JOÃO ANTÓNIO FAZENDA, COISAS NOVAS E COISAS VELHAS

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O Espaço Artes do Instituto Politécnico de Lisboa, na Estrada de Benfica, 529 mostrou entre 15 de janeiro e 5 de fevereiro de 2020, uma exposição marcando o percurso de 50 anos de atividade fotográfica de João António Fazenda: desde os retratos de crianças e jovens, do final dos anos 60 e anos 70 até às viagens e à paisagem, à cor, aos ambientes. As texturas, as linhas, os reflexos. Pessoas, locais, espetáculos. Das fotografias a preto e branco, impressas pelo próprio, às imagens digitais, quer atuais, quer realizadas a partir do seu arquivo de negativos. A abrir um autorretrato (Bruxelas, 2018), representando-o nas suas múltiplas camadas ou aspetos – bem patente nesta exposição – até ao autorretrato que (quase) encerra, em que olha a morte de frente (simbolizada numa caveira) e assim, desafia o esquecimento.

Apesar de terminada, vale a pena trazer aqui a obra de João António Fazenda.

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Acompanha a exposição um catálogo, A5, de 16 páginas, que inclui dois textos e reproduz algumas das fotografias.

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João António Fazenda, Coisas novas e coisas velhas, Catálogo

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Paulo Morais-Alexandre (Professor-adjunto da Escola Superior de Teatro e Cinema; Pró-presidente para as Artes do Politécnico de Lisboa; Investigador integrado do Centro de Investigaçäo e de Estudos em Belas-Artes da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa; Doutor em Letras – História da Arte, pela Universidade de Coimbra) escreve um ensaio sobre a fotografia de  João António Fazenda:

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Coisas novas e coisas velhas

A fotografia de João António Fazenda

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«O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás…

E o que vejo a cada momento

E aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras..

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo…

[…]”

Alberto Caeiro/Fernando Pessoa, “O meu olhar é nítido como um girassol” in O Guardador de Rebanhos

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O ponto de partida é um verbo. Efetivamente no princípio da fotografia, também havia um verbo, o verbo Ver, mas não só, o verbo Olhar, o verbo Sentir, o verbo Partilhar e outros tantos verbos que com estes ajudam a compreender uma exposição de fotografia, esta exposição.

As fotografias que vemos são, de alguma forma, os momentos em que o autor, congelou o seu olhar, através de uma câmara e, numa fase posterior, entendeu partilhar esse olhar muito pessoal, muito específico, connosco. Mostra-nos o que viu, o que quer que nós também vejamos e tal é sempre um ato de generosidade, um ato de partilha.

Mas essa câmara mudou e o mundo também mudou com ela. E isso que é exposto aqui, sob o título de “Coisas novas e coisas velhas”, o mundo que mudou com a tecnologia, que mudou as câmaras, que mudou com e para o fotógrafo, como mudou connosco. E é imperativo questionar se o mundo que hoje existe é ainda o mundo onde, alguns de nós, os mais vetustos, nascemos? – João António Fazenda mostra-nos essa evolução, esses mundos diferentes. Esses mundos que um dia teremos, ou melhor, já temos, dificuldade em explicar não só aos nossos netos, mas aos nossos próprios filhos.

Da fotografia impressa em papel fotossensível, em emulsão de prata, ao universo dos megapixéis, de fotografias impressas; da camera obscura, onde nasce a fotografia à digitalização da imagem, do preto e branco à cor, houve um mundo que mudou, mas esse mundo também mudou na Arquitetura, também mudou nas montras das lojas, também mudou nos caminhos, também mudou na forma das pessoas vestirem, também mudou na própria forma das pessoas olharem para ele e, até, umas para as outras. É esse o documento que esta exposição também é, um testemunho, onde João Fazenda nos mostra uma forte evolução através dos seus vários olhares que congelou em imagens e onde nos mostra essas diferenças por vezes abissais entre o que era a existência no tempo em que começou a fotografar, na já remota década de 60 do século XX, e a vida atual, sendo curiosamente significativa uma lindíssima fotografia, quase abstrata, da arquitetura do novo edifício da Escola Superior de Teatro e Cinema, a tal escola que esteve no velho Conservatório de Almeida Garrett e que, na viragem do século, ganhou um novo espaço, se modernizou e aderiu ao futuro.

