PARALLEL REVIEW LISBOA 2019 – 2
Exposição na Rua do Centro Cultural, n.º 11, Alvalade, Lisboa, de 21 de novembro a 14 de dezembro de 2019.
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PARALLEL Review Lisboa apresenta 7 exposições da autoria de 7 novos curadores e 16 artistas emergentes, em Lisboa, na Rua do Centro Cultural, n.º 11, de 21 de novembro a 14 de dezembro de 2019.
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Estas exposições foram produzidas no âmbito do segundo ciclo da PARALLEL- European Photo Platform, a qual é liderada pela portuguesa associação cultural Procur.arte. O director artístico desta 2ª edição é Nuno Ricou Salgado.
Estas exposições foram já apresentadas em vários países europeus, nos quais foram produzidas, sendo agora apresentadas em conjunto, em Portugal, em versão reduzida.
Alguns autores foram selecionados por mais de um curador, apresentando o mesmo projeto em diferentes exposições, com montagens nalguns casos semelhantes, noutras distintas. É também interessante perceber as diferentes abordagens dos diferentes curadores aos mesmos projetos, bem como a forma de apresentação: se na exposição cada autor tem o seu espaço relativamente definido (dependendo também da configuração da sala), em termos de apresentação (nomeadamente folha de sala) as abordagens são diferentes.
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Cada exposição teve o seu catálogo, elaborado para a apresentação original, que pode ser visto ou adquirido na exposição. Existe também o Atlas desta 2.ª edição, que apresenta todos os autores.
Nesta publicação, na anterior e na seguinte faço uma visita a esta exposição.
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ANA ZIBELNIK, CIHAD CANER, ELA POLKOWSKA, FEDERICO CIAMEI, JOSÉ ALVES, ROCCO VENEZIA / VALLEY OF THE STRANGE
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Catálogo Valley of the Strange
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VALLEY OF THE STRANGE é o projeto em que Eric Lawton mostra trabalhos de Ana Zibelnik, Cihad Caner, Ela Polkowska, Federico Ciamei, José Alves e Rocco Venezia.
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O curador Eric Lawton escreve:
A arte existe para recuperarmos as sensações da vida; para nos fazer sentir, para tornar a pedra a essência da pedra. A técnica da arte é tornar os objectos «não famitiares», as formas difíceis, aumentar a dificuldade e a capacidade da percepção, porque processo da percepção é, em si próprio, um fim estético.
Viktor Shklovsky, A Arte como Técnica, 1917
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Valley of the Strange traz-nos seis artistas pan-europeus emergentes – José Alves, Cihad Caner, Federico Ciamei, Eta Polkowska, Rocco Venezia e Ana Zibelnik – que utilizam a fotografia para explorar os limites do tempo e a disrupção do vulgar. A exposição reflecte sobre o papel da imagem como viagem entre passado e presente e questiona o modo como a fotografa e o cinema tornam as nossas experiências quotidianas «não-familiares». Os trabalhos situam-se no hiper-real – aproximando-se e focando-se nos nossos medos mais profundos – misturando verdade e ficção, e também em tudo o que está entre ambos.
As pessoas, lugares e coisas desta exposição aparecem-nos como estranhamente familiares, ilustrando o conceito do «não-familiar» do teórico russo Viktor Shklovsky. A partir dos textos de Freud sabre o estranhamento, Shklovsky afirma que quando o familiar é examinado sob um ponto de vista atípico, a nossa percepção amplifica-se. Este conceito serve como lupa para apreciar os trabalhos da exposição. Cenas e cenários comuns, quando ligeiramente manipulados, põem os nossas medos a nu e abrem portas a uma nova compreensão do vulgar. Além disso, a instalação chama a atenção para elementos ignorados do espaço expositivo, como o chão, introduzindo uma disrupção na forma convencional de apreciar arte.
Nostalgia, superstição e efémero coligam-se para criar uma tensão perturbadora. Longe de evitar o desconfortável, estes artistas desfrutam-no, abraçando momentos tão vulgares como alienantes – um globo ocular, vidro partido, um grito assustador. É justamente nestes segundos de incerteza e trepidação que a nossa sensação de estar vivos finalmente desperta.”
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Ana Zibelnik, We are The Ones Turning
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Ana Zibelnik amplifica subtis encontros Visuais com a morte na sua série We are The Ones Turning. Construído com Imagens em preto e branco e um flipbook mecânico, o trabalho aborda um tema recorrente e, no entanto, ainda desconhecido: a mortalidade. O movimento constante do flipbook enche o auditório esvaziado de fotos, servindo como um lembrete rítmico da sua natureza transitória. Em linguagem gestual americana, os gestos da mão referem-se à morte, ou ao movimento físico do falecimento. Em última análise, o trabalho questiona o que significa estar a ficar sem tempo.
