JORGE PRATA, MOSTEIRO DE ALCOBAÇA: HISTÓRIA; TEMPO; MEMÓRIA
Exposição nas Caldas da Rainha, no Museu do Hospital e das Caldas, na Rua Rodrigo Berquó, de 18 de janeiro a 5 de fevereiro de 2020.
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Vi as fotografias do interior da Abadia do Mosteiro de Alcobaça, de Jorge Prata. Pretos densos e, iluminado por linhas brancas, o desenho suave e minimalista do espaço – e pontualmente, das pessoas. Há também toda uma gama de cinzentos, acompanhando o aparente branco dos traços. Estas fotografias fazem sentir o silêncio, o ambiente de oração e profundidade, razão de ser da Abadia e necessário aos monges de Cister, que o construíram, entre os séc. XII e XIII, nos primeiros tempos do Reino. Jorge Prata, através dos pretos profundos, procura destacar o essencial na fotografia, como os monges através da oração procuram o Essencial. Quase se conseguem ouvir os cânticos de laudes e de vésperas…
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A série está dividida em 4 núcleos: História (fotografias 1 a 7), Tempos (8 a 10), Marginália (as gárgulas) e Memória (as 2 últimas).
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Jorge Prata, Mosteiro de Alcobaça: História; Tempo; Memória
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Sobre a série escreve o autor:
Mosteiro de Alcobaça: História; Tempo; Memória
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Revelar o Mosteiro de Alcobaça. Dar-a-ver a sua estrutura originária, na qual se inscrevem tanto as constelações concretizadas, como as que não passaram de meras potencialidades não actualizadas. Talvez seja isso a história. Ou o tempo. Como ‘pensar’ o tempo, um tempo sem unidade, movimento, linearidade narrativa? O tempo da fotografia? O tempo da memória? Que relação poderá existir entre memória, temporalidade e história.
O que será a fotografia ‘sem revelação’ …
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História
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“A verdade não é desvelamento, que anula o mistério, mas revelação, que o salva e justifica.”
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A história do Mosteiro de Alcobaça. Que história é essa que se pretende começar a escrever neste espaço? Uma história-revelação, história essa que será, talvez, o dar-a-ver a sua essência, aquilo que, em propriedade, o constitui: história de uma origem, e não de uma génese, portanto.
Precisamos pensar a essência não como uma determinação de Ser, mas como um campo aberto de possibilidades, algumas das quais se vão concretizando em tempo.
O Mosteiro de Alcobaça é um conjunto de possibilidades; a sua primeira edificação, a materialização de uma das constelações que a sua origem possibilita.
A Abadia de Alcobaça: a luz da revelação que salva os entes e os inscreve na vida eterna.
A Abadia de Alcobaça: a beleza da geometrização pura do espaço como modalidade (mística) de elevação a Deus, a absoluta obliteração da mundanidade do mundo.
Será o “barroquismo”, que lhe foi sendo enxertado, a negação da essência do Mosteiro de Alcobaça ou, porventura, apenas uma modalidade outra de concretização dessa essência?
A luz da revelação, que se gera no espaço monástico, revela a revelação à Humanidade.
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Tempos
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“Há quanto tempo entrelaçámos as mãos?
Há muito tempo! Esta manhã, quando o mundo ainda não existia.”
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São estes tempos, tempos sem tempo, que, talvez, só a fotografia seja capaz de revelar. Tempo plural, que não pode ser separado dos corpos em que se dá a ver. A tinta desvanece-se a um ritmo diferente do da pedra, e a mesma pedra tem ritmos diferentes de desvanecimento: Tempo-Duração.
Mas a pedra não se limita a resistir ao passar dos dias e dos anos, e a inscrever em si própria as marcas dessa resistência, ela transmuta-se e, ao transmutar-se, inscreve-se num mundo outro. O Tempo será a medida qualitativa dessa alteridade, da diferença entre o antes e o depois da transmutação. Há pouco tempo entre século e século, há muito tempo no instante: o breve gesto da consagração instaura uma cesura de séculos entre o mundo-do-pão e o mundo-do-corpo-de-cristo. Transubstanciação que emerge, num brevíssimo momento, da conexão entre dois eventos separados por séculos, produzida pela memória: Tempo-Momento não linear.
