aqui.

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Cortesia do Autor.

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