PAULO CATRICA, RÊVERIE & DESCRIPTION. O DESVIO QUE FEZ A CURVA DO RIO, 2019
Exposição na Galeria do Parque, em Vila Nova da Barquinha, de 25 de outubro de 2019 a 12 de janeiro de 2020.
.
.
.
Paulo Catrica
Rêverie & Description. O desvio que fez a curva do rio
Fotografia: Paulo Catrica / Texto: João Pinharanda
Edição do Autor / Novembro . 2019
Português / 23,5 x 27,0 cm / 32 págs.
Brochura
ISBN: 9789899903661
.
.

.
.
No âmbito de uma residência artística em Vila Nova da Barquinha, parceria da Câmara Municipal com a Fundação EDP para a programação artística do Parque de Escultura Contemporânea Almourol, Paulo Catrica foi às origens da vila:
Preocupado com a erosão provocada pelo areamento e a destruição das lezírias o Infante D. Luís, proprietário das lezírias da Barroca, convenceu o irmão, o rei D. João III, a alterar o curso do rio Tejo. Em meados do séc. XVI, o alvéolo do rio foi desviado do seu curso em cerca de dez quilómetros entre a Lagoa Fedorenta, no Arrepiado, em frente a Tancos e a Chamusca.
A nova curva do rio fez nascer a vila da Barquinha e permitiu que a Quinta da Cardiga ficasse na beira do rio. O Tejo velho contornava os montes do Arrepiado, da Carregueira e só nas proximidades da Chamusca seguia o curso que hoje mantém.”
Vide J.J. Alves Dias, Uma grande obra de engenharia em meados de quinhentos — a mudança do curso do rio Tejo, Lisboa, Presença 1987
.