Não se pense, no entanto, que se trata de uma exposição melancólica. Não o é efetivamente e, se por vezes há uma leitura poética, e não confundir poesia com nostalgia, esta é uma visão de alguém que vive os dias de hoje, com a mesma alegria e intensidade com que registou o passado.

É ainda possível encontrar nas fotografias expostas uma fina ironia e até alguns verdadeiros sarcasmos, mas sempre com um apurado sentido de humor, que é apanágio de João António Fazenda, uma leitura crítica, um encontro de um momento, gentes, acontecimentos, arquiteturas, ambientes, atmosferas, semblantes, tudo isso sempre captado pela magnífica lente do fotógrafo. captado pelo olhar que aqui é partilhado.

Cumpre-nos agora pensar naquilo que o autor nos deixa e continuar a Ver e a Viver.

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António Bracons, João António Fazendo, 2020

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O fotógrafo escreve sobre o seu trabalho:

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Eu e a fotografia

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«Eu, eu mesmo…

[…]

Tive um passado? Sem dúvida…

Tenho um presente? Sem dúvida…

Terei um futuro? Sem dúvida…

A vida que pare de aqui a pouco…

Mas eu, eu…

Eu sou eu,

Eu fico eu,

Eu…”

Álvaro de Campos

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Que a vida é um milagre todos o sabemos. Que é um desafio, também. Existe uma luta constante entre Eros e Thanatos, como os gregos o expressaram, e Edgar Morin o recordou numa sua conferência entre nós em 2017, dizendo ter de optar-se sempre pelo partido de Eros, como ele o fizera, mesmo nos seus tempos de combate na resistência. Era essa a sua mensagem à juventude. A opção por Viver, mais do que sobreviver, dera sentido à sua vida.

Outra personalidade relevante, o 14.º Dalai Lama afirmou que a questão não é saber se a vida tem sentido, mas saber como é que podemos dar sentido à nossa própria vida.

Nesta tinha de pensamento, a fotografia tem sido importante para mim desde há meio século e hoje posso dizer que contribuiu para dar sentido à minha vida.

Ser fotógrafo é uma das facetas da minha personalidade. Quando me vejo ao espelho, identifico-me como ser uno, mas também como múltiplo e o fotógrafo está lá.

A vida refletida é olharmo-nos ao espelho, mas os alhos dos outros são os nossos melhores espelhos. Por isso faço exposições dos meus trabalhos para ter o “feedback” de mim, para perceber aquilo de que sou capaz.

A fotografia, para mim, cria a sua própria realidade. É o que eu vejo mais a ideia do que estou vendo. Vê o que eu sou. Por isso – como André Kertesz dizia – “com as minhas imagens, nunca documento, interpreto sempre”.

Citando outro grande fotógrafo, Luigi Ghirri, “acredito que a fotografia é uma formidável linguagem visual que ajuda a aumentar esse desejo de infinito que todos temos dentro de nós […], uma grande aventura no mundo do pensamento e do olhar, um maravilhoso brinquedo mágico que. miraculosamente, consegue combinar o nosso conhecimento adulto e as histórias de encantar das crianças” (in Luigi Ghirri, “L’opera aperta”. typescript, 1 984).

Isso é alcançável através de muitos caminhos, cada fotógrafo segue o seu, e através de múltiplas géneros fotográficos.

Nesta exposição mostro o meu caminho e o que fui fazendo em diversos géneros: retrato, paisagem, objetos, cidade, natureza, arquitetura, documento, espetáculo, condição humana. Fiz um pouco de tudo, mas é como “fotógrafo de rua” que me revejo mais. E de película a preto e branco, apesar de também vir fotografando a cores desde há muito.

Concordo com Francis Ford Coppola quando disse – ouvi-o eu próprio dizer, em 2009, no Estoril Film Festival – que “o preto e branco não é ausência de cores, é uma forma de arte por si própria”. km fotografia (como em cinema) preto e branco e cores são duas linguagens visuais distintas: branco e cores são duas linguagens visuais distintas.

