LEONEL DE CASTRO, MINHOTOS DE PELE SALGADA, 2018

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Leonel de Castro

Minhotos de Pele Salgada. Minho People of Salted Skin

Fotografia e texto: Leonel de Castro

Estação Imagem / Abril . 2018

Português, Inglês / 16,8 x 22,8 cm / 80 págs.

Cartonado

ISBN: 9789899733893

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Folheio o livro, no seu formato intimista e pessoal. São as pessoas que dominam as imagens, seja no mar ou em casa, na sua vida quotidiana de pescadores, de membros de uma família, de uma comunidade, com os seus valores, afetos, paixões, cansaços e alegrias. No barco, em casa, na igreja, no café, a vivência quotidiana dos  homens do mar.

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“Minhotos de Pele Salgada” é o projeto vencedor da Bolsa Estação Imagem 2017 Viana do Castelo.

Na candidatura à Bolsa, em Abril de 2017, Leonel de Castro escrevia o texto que antevia o projeto e lhe valeu o prémio:

 

Do Minho se fez Portugal, abrindo braços não só para terra, mas também para o mar. E de mareantes se fez grande este país, e esta terra que se fez minhota, quando ainda o não era. O que permanece? A terra e o mar ali continuam, nesse abraço que vem de antanho, aqui mais apertado, ali mais lasso, nunca perdido.

E o que sobra do lado do mar? É esse o fresco que propomos, a viagem em fotografia por essa linha de costa por onde, descendo do rio que nos separa de Espanha mas também nos junta à Galiza, foram ganhando forma este país e este modo de viver.

Extinção de frotas, abate de barcos, venda de quotas de pesca, estaleiros navais morrendo de falta de encomendas… A pertença à União Europeia confunde-se com o esmagamento das gentes do mar, ou, num tom mais impessoal, com a perda de um dos pilares da economia nacional. Nenhum outro sector foi tão fustigado pelas regras de Bruxelas como o das pescas.

E, no entanto, é este um país de navegantes, que ao mundo novos mundos deu. Um país de olhos postos no mar e pés mergulhados nas ondas, cuja costa se define assim: 943 quilómetros no território continental, a que se somam 667 no arquipélago dos Açores e, ainda, 250 quilómetros na Madeira, aos quais correspondem 1 683 000 quilómetros quadrados de Zona Económica Exclusiva, ou seja, cerca de 18 vezes a extensão do território nacional. Um país contradito pela política, onde aos maiores bancos de peixe corresponde a agonia das comunidades de pescadores.

De que forma vivem neste tempo as comunidades piscatórias minhotas? E como resiste a construção naval? Como se reinventa, hoje, esse sector tão crucial na afirmação de Viana do Castelo, do Minho, de Portugal? Que pessoas são essas que, embarcadas ou em terra, traçam no turbulento Atlântico os sulcos das suas vidas? Como vivem ou sobrevivem, como festejam, como choram? Que mudanças lhes impõe o tempo, a que tradições se agarram, o que há naquele linha de horizonte que lhes pauta os sonhos? Que Minho é esse, afinal, que se fez ao mar e do mar se fez?

Extenso o retrato, percebe-se, mas extremamente motivador. Faz todo o sentido, hoje, tentar perceber em que estado se encontra essa relação. Saber que gente é essa, pescadores, mareantes, construtores navais.

Ao longo de um ano, proponho-me acompanhar esses homens e essas mulheres, fotografando-os no quotidiano do trabalho, da família, das manifestações culturais, da religiosidade… Faz todo o sentido, hoje, resgatar e honrar essas pessoas que persistem, obstinadas e resistindo a regras que não sufragaram, na forma de viver em que tantas gerações nasceram e cresceram. E a fotografia é um meio essencial para o fazer.

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Desenvolvendo o projeto, o Autor regista, em Março de 2018, quando foi apresentada a exposição e o livro:

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Mar minhoto. À região onde Portugal nasceu e de onde se expandiu para sul até onde a terra acaba, sempre com o Atlântico como vizinho, associamos mais o chão verdejante do que o mar alteroso, mas há muito que me intrigava a natureza das comunidades piscatórias da região. O que fazem, como vivem, o que sentem, o que as torna únicas num país cuja dimensão marítima é imensa e onde se pesca de Caminha a Vila Real de Santo António, nos Açores, na Madeira, até nos rios. Que parcela do “Mar Português” é esta? Como é a relação destas pessoas com o mar, feita de um permanente e repetitivo ir e voltar, sob a constante ameaça de por lá ficar, diferente do que faziam os navegantes que partiam rumo ao desconhecido? A conclusão não me surpreendeu. O que há de único no mar minhoto são, sobretudo, as pessoas, como sucederia em qualquer outro local do mundo. E é em torno delas que, sobretudo, se desenvolve este trabalho, esta narrativa, esta recolha documental, também, em que trabalhei ao longo dos últimos meses.

