ADRIANO MIRANDA, PICAR O PONTO, 2020

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Adriano Miranda, Picar o Ponto, 2020

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“Mesmo em tempos de isolamento por causa da pandemia do novo coronavírus, há quem não consiga ficar em casa.” “Há profissões que não podem parar.” Adriano Miranda saiu à rua e acompanhou profissionais de sete áreas que não podem parar. Estes ensaios foram publicados no jornal Público, entre 26 de março e 9 de abril.

Trago aqui uma resenha deste projeto, acompanhada de parte dos textos de Adriano Miranda.

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As forças de segurança, “Deus à beira da estrada”

São 9h. Na esquadra da PSP, em Aveiro, os agentes percorrem corredores e salas com a distância recomendada. Tudo parece normal. São homens e mulheres treinados para situações limite. De ruptura. De desespero. Várias brigadas dirigem-se para as viaturas de serviço. Irão percorrer as ruas da cidade. Irão dar corpo a a uma excepção sem precedentes – o estado de emergência.

Sem sirenes nem alarmes, os automóveis da PSP circulam devagar. Pouca gente. O centro da cidade está quase inanimado. Pálido. Um corredor matinal. Um ciclista. Um cão. O paralelo velho da avenida é agora pouco visitado. Um homem fuma sem pressas à porta do seu minimercado. Os agentes conversam. Quando, ao longe, vêem duas pessoas dentro de um automóvel, preparam a guarda, levantam o braço e esticam a palma da mão. Perguntam para onde vão, o que vão fazer. Uns seguem. Outros fazem inversão de marcha. A residência será o caminho. O melhor caminho. (…)

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Os agricultores, “Com o coração se faz sopa”

São 6h. As luzes do automóvel furam a neblina densa. Adivinha-se terras lavradas. Revoltas. Silhuetas de árvores. Um círculo a deixar adivinhar um poço. Ainda em adobe. Velho e fundo. Começo a adivinhar uns traços metálicos. O pavilhão, o grande pavilhão, ali está plantado no meio de terra castanha, paredes meias com o traçado da auto-estrada. Qual o melhor símbolo de progresso que quatro faixas de alcatrão onde já se semeou batatas e feijão? (…)

Uma porta abre-se e um sorriso aparece. É o Márcio, agricultor. Como se diz agora, um jovem empreendedor. Deixou o fato e a gravata e disse adeus ao sector bancário. Aprendeu a andar em torrões de terra. O bisavô, o avô e o pai sempre foram agricultores. E o Márcio sempre cultivou o “bichinho.” Fundou a Banca Terra. Madruga para tratar das suas couves, das suas alfaces, dos seus pimentos, das suas cebolas. (…)

De luvas e facas, Manuela, Adília, Ana Jorge, Damas, Alexandre e Márcio colhem couve-coração. No meio daqueles campos todos parecem esquecer o vírus. Fazem o que sempre fizeram. Dobradas e dobrados. Escolhem as melhores couves. Carregam caixas. Damas, o puto de 18 anos, é o mais sorridente. Trabalhador, adivinha-se os músculos. Ali esquecemos o estado de emergência. Esquecemos o vírus. Ali é só verde e azul. E também coração.

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Os professores, “O gato que nos une”

São 8h. Não há jovens em grupo. Nem há jovens solitários. Não há, ponto. Não há pais atarefados. Não há buzinas nem gritos. Insultos também. Não há o beijo de despedida. Não há o beijo de amor. (…)

Paula, professora do primeiro ciclo, já não se levanta às 7h. Já não bebe a bica antes de ouvir o toque da campainha. Diz que já sente saudades. “Sinto falta dos sorrisos dos meus alunos.” Estar em casa é um tormento. Tenta manter os hábitos normais. “Visto-me como se fosse para a escola.” O seu escritório foi transformado em sala de aula. Falta o quadro. As mesas e as cadeiras. E falta o fundamental – as crianças. Agarra-se ao computador e envia fichas aos alunos. No fim, distribui beijos. Como se estivessem em planetas distantes. “É estranho. Muito estranho.” Fátima corta cartolinas. É para “um aluno que ainda não sabe as cores”. Também sente saudades. Como a Guiomar, “que só quer é que isto acabe.” (…)

Há professores que trabalham no quarto. Outros preferem a sala. Outros, o escritório. Alguns, a varanda. Poucos, o jardim. Trabalhar em casa para um professor “não é nada estranho”: “Sempre o fizemos. São horas e horas a preparar aulas, a corrigir testes, a fazer grelhas de avaliação.” Pilar gosta de ter o computador no regaço. Trabalha no quarto. Quer ir para a escola. Mas tudo isto está a ser desafiante. Mas “muitos alunos não têm computador, impressoras ou Internet, o ensino não está a chegar a todos”. (…)

As escolas e as universidades continuam sem alunos. Tudo está suspenso. Elizabete procura o ar da varanda. Celeste procura a sombra da palmeira. E João dá uma aula por Skype. Uma aluna mostra o seu gato. “Nunca pensei ter um gato nas suas aulas, professor.” Riem-se. Um riso colectivo sem o eco da sala de aulas. Só falta o reencontro. E esse também chegará.

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“O Ronaldo dos padeiros”

São 23h. A vivenda amarela ainda tem os portões fechados. Espero com o frio a entrar pelos ossos. O motor começa a ranger e o portão começa a abrir. Devagar. Percorro o pátio onde estão as carrinhas comerciais. Tudo impecavelmente arrumado. Uma luz intensa indica o caminho. Lá dentro está quente. O calor do forno invade a ampla sala forrada a azulejos brancos. Bela, a proprietária da padaria Cantinho, vigia a gigantesca amassadeira. Com a cadência certa, a massa vai girando como um carrossel. Na mesa de inox, Bela espalha agora farinha. Vai ser lá que vão tender o pão.