Como revelar os tempos?
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Marginálias
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Nas margens do texto, que se escreve e copia, os dedos vão inscrevendo o sentir que, no decorrer longo dos dias, neles se foi gerando, o desejo-de-mundo em que o corpo, por vezes, imerge, o palpitar da carne que se jurou subjugar, quando a Deus se dedicou o Ser; mas, nesse vazio que não cessa de interpelar quem nele se detém, desenha-se, também, a perfeição de um mundo que, se bem que ainda por-vir, está já plenamente constituído no instante em que a pena e o pergaminho se tocam.
As margens de um manuscrito são a matéria na qual encarna o ser concreto do individuo que o escreveu, a matéria na qual se interliga o individual e o genérico, o concreto e o abstracto. Neste tecido, porque um manuscrito de fios se gera, onde se situam as margens: no indivíduo que o escreve, ou na escrita que ele escreveu?
Pensar as gárgulas de Alcobaça como se estas fossem as marginálias do texto-mosteiro, o local de inscrição de uma qualquer concretude-mundana.
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Memória
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“Como se a consciência do presente se conectasse com um passado longínquo, no qual se reconhece; e isto, não para comemorar o acontecimento passado, mas para o reanimar, e para tentar concretizar as esperanças desse passado que não se cumpriram.”
Walter Benjamin
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Num qualquer instante fugaz, de uma fugacidade talvez difícil de qualificar e entender, D. Pedro terá amado D. Inês de Castro e, intencionalmente ou não, esse amor acabará por inscrever-se nos corpos pétreos que o Mosteiro alberga. ‘Memorá-lo’ (não comemorá-lo) será inscrever em acto o desejo que nesse momento aflorou, como ideia, em um gesto de D. Pedro.
Será a estrita contiguidade necessária à persistência da memória?
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A exposição “Mosteiro de Alcobaça: Espaço; Memória; História”, de Jorge Prata, apresenta-se nas Caldas da Rainha, no Museu do Hospital e das Caldas, na Rua Rodrigo Berquó, de 18 de janeiro a 5 de fevereiro de 2020.
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Jorge Prata, Professor, nascido em Lisboa, no ano de 1961.
Medievalista por paixão e formação, a prática fotográfica foi-se entretecendo com o trabalho de historiador, em função de uma demanda das modalidades de apreensão, e de apresentação, do que, quanto a nós, constitui uma das problemáticas centrais daqueles dois modos-de-conhecer: a temporalidade. Temporalidade que, na fotografia, se dá em-profundidade, e não narrativamente, e no seio da qual o real se revela, em vez de ser re-presentado: entre o tempo da narrativa – histórica – e o tempo da estratigrafia – arqueológica.
No preciso instante em que, por um qualquer acaso, nos confrontamos com um gesto, habitarmos esse tempo-sem-tempo que é o instante e, do seio desse habitar, desvelarmos o que, no gesto que nos convoca, existe, simultaneamente, de particular e de genérico. Gesto que está na-fotografia, não no seu exterior, num exterior para o qual remeteria e que lhe conferiria significação.
Irmanando-nos com Goethe, num desejo de relativização do subjetivismo que hoje se nos quer impor, afirmamos: “Faço dieta rigorosa e mantenho-me calmo, para que os objectos não encontrem uma alma arrebatada, mas arrebatem a alma.”
Jorge Prata participou em Exposições Coletivas: Encontros Fotográficos, Ericeira (2018), em 2019: Fotografia no Jardim, Lisboa; Conexões- Exposição de Fotografia Luso-Francesa, Alcobaça; 19 Olhares sobre o Concelho, Alcobaça; Um Olhar sobre D. Pedro e D. Inês, Alcobaça e Benedita; Concelho de Caldas da Rainha. Pelo Olhar de 14 Fotógrafos, Caldas da Rainha,
Expôs individualmente: Retrato, Alcobaça; Mosteiro de Alcobaça: Espaço; Memória; História, Benedita (2019).
Colaborou com fotografia nos livros de Fernando Paula Barroso, Pó e Sonhos, 2019 e de António Maduro, Requinte e Paladar. Gastronomia Monástica Alcobacense 2019.
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Cortesia do Autor.
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