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Ana Zibelnik (n. 1995, Eslovénia) trabalha vive na Holanda, Em 2018, graduou-se summa cum laude na Academia de Belas Artes e Design de Liubliana e está a fazer um mestrado em filme e teoria da fotografia na Universidade de Leiden. Tem criado, publicado e exibido o seu trabalho de forma independente e sob a égide do projecto If Slovenia Were. Toda a obra fotográfica de Zibelnik foca o tema da consciência e é marcada por uma forte presença da literatura, que incorpora na sua prática. Em 2019, ganhou o prémio Verzasca Nera com a sua série We Are The Ones Turning.
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Cihad Caner, Demonst(e)rating the untamable monster
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Cihad Caner apresenta-nos num trabalho em vídeo num ecrã duplo, com dois monstros gerados por computador a conversar sobre um papel de cada um deles. No seu trabalho Demonst(e)rating the untamable monster, Caner mostra-nos a percepção dos monstros acerca da ascensão da xenofobia e dos seus traumas. Pedindo apenas a nossa presença enquanto testemunhas, as palavras dos monstros são cantos que questionam quem exerce o poder da representação. Para eles, a conscienciatização é o caminho mais seguro para a aceitação e salvação final.”
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Cihad Caner (n. 1990, Turquia) vive e trabalha em Roterdão e Istambul trabalhando principalmente com fotografia, video, CGI e escultura. Em 2016 terminou um mestrado em Design de Media e Comunicação no Instituto Piet Zwart, Roterdão.
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Ela Polkowska, Firmly Pinch The Skin Together
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Ela Polkowska percorre a confusa natureza táctil da experiência humana através das lentes da tensão e da pressão na sua série Firmly Pinch The Skin Together. As imagens mostram momentos diários de desconforto que manifestam sentimentos de ansiedade e compaixão. Amigos, família e outros objectos inundam o plano. Fazendo zoom, e sem ter por onde fugir, a carne torna-se um artefacto da personagem e uma superfície na qual o observador projecta as suas impressões. No final, tudo o que resta é a pele – testemunha de tudo o vimos e sofremos.”
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Ela Polkowska (n. 1977, Polónia) tem um mestrado em História de Arte da Universidade Jaguelónica de Cracóvia, Polónia, e está a estudar no Instituto de Fotografia Criativa, Universidade da Silésia, Opava, República Checa. Interessa-se por documentar pessoas, lugares e objectos à margem da vida quotidiana, bem como temas relegados da memória colectiva dominante ou ocultados da consciência. Actualmente, vive e trabalha em Varsóvia, Polónia.
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Federico Ciamei, How Can You Live In The Present When You Are 3000 Years Old?
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Federico Ciamei questiona o surgimento do nacionalismo e da identidade na cultura italiana alterando imagens na sua série How Can Yau Live In The Present When You Are 3000 Years Old?
A partir de postais de arquivo e paisagens ficcionais, Ciamel transforma os postais com inúmeras sessões de digitalização para finalmente os refotografar e imprimir em grande escala. Expressamente para esta exposição, imprimiu uma imagem em formato de poster para o público poder levar. Alterando as proporções, mas mantendo o carácter consumível do trabaho, Ciamel dilui as fronteiras entre uma fictícia imagem canónica de Itálica e a sua superficie pixelizada.”
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Federico Ciamei (n. 1974, Itália) centra-se na exploração dos desejos e sonhos das pessoas: o que as leva a ir para além dos hábitos e necessidades básicas? Actualmente vive em Milão onde trabalha para projectos editoriais, contratados ou da sua iniciativa, e colabora com publicações internacionais como NY Times, Wallpaper*, Le monde, e outras independentes.
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José Alves, From Salt and Ash
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José Alves pesquisa a mitologia da Finisterra, noroeste de Espanha, com a série From Salt and Ash. Reproduz em papel salgado fotos de pescadores que se afagaram na fatídica Costa da Morte. Utilizando métodos fotográficos alternativos, a superfície de impressão é exposta à mesma água que os matou, o mesmo sal dá vida à imagem, ressuscitando os pescadores. A sua presença, agora tangíve[, expõe os fios soltos que existem entre a verdade e a ficção.”