Desta selecção de fotografias sobressai o factor humano, presente até em tudo o que é testemunho material. Os barcos, por exemplo, não só pela forma como são construídos, que também testemunhei, em Darque, mas, por exemplo, pelo que levam de humano, de místico e temeroso nos nomes com que os baptizam, de um modo geral semelhantes aos que encontramos em tantas outras comunidades de pescadores e mareantes. Esta viagem também decorre em terra, mas é feita, sobretudo, a bordo do Deus Quer, do Rumo ao Destino, do Virgem de Fátima, do Esperança, do Invejado, do Mar e Rio, do Noé ou do Calvário da Vida, testemunhos do respeito que esta gente tem pelo mar, ao fim e ao cabo o fio condutor das vidas que levam, mas também da forma como se entregam à providência, seja em súplica ou em agradecimento. Muito do que se encontra no convívio com estas comunidades, e que forçosamente ocupa lugar destacado na narrativa que as imagens constroem, ou ajudam a construir, está, justamente, ligado à religiosidade exacerbada por vidas de constante incerteza, tanto em festas e romarias – registo duas das maiores, a da Senhora da Agonia e a da Senhora da Ínsua – como na iconografia que encontramos a bordo, sendo possível o convívio, numa mesma parede, entre representações da Virgem Maria e, por exemplo, a fotografia do Dr. Sousa Martins, figura destacada de um misticismo popular não sufragado pelas autoridades eclesiásticas.

Mas é também nos próprios homens e mulheres que vemos essa presença incontornável da transcendência, seja nos gestos, nas falas ou na forma como decoram o próprio corpo, das toscas marcas feitas a bordo, tinta injectada em pele curtida, às modernas e perfeitas tatuagens que Bruno, pescador, músico e um de tantos companheiros desta aventura nos mostra: Bruno vive apenas com o seu bulldog, o Borat, mas tem a permanente companhia dos pais, estampados em perfeição no braço direito, e da mãe de Cristo, tatuada nas costas em versão humanizada, bem distinta da palidez irreal que encontramos nas costumeiras representações, pictóricas ou escultóricas, da Virgem. Bruno é, como o disse, um entre tantos companheiros desta aventura, cujos nomes são demasiados para enumerar. Lembro apenas o Hugo, que aproveita os tempos em que o Rumo ao Destino está atracado para procurar nas águas do rio Lima o sustento sazonal que vão dando as lampreias, honro ainda os mestres que me acolheram de coração aberto, como o Alfredo ou o Vítor, filho do Alfredo que cresceu a bordo e virou de bordo para ter o seu próprio rumo, como o Marco ou, ainda a Maria José e o Henrique, unidos por matrimónio tanto em terra como no mar. Deles e com eles se fez o meu trabalho.

É um trabalho, não será de mais repeti-lo, feito de gente de uma ponta a outra, mesmo que as pessoas não apareçam. Tudo é gente. Se um barco de regresso atrai gaivotas é porque homens o encheram de peixe, se as próprias artes da pesca – a cordoalha, as redes, os covos, os anzóis enfileirados em linhas – são fotogénicas, tal devem a quem as criou, fabricou, manuseia. O que aqui temos é a crónica dessa gente, a memória viva e apelativa de pessoas que se sacrificam por um negócio em que o grande lucro cabe a outros, mas que não sabem viver de outro modo que não este, galgando a rebentação para colocar redes e armadilhas. São estes os heróis do Mar Minhoto, não os que partem meses para a pesca longínqua, mas os que, em barcos modestos e parcamente tripulados, não se afastam da costa mais que duas ou três milhas. Tanto pode o mar ser cão nos Grandes Bancos da Terra Nova como ao largo de Viana, de Caminha, de Âncora ou da foz do Neiva. Sempre será temido e amado pelos que nele e com ele se fazem.

Este é, pois, o retrato humanizado de uma parcela atlântica que nos dá robalos, congros, badejos, fanecas, gorazes, negrões, sapateiras, navalheiras, lavagantes, polvos. Vê-los no prato, lembrando os homens e as mulheres que o tornam possível, muda tudo. O sabor das iguarias é acentuado por um tempero que não se compra: o respeito.”

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Leonel de Castro, Minhotos de Pele Salgada. Minho People of Salted Skin, 2018

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“Minhotos de Pele Salgada”, de Leonel de Castro, é uma exposição itinerante da Estação Imagem. Inaugurou em Coimbra e foi já exposto em vários locais.

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Pode ver no Fascínio da Fotografia a série “Almas”,  vencedora do Prémio reportagem Estação Imagem Coimbra 2019, aqui.

Pode conhecer melhor a obra de Leonel de Castro aqui.

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