António Bracons, “Paulo Catrica, Mapa do séc. XVIII, Ordem de Cristo e Convento de Tomar, mç. 30 Arquivo Nacional Torre do Tombo”, 2019
.
Catrica regista os campos em volta do Tejo e a vila da Barquinha e estende o seu olhar ao longo do rio, por Tancos, Golegã – a Casa Estúdio Carlos Relvas –, os campos do Carril (Torres Novas) e Chamusca: a vila e a Ponte João Joaquim Isidro dos Reis, sobre o Tejo, para norte e para sul, atestando a continuidade, a vida e a importância do Tejo. Como base, um “Mapa do séc. XVIII, Ordem de Cristo e Convento de Tomar, mç. 30 Arquivo Nacional Torre do Tombo” e “Reprodução parcial da Carta Militar de Portugal Golegã-Tancos Serviços Cartográficos do Exército, Escala 1:25.OOO (1934)”.
.
João Pinharanda, comissário da exposição, escreve o texto do livro, “Rêverie / Flânerie”:
Paulo Catrica coloca-nos, nesta série, perante imagens de uma realidade urbana e de uma realidade rural obtidas na sequência de uma residência de trabalho em Vila Nova da Barquinha. Mais correctamente, estas imagens cruzam, no espaço e no tempo, imagens urbanas e imagens rurais. Urbano, aqui, é, talvez, um abuso de linguagem – porque estamos muito longe dos registos de construção de uma cidade ou mesmo de um subúrbio, de um arredor de cidade. Bastará talvez dizer que estamos perante fotografias de uma “paisagem construída”: elementos urbanos (casas, carros, postes, pontes, estradas) erguem-se e dispõem-se num espaço que percebemos “arrancado” a uma recente ruralidade, constituindo-se como testemunhos, por vezes soltos, por vezes incoerentemente agregados, do que genericamente se designa como civilização urbana. Os campos lavrados ou baldios, as largas margens e extensões fluviais serão, por oposição, os espaços de uma frágil “paisagem rural”, os espaços de uma realidade falsamente esvaziada que esperam ser ocupados, construídos. Procura-se uma incompatibilidade (social, política, poética) entre as duas realidades e, afinal, elas existem em conexão e interpenetraçäo – ambas à espera de ser capturadas para a / construídas pela imagem fotográfica.
Estas fotografias são, portanto, registos de paisagem, são “fotografia de paisagem”. A longa história da paisagem, que na arte ocidental se afirma do séc. XIV em diante, é pictórica antes de ser fotográfica e é simbólica antes de poder ser realista. Procura-se primeiro representar o longínquo para enquadrar o próximo, criar o cenário de acções ou de personagens (retratos) que se lhe sobrepõem, antes de se poderem integrar tais cenas e tais personagens como elementos da paisagem, antes ainda de se vir a assumir a paisagem “em si”, de ser, ela mesma, cena e personagem principal.
Aparentemente, Paulo Catrica aborda esse tipo de paisagem integrando os desvios que a modernidade infligiu ao género: nem Bela, nem apaziguadora; nem Sublime, nem aterrorizadora. À partida, estas imagens, aceitam a banalidade, dispensam toda a beleza, toda a grandiosidade, toda a força simbólica. São lugares, registados segundo protocolos propositadamente não-retóricos, que se sucedem sem sobressaltos nem rupturas internas. A verdade é que não se exibem também como testemunhos de nenhum realismo, de nenhuma objectividade, dispensando também essa linhagem de interpretação.
Um dos elementos da horizontalidade discursiva que resulta desta atitude artística é dado pelo tipo de motivos escolhidos: em geral nem longínquos, como os de uma paisagem mítica ou genésica, nem excessivamente próximos; incapazes, portanto, de criar situações expressivas ou sentimentais. Ou, então, o longe dissolve-se em bruma, penumbras e desfocagens, indistinção ou desvalorização dos elementos figurados; e o perto interpõe-nos a materialidade de texturas pobres, confusas redes de sombra, desfocagens também, geometrias que propositadamente contrariam os restantes elementos da imagem. Em geral os motivos são portanto, anódinos (construções sem história, vistas sem fôlego, elementos desgarrados como os velhos carros estacionados, mobiliário urbano de pouca qualidade,…), ou negam, aos elementos destacados da paisagem, a grandiosidade que facilmente lhes poderia ser acordada (as fachadas das igreja e dos palacetes, por exemplo, são tomados de ângulos laterais e diagonais). Para além destes claros sinais de denegação simbólica e poética, o facto da totalidade das imagens surgir deserta de figurantes (humanos ou não humanos) aprofunda a leitura deceptiva, quase sonâmbula, dos espaços que Interessam o artista. Através desta solução somos, afinal simbolicamente, alertados para a realidade da desertificação da região (do país), seu empobrecimento, desagregação e desajustamento global dos diferentes componentes sócio-históricos da paisagem. Mas também para o peso de tempo histórico que algumas imagens dos campos e seus trabalhos arrastam – quase se sobrepondo (no que nelas vemos e no modo como são compostas) a certos exemplos das primeiras décadas da fotografia.
Sem colocarem em causa esta Interpretação crítica da realidade há, porém, imagens com uma dimensão retórica, uma respiração mais ampla e um tom menos negativo. Talvez que, olhando através destas poucas fotos tenhamos que rever o que atrás dissemos podendo encontrar, então, mesmo na humildade e retracção da maioria das imagens, o segredo de uma vida capaz de harmonizar positivamente todas as dimensões da realidade. Algumas destas outras paisagens existem enquanto expressão de uma construção narrativa que podemos ancorar numa dimensão poética e não deceptiva. São, fundamentalmente, as fotos a cores mas, mais especificamente, todas as fotos a p/ b e a cores de certos aspectos do rio que [n]os revelam isto. Como se o rio se assumisse como personagem forte da série, recortando-se sobre um fundo de imagens fracas que, por a ele se referirem (como eixo de orientação geográfica em torno do qual gravitam), encontram um significado maior.
(…)
O título (“O desvio que fez a curva do rio”) descreve a região como tendo nascido, há cinco séculos, do desvio do Tejo para irrigar as terras do filho do Rei D. Manuel I, tem a ver com a concretização voluntariosa de um desejo áulico e autocrático. “Rêverie” complementa o título e tem, principalmente, a ver com o desejo, a necessidade e a possibilidade de sonhar afirmada pelo fotógrafo quando hoje percorre e nos conduz à inevitabilidade de uma paisagem carregada de história(s) que se encontra, ela mesma, entre o sono e o sonho. Podemos perguntar-nos em que medida se pode exercer, num contexto como o descrito / construído por estas imagens e por esta vontade de «sonhar acordado”* a flânerie, exercício de essencial atenção e intencionalidade urbanas. Mas a verdade é que será o uso deste conceito baudelaireano nos pode ajudar a recuperar para uma dimensão nova a totalidade das imagens desta série, não as deixando amarradas a um limbo de significados mas integrando-as numa verdadeira rêverie melancólica. Essa nova dimensão nascerá se formos capazes de nos imaginar no lugar (no olhar) do fotógrafo, passeante solitário que, no interior de uma fantasmagoria decadente de ruas, quintais, casas, largos, fachadas, e de campos desertos de acção e aparentemente ao abandono, se empenha num “movimento contrário à ideia de descrever mas que, deixando-se “levar pelo rio e pelas margens consegue ver, situar, parar…” ou seja, se empenha e nos oferece os elementos de uma tarefa de crítica e criativa.
Este conjunto de fotografias nasceu e está suspenso das consequências de um passado que continuadamente assombra o presente e o futuro destes lugares. Que melhor linguagem que a da fotografia para perceber e revelar estes estreitos caminhos de deriva entre o sonho e a vida, entre a vida e a morte?
.
Paris, 29 de Setembro de 2019
*palavras do artista em conversa com o autor”
.
.
Paulo Catrica, Rêverie & Description. O desvio que fez a curva do rio, 2019
.
.
Este livro foi editado por ocasião da exposição no Parque de Escultura Contemporânea Almourol, na Galeria do Parque, Praça da República, em Vila Nova da Barquinha, de 25 de outubro de 2019 a 12 de janeiro de 2020.
.

.
O livro é um registo da série, distinto da exposição: há imagens que se encontram apenas num ou noutra. O miolo do livro contém as imagens, os textos, a identificação das imagens e o colofon encontram-se interiormente: nas badanas e no verso da contracapa.
.
.
António Bracons, Aspetos da exposição, 2019
.
.
.
Pingback: AGENDA . EXPOSIÇÕES . OUTUBRO – DEZEMBRO . 2019 | FASCÍNIO DA FOTOGRAFIA
Pingback: AGENDA . EXPOSIÇÕES . JANEIRO – MARÇO . 2020 | FASCÍNIO DA FOTOGRAFIA