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José Alves (n. 1989, Portugal) é um artista emergente [que] se especializou em projectos fotográficos documentais e pessoais de longo prazo, privilegiando os temas do território e identidade, colectiva e individual. Já exibiu a solo e em colectivas em Portugal e no estrangeiro. Tem um mestrado em Ciências Humanas e um curso de fotografia de arte e documental. Actualmente vive em Braga, Portugal.
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Rocco Venezia, Is Life Unden The Sun Not Just A Dream
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Rocco Venezia caminha pelas margens do sul da Europa com a sua série Is Life Under The Sun Not Just A Dream. O seu trabalho explora a disrupção da vida quotidiana, marcada pelo sol mediterrânico e pela crise económica. Vemos emergir cenas perturbantes, onde o tempo parou e onde, com a sua progressão, tudo se perdeu. No fluir constante, cada objecto, cada lugar, cada factura, adquirem uma vida própria.”
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Rocco Venezia (n. 1991, Itália) explora a mitologia, a literatura e a situação política e económica da Europa como fontes para os seus projectos. Tem um curso de Fotografia Documental da Universidade de South Wales, Newport. O seu livro mais recente, Nekyia, foi publicado em 1917 (sic) por Witty Kiwi. A monografia faz parte da colecção da Art Library do Victoria & Albert Museum, Londres, bem como da Colección Folio no Centro de la Imagen, Cidade do México. Além do seu trabalho como fotógrafo, Rocco é curador e produtor para o PHmuseurn, e co-fundador do Photo Meliggoi, uma residência de fotografia na Grécia.
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Eric Lawton (n. 1992, Estados Unidos) é um artista e curador de Brooklyn que trabalha principalmente com fotografia e escultura. Formou-se na Tisch School of the Arts e já exibiu por toda a Europa e Estados Unidos. Em 2017, colaborou na curadoria de Discursive Selves, um projecto dedicado ao auto-retrato contemporâneo exibido na Galeria Westbeth, Nova lorque, e que contou com a participação de artistas como Paul Sepuya, Farah Al Qasimi e Pixy Liao. Recentemente, o seu trabalho fez parte da Haphazard Paradigm, com curadoria de Wardell Milan, na Re: Art Show, Brooklyn, United States.
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ANA ZIBELNIK, FÁBIO CUNHA, MARIE LUKASIEWICZ / URGENT ARTS OF LIVING
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Catálogo Urgent Arts of Living
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Cale Garrido apresenta Ana Zibelnik, Fábio Cunha e Marie Lukasiewicz na exposição URGENT ARTS OF LIVING.
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Para Cale Garrido:
A realidade está sobrerrepresentada e, ainda assim, por vezes escapa-nos. Desde os primeiros avisos sobre o aquecimento global nos anos 70, as suas causas e perigos foram-nos transmitidos sobretudo através de factos e números. Apesar da sua presença evidente, o conceito permanece intangível e em muitos países ocidentais ainda não é entendido. Além da emergência ecológica, o fenómeno aplica-se a outras questões complexas, como a desigualdade social, por exemplo: ou nos afecta directamente ou tendemos a ignorá-la. Sentimo-nos imunes, ficámos viciados no nosso modo de vida demasiado comadistas para desistir dos nossos privilégios e defender o planeta. Será que estamos a chegar a um ponto de não-retorno? Como comunicar esta urgência? Como podemos, na nossa sociedade, ajudar a encontrar uma resposta unânime e infalível?
O ser humano pensa em símbolos. A arte pode favorecer um comportamento de mudança e compromisso porque nos afecta a um nível visceral, mais humano, e de uma forma que os factos e números não conseguem. Esta exposição, que exibe os trabalhos de Marie Lukasiewicz, Fábio Cunha e Ana Zibelnik reivindica metáforas como figuras legitimas da nossa linguagem fotográfica e com capacidade para alterar concepções arreigadas.
Precisamos de imagens que nos afectem criticamente, que nos façam questionar a realidade, que nos Incitem à acção. Urgent Arts of Living pretende criar um espaço onde artistas e público possam debater construtivamente, de forma crítica e criativa, a crise ecológica e social que hoje nos rodeia. As fotografias deste projecto representam uma forma de narrativa emergente onde as imagens «não são uma representação objectiva da realidade, mas pequenas questões.» * Abrem caminho a novas formas de experimentar e perceber a nosso papel na natureza e a nossa relação com os recursos sociais e naturais, Talvez ainda seja possível descobrirmos uma vida melhor.
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*Max Pincers, citado por Matthew Pansford, Max Pinckers tracks the Margins Excess between truth and fiction, in British Journal of Photography, July 2018, p. 67.”
