ALBERTO PICCO, CROSSING BOUNDARIES

Exposição na Lapso Galeria, na Rua Arronches Junqueiro,126, em Setúbal, de 14 de setembro a 26 de outubro de 2019.

.

.

.

Este slideshow necessita de JavaScript.

© Alberto Picco, Crossing Boundaries, 2018-19

.

.

Sobre Crossing Boundaries, escreve o Autor:

Este projecto agora exposto, teve o seu início em fins de novembro do ano passado, quando a Cláudia Freitas responsável pela galeria Lapso, em Setúbal, me fez o convite para expor nos seus novos espaços. Decidimos que seria um trabalho inédito e que teria um livro a acompanhar a exposição e que a poderia complementar.

O tema seria Setúbal, claro. Tendo em atenção o meu campo de pesquisa, e também pelo facto que era um território inexplorado na região, decidiu-se que me debruçaria sobre a cidade e o seu tecido industrial, interpretando o seu passado e as suas transformações na urbe actual.

Entre pesquisas, apontamentos visuais e leituras de temas inerentes à transformação de cidades industriais em modernas urbes criativas, se passaram nove meses. Nesse hiato de tempo, tive oportunidade de pensar profundamente nos modos em que iria apresentar este projecto.

Dei-me conta que Setúbal, sendo uma antiga cidade industrial convive desde sempre com as indústrias que se instalaram no seu seio.

Esta cidade tem uma característica, o grosso da sua indústria pesada e que ainda subsiste, encontra-se na chamada Península da Mitrena, que fica à nascente da cidade.

Este facto chamou-me a atenção, e decidi concentrar o esforço maior das minhas deslocações a esse território. As obras que compõem a exposição são evidência disso. Não esquecendo porém, que a poente da cidade e já fora dela, encontra-se uma outra indústria pesada, a dos cimentos, que com as suas pedreiras, fábricas e transporte por via marítima dão um perfil inconfundível a Setúbal.

Na cidade propriamente dita, na sua malha urbana e habitacional, dessas indústrias, pouco foi ficando. Não podendo esquecer que Setúbal foi, desde os fins do século XIX, uma das principais cidades com produção de conservas de peixe do país. Chegando a ter nos princípios de século XX e até os anos 60 do século passado mais de 400 fábricas, com todas as indústrias complementares, como sejam as latoarias e as litografias. De toda esta realidade subsistem hoje em dia vestígios, ruínas, armazéns abandonados e que de alguns subsistem, tão só as paredes e algumas vigas dos telhados. O livro que acompanha a exposição reflete sobre uma visão disso mesmo.

Todo este emaranhado visual levou-me a querer ultrapassar estas realidades assim, e mergulhando no imaginário que venho construindo desde há mais de uma década, decidi desenvolver este projecto cruzando limites (Crossing Boundaries), desde o conceito da própria fotografia como referente do real, da sua representação e apresentação, jogando com as suas técnicas, equipamentos e tecnologias, passando pelas noções de espaço e tempo, da viagem e de cidades invisíveis, de memórias que dão origem a vislumbrar outras dimensões destes territórios.

.

Alberto Picco mostra 8 fotografias de complexos industriais de Setúbal: Mitrena, Navigator, Terminal Secil, Pedra Furada, Ruína Conserveira e o Terminal Somincor, identificando cada imagem com as correspondentes coordenadas GPS e o local, bem como o ano (2018 ou 2019).

A exposição é assim um registo atual da indústria de Setúbal, elementos de arqueologia industrial, a par dos grandes complexos, uns mais antigos que outros, ainda em laboração.

Apresenta-se ainda um slideshow da série. Um livro complementa o projeto.

.

CrossingBoundaries©AlbertoPicco_LivroCapa

Alberto Picco, Crossing Boundaries, livro (capa)

.

Sobre a série, Cláudia Freitas, curadora da exposição, regista na folha de sala:

Há quem diga que cada homem traz na mente uma cidade feita só de diferenças, uma cidade sem figuras e sem forma, e são as cidades particulares que as preenchem (Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, 2002). Será que os lugares sem forma que ocupam a nossa memória podem ser preenchidos por imagens, ainda que essas imagens não sejam isentas da interpretação de quem as produziu?

Cada vez mais influenciados por um mundo global, culturalmente diversificado e tecnologicamente avançado, as cidades e os lugares reinventam-se todos os dias, dando lugar a novos lugares, a lugares comuns ou relegando-os ao abandono, condição que apenas a memória de cada um poderá alterar recriando uma identidade própria para cada lugar. Este diálogo entre território, realidade, vestígios e memória tem sido uma temática amplamente trabalhada no domínio da arte contemporânea e muito presente no percurso fotográfico de Alberto Picco.

Movido pelo contínuo interesse em captar a identidade residual e persistente dos lugares comuns, e pelo desafio que lhe foi dirigido para trabalhar fotograficamente a interação da transformação industrial e o quotidiano da cidade de Setúbal, Picco apresenta-nos Crossing Boundaries. Optando por uma linguagem próxima e directa que entre-cruza os processos analógico e digital, os limites da fronteira entre mundo visível e o campo da memória, as imagens de Picco são concebidas para serem lidas e re-interpretadas dando espaço a novos percursos perceptivos.

Em Crossing Boundaries é-nos apresentada uma visão muito autêntica da paisagem industrial de Setúbal. Com imagens extraordinárias do vulgar, do espaço à margem, de edifícios comuns ou do que resta deles, onde a presença humana ausente é subentendida, o autor compõe uma narrativa visual delicada e sensível que nos remete para as poéticas visuais de outras épocas, mas que ao mesmo tempo rompe os limites da percepção consciente da nossa memória, transportando-nos para uma realidade, que nem sempre é visível.

Perceber se a realidade olhada, interpretada e representada por Alberto Picco se encaixa nos lugares sem forma que ocupam as nossas memórias configura o desafio dirigido ao visitante desta exposição.

.

.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Alberto Picco, Crossing Boundaries, Aspetos da exposição, 2019

.

.

Exposição em Setúbal, na Lapso Galeria, na Rua Arronches Junqueiro,126, de 14 de setembro a 26 de outubro de 2019.

.

69754682_423323224976305_1518317883128545280_n

.

.

Alberto Picco nasceu em Buenos Aires em 1950 e vive em Lisboa.

Desde a década de 1990 que o seu trabalho se tem concentrado na investigação sobre o território e a memória, na perspectiva da sua ocupação, uso, transformação e/ou abandono.

É formal na forma de fotografar, o que se revela uma vantagem pois destaca a singularidade com que capta a trivialidade da realidade, imprimindo-lhe a imparcialidade e sentido estético que lhe são característicos.

A vasta obra produzida neste âmbito, confere-lhe uma capacidade discursiva coerente e de referência.

.

.

.

Cortesia do Autor.

.

.

.