Talvez por isso possa chocar alguns especialistas a mistura de fotografias dos dois processos numa mesma exposicão, como fiz nesta. Considerei, porém, que o seu caráter de antológica tal justificava.

Trata-se de cinquenta anos de prática fotográfica artística, mas ou menos constante, dependente de disponibilidades várias, mas sempre apaixonada, amadora, livre, de que aqui se dá conta.

Quanto tempo é amanhã? A esta pergunta (que vem do filme “A Eternidade e o Dia” de Theo Angelopoulos) não sei responder. Só sei que já me dóiem a coluna e as articulações, me custa mais subir escadarias, mas vou continuar a caminhar (até poder!) para fazer a fotografia que gosto. Para deixar rastro.

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2020

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João António Fazenda (Faro, 1947).

Em 1962, faz as primeiras fotografias com uma Kodak de fole. Adquire uma câmara reflex Pentax em Hong Kong, na viagem de fim de curso, em 1970, ano em que entra para sócio do Foto-Club 6×6 em Lisboa; entre 1971/73 é membro da Direção do Foto-Club 6×6, depois APAF – Associação Portuguesa de Arte Fotográfica.

Em 1970, a primeira exposição individual – Genesis, Foto-Clube 6×6, a que se seguem Continuum (1974) e Vivências [1976), APAF; entre 1971 e 1980 participa em numerosas exposições coletivas, de que se salienta a 1.ª Exposição Luso-Brasileira de Fotografia, Évora (1972), Portugal Um Ano de Revolução 25 de Abril (1975), Inter-Foto Mallorca, Palma de Maiorca (1976), 2.º Salão Inter-Associações Porto/Coimbra/Lisboa (1979). Fotografia Portuguesa Contemporânea – 1.ºs Encontros de Fotografia de Coimbra (1980).

Faz o Curso de Fotografia dos Serviços Cartográficos do Exército (1974/75) e ente 1971 e 1994 dá formação em fotografia em clubes juvenis, residências universitárias, Instituto Português de Fotografia, Polícia Judiciária, Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril.

Obtém prémios em concursos nacionais e internacionais de arte fotográfica (Igualada/Espanha, Zadar/Jugostávia, Rio de Janeiro, Lisboa. Setúbal, Estoril, Bragança, Silves, Zambézia/Moçambique, Póvoa do Varzim) 1971/77.

Entre 1980 e 2006 não deixa de fotografar mas não expõe nem divulga (fase do Nim), com as únicas exceções da exposição Degrau a Degrau, Escola Superior de Teatro e Cinema, Amadora (1998) e Melhor Fotografia de carater institucional do Concurso do IPL – Instituto Politécnico de Lisboa (2004).

Desde 2006 que realiza diversas exposições individuais: “Da Necessidade de Ver, Escola Superior de Teatro e Cinema e Biblioteca Municipal de Portalegre (2006), “O Eterno Retorno”, Galeria de Arte Convento do Espírito Santa. Loulé e “Itinerâncias do Olhar”, Galeria de Santa Clara, Coimbra (2007), “Algarve – Da Luz e da Obscuridade”, Reitoria da Universidade de Lisboa (2008), “Experiência de Lisboa”, Escola Superior de Teatro e Cinema, Amadora (2009), “A Praia da Minha Vida — Fotografias da Ilha de Faro”, Biblioteca Municipal de Faro (2010), “Alvalade debaixo de olho”, Biblioteca dos Coruchéus, Lisboa e “Londres, Paris, Madrid: cidades inspiradoras”, Centro Cultural Regional de Santarém – Forum Mário Viegas (2014), “Inside Alvalade”, Biblioteca dos Coruchéus, Lisboa (Lisbon Week, 2015), “travessia(s)”, Centro de Documentação do Edifício Central da Câmara Municipal de Lisboa (2017), “A Cidade do Homem”, Direção Geral da Administração da Justiça, Campus de Justiça, Lisboa (2015-17), “Time Lapses – No Algarve a Parar o Tempo”, Museu Municipal de Faro e Biblioteca Municipal de Olhão, “O Pão Quotidiano”, Escola Superior de Teatro e Cinema, Amadora (2018) e “Passo a Passo Lisboa é Infinita”, Centro de Documentação do Edifício Central da Câmara Municipal de Lisboa (2019).

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