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Fábio Cunha, We Still Kitl Pigs with Our Hands
Fábio Cunha, To Walk a Mountain
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Para pesquisar os novos hábitos de vida, Fábio Cunha regressou à zona rural onde cresceu, no norte de Portugal. A sua série mostra-nos um modo de vida já abandonado por muitas sociedades, marcado por uma ligação directa das pessoas à natureza e aos seus ritmos. O significado do trabalho fotográfico emerge quando o acontecimento principal – a matança do porco – passa para segundo plano, e a ênfase é dada a ideias sobre o toque, proximidade, força e colectivismo.
Numa era de produção massiva e de elevados níveis de consumo, a modo como estas pessoas utilizam as suas mãos é mostrado com um acto de resistência a um mundo que anseia permanentemente pe{o novo e pelo fácil. We Still Kitl Pigs with Our Hands é um retrato amargo e doce de uma tradição familiar, fotografada não como um processo físico, mas como um acto simbólico. E um diagnóstico pessoal que levanta interrogações: hipnotizados pelas novas tecnologias, o que estamos a perder? Que acções ainda somos capazes de levar a cabo colectivamente?
To Walk a Mountain, a sua intervenção performativa em espaço público explora a mesma ideia. A estrutura de 4,5 x 2,30 m, está colocada sobre rodas e aguarda o movimento. É a expressão poética de que uma pessoa pode mover montanhas.
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Fábio Cunha, nascido em 1985, é um artista visual português de Lisboa. Com experiência em arquitectura, desenvolve uma prática em fotografia e instalação, subvertendo objectos, imagens e acontecimentos. É professor na Escola de Tecnologias Inovação e Criação e no Atelier de Lisboa.
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Marie Lukasiewicz, Beyond Coral White
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Os corais são descritos na história com talismãs contra o mal, cobiçados artigos de colecção, objectos pintados na arte, criaturas com poderes curativos. Filósofos, naturalistas e escritores alimentaram a nossa imaginação com estes seres misteriosos. No mundo ficcional e real, a sua diversidade de formas e texturas e as suas cores cativantes, fascinaram-nos ao longo de séculos. De facto, tiveram um passado glorioso, mas o seu presente é precário. Mais de 40% dos corais de todo o mundo foram destruídos nos últimos trinta anos pela poluição, aquecimento dos oceanos e métodos piscatórios invasivos. Como podem coexistir tamanha beleza e tamanho abuso?
Na série Beyond Coral White, este ser marinho exemplifica a atitude paradoxal do homem face ao mundo natural. Inspirada numa gravura do séc. XVII de Philips Galle, representando a pilhagem do leito do mar, Marie Lukasiewicz desenvolveu uma Investigação visual em vários níveis sobre o processo de branqueamento e destruição do coral e aproveitamento das suas propriedades pela indústria para-farmacêutica. Combinando narrativa documental e ficcional, questiona os nossos hábitos de consumo, destrutivos e persistentes. 0 seu trabalho sussurra: nós somos a natureza a destruir-se a si própria.”
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Marie Lukasiewicz, nascida em 1982, é uma artista francesa de Paris. A sua prática artística concentra-se em temas ambientais e na poluição. Interessada na ecologia, aprofunda o seu trabalho recorrendo à investigação científica, mas testando também as fronteiras entre realidade e ficção, e recorrendo ao humor e o absurdo, que têm um papel importante no seu trabalho.
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Ana Zibelnik, We Are the Ones Turning
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Um simples sinal em movimento simbolizando a instante em que a vida acaba. Ausente durante a vida e, no entanto, parte integral de existência.
Um líquen é a metáfora do mundo natural: precisa de ar puro para existir e pode continuar vivo depois de morrermos.
Ana Zibelnik explora a temporalidade, a efemeridade e a percepção do tempo como fenómenos que inevitavelmente condicionam a nossa existência. Na sua evocativa série de fotografias, foca-se naquilo que significa ficar sem tempo e questiona se a inevitabilidade da morte poderá ajudar-nos a repensar o nosso papel na natureza. We Are the Ones Turning é um convite subtil para começarmos a observar e perceber as vidas humanas, e mais do que humanas, e a paisagem.”
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Ana Zibelnik, nascida em 1995, é uma fotógrafa eslovena que vive e trabalha na Holanda. Actualmente está a tirar o mestrado em Teoria Fotográfica na Universidade de Leiden. Interessa-se por literatura e filosofia, que inspiram e guiam os seus trabalhos fotográficos.
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Fotografias da exposição de António Bracons.
Pode ver as restantes exposições do Parallel Review Lisboa 2019, aqui e aqui.
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