Diogo, o filho de Bela, aparece por uma porta estreita. Quase parece planar. É rápido. Vai preparar as pizzas. Depois as bolas-de-berlim. Faz tudo a correr como se estivesse numa competição. Fico a olhar para ele. Admirado com o seu ritmo de trabalho. Diogo diz que sempre foi assim: “Nasci na farinha.” … E faz pão. “O alimento mais precioso. As pessoas esperam por nós todas as manhãs.”

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As mercearias e os supermercados, “A lixívia e os tempos antigos”

São 12h15. Não é difícil perceber onde é o supermercado. Numa das ruas mais movimentadas da cidade do Porto, encontrar estacionamento nunca foi tão fácil. Não há trânsito no alcatrão nem pessoas na calçada. As poucas que por lá andam procuram o supermercado e um restaurante ao lado, barricado com uma mesa à porta. Só take-away. No restaurante, duas pessoas esperam. No supermercado, a longa fila tem cinco pessoas. Longa não pelo número, mas pelo distanciamento. Quatro idosos e uma jovem esperam a sua vez para entrar. Também aguardo pela minha vez. (…)

O senhor João já é cliente habitual. É vizinho. Leva lixívia. E café. “Um homem não vive sem café. E, pelos vistos, agora também não vive sem lixívia.” Deseja um bom dia para todos. Os funcionários retribuem quase em coro. Os clientes vão saindo e entrando. Uns com máscaras, outros com luvas. Outros sem nada. E aquelas trabalhadoras e trabalhadores continuam com um sorriso franco. A trabalhar. Quase como se nada fosse. Conscientes que naqueles corredores, onde o marketing nos abre o apetite, poderá estar o perigo em forma colorida. Mas como desabafa Mariana: “Temos que andar. Se não formos nós, quem o fará?”

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A recolha do lixo, “Os bailarinos de rua”

São 9h15. Num bairro de vivendas e poucos prédios, no concelho da Maia, estaciono o meu carro no local combinado. Espero uns dez minutos. Chega o volvo. O camião da recolha do lixo. Três homens. O Jorge, o condutor. O Joaquim e o Luís, os “atletas.” Afáveis. Cordiais. Perguntam como quero fazer. Só me dão duas hipóteses. Ou vou no meu carro ou vou a pé. Escolhi ir a pé. “Olhe que é cansativo.” Expliquei que estava ali para saber como era. Imaginava ser duro. Imaginava ser perigoso. Mas queria deixar de imaginar. Um banho de realidade ensina-nos muita coisa.

A ordem de partida foi dada. Jorge conduz o volvo muito devagar. Quase sempre a travar. Os condutores aprendem a travar com o motor. Não há travões que resistam a tanto desgaste. Joaquim e Luís correm como bailarinos. Um vai ao passeio da direita. Outro vai ao passeio da esquerda. Depois, quase na perfeição da sincronização, encontram-se na traseira do volvo. Encaixam os dois contentores. Carregam num botão. E num movimento mecânico, os contentores sobem em plano inclinado. Ouve-se barulho. Muita coisa cai. Depois o movimento inverso. E os mesmos passos de dança. (…)

O bailado não lhes deixa tempo para pensar muito. Por vezes vem a mágoa. Quando alguém no passeio foge deles. “Somos os homens do lixo. Devem pensar que estamos cheios de vírus.” (…)

Já dentro da cabine, a viagem agora é bem mais rápida. O volvo está cheio e o caminho é a Lipor II. Entramos num edifício enorme. Chamam-lhe a fossa. Milhares e milhares de toneladas de resíduo indiferenciado. Uma garra dentada vai apanhando o lixo que depois de queimado gera energia eléctrica. (…)

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Os jornalistas, “A rotativa que poderá fazer um mundo melhor”

Uma da manhã. O segurança diz-me para esperar. Agradeço e fico no largo parque de estacionamento. Uma carrinha branca sai. Adivinho que vai percorrer o Norte do país a distribuir jornais. O Correio da Manhã já foi impresso. Com um ar bem-disposto, António dá as boas vindas. “Chegou mesmo a tempo. Estamos a imprimir o PÚBLICO.”

Por corredores estreitos chegamos à nave. Um monstro faz barulho. Quem não conhece a famosa rotativa. A máquina, que a uma velocidade doida, imprime 30 mil jornais em apenas uma hora. Os tipógrafos colocam as chapas num tambor. António manda esperar. “Está aqui o fotógrafo do PÚBLICO.” E com uma vaidade latente explica todo o processo. Subi as escadas de metal e os dois trabalhadores começaram a colocar as chapas. Aviso que podem fazer tudo normalmente. Sem compassos de espera para a fotografia. “É como se eu cá não estivesse.”

Depois de dado o ok, a rotativa começa a rodar. Rodar. Rodar. E a velocidade aumenta. Numa cabine cheia de botões que faz lembrar os controladores aéreos, quatro tipógrafos retiram jornais. Apressadamente vão abrindo página a página. Um rápido controle de qualidade. Os primeiros parecem uns mata-borrões. Mas depressa a impressão fica no ponto. (…)

Nós, os jornalistas, também somos trabalhadores. Iguais aos tipógrafos que pela noite dentro trabalham para que o país conheça os nossos textos, as nossas fotografias e as nossas infografias. (…)

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Pode ver a série completa de Picar o Ponto, aqui.

Pode conhecer outros trabalhos de Adriano Miranda no Fascínio da Fotografia aqui.

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