FOTOGRAFIA IMPRESSA E PROPAGANDA VISUAL EM PORTUGAL (1934-1974)
Exposição patente na Biblioteca Nacional, em Lisboa, de 20 de maio a 30 de agosto de 2019 e a oportunidade de um Livro Sobre Livros de Fotografia Portugueses.
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Politicamente só existe o que o público sabe que existe.”
Salazar (Inauguração do S.P.N., 26.10.1933)
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A exposição que se apresenta na Biblioteca Nacional, na galeria do auditório, “reconstitui a História do Estado Novo português através da fotografia de propaganda impressa em edições de revistas ilustradas, álbuns fotográficos, cartazes, folhetos ou catálogos de grandes exposições”, resulta de um projeto financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, envolvendo investigadores de várias universidades e instituições e foi comissariada por Filomena Serra e Paula André.
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A exposição divide-se em 4 núcleos: “Representações performativas – exposições e viagens presidenciais”, “Contra-discursos e contra-imagens – narrativas visuais e discursos de oposição à ditadura”, “Retóricas do Corpo – representações fotográficas do corpo” e “Realizações materiais – obras públicas, paisagens e monumentos, arte popular”. É notório na exposição a transversalidade das obras, sendo várias as que se encontram representadas em vários núcleos.
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As obras e as imagens fotográficas apresentadas – em diálogo entre si – são apenas um pequeno conjunto selecionado de um extenso levantamento onde avultam revistas, álbuns fotográficos, foto-livros, catálogos e folhetos, provenientes do espólio do Secretariado Nacional da Informação (SNI) existente na Biblioteca Nacional de Portugal.
Também o Secretariado da Propaganda Nacional (SPN) se apropriou, a partir dos anos 30, das fórmulas ensaiadas e divulgadas pelos regimes totalitários e autoritários, por via da globalização da fotografia, do desenvolvimento da imprensa de massas e dos novos processos de impressão fotomecânicos.No âmbito da Política do Espírito de António Ferro (1895-1956), a fotografia impressa encontra a sua primeira grande expressão no álbum Portugal 1934.
Através da fotografia Impressa é possível rever, reler e remontar a História do Estado Novo português, apostado em construir através da propaganda visual um imaginário de Portugal e do seu Império Colonial como uma “unidade orgânica e indivisível” e multi-racial: um Portugal idealizado e sem conflitos. Essas imagens fotográficas foram assim divulgadas e repetidas, nos seus sentidos conotativo e denotativo, em inúmeras edições de revistas ilustradas, álbuns fotográficos, cartazes, folhetos ou catálogos de grandes exposições.”
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São em número significativo os fotolivros referenciados na exposição, das quais são apresentados alguns fólios ou a capa e, pontualmente, em vitrines, as próprias obras.
Temos assim, de entre outros, imagens de: Henrique Galvão, Álbum fotográfico da 1.ª Exposição Colonial Portuguesa, Porto: Litografia Nacional, 1934; Portugal 1934, Lisboa: SPN, 1934; Portugal 1940, Lisboa: SPN, 1940; Mundo português: imagens de uma exposição histórica, Lisboa: Secretariado Nacional de Informação (SNI), 1957; Pavilhão do Brasil na exposição histórica do Mundo português, Lisboa: Neogravura, 1940; Quinze anos de Obras Públicas 1932-1947, Lisboa, 1948 (2 vols); Alguns aspectos da viagem presidencial às Colónias de S. Tomé e Príncipe e Angola realizada nos meses de Julho e Agosto de 1938, Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1938; Le Portugal à l’Exposition Internationale de Paris, 1937, Lisboa: Ática, 1937; Exposição de modelos e miniaturas ferroviárias [no Instituto Superior Técnico], Lisboa: Companhia dos Caminhos-de-Ferro, 1956; Au Portugal avec Carlito, Paris: A. Hatier, 1960 (no FF aqui),
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Victor Palla e Costa Martins, Lisboa Cidade Triste e Alegre, Lisboa: Autores, 1958 (no FF aqui),
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Maria Lamas, As mulheres do meu país, Lisboa: Actuális, 1948 (no FF aqui),
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Franz Villier, Portugal, Paris: Seul, Col. Petite Planète, 16, 1957; Neal Slavin, Portugal, New York: Lustrum Press, 1971 (no FF aqui),
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Fernando Lemos, Fernando Azevedo e Vespeira, Exposição. Casa Jalco, Lisboa, 1952 (no FF aqui),
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Urbano Tavares Rodrigues, Eduardo Gageiro (fotografia), Esta estranha Lisboa, Lisboa: Prelo, 1971; Elizabeth Colman, Portugal Wharf of Europe, New York: Charles Scribner’s, 1944; Images Portugaises, Lisboa: SPN, 1934; Fernando de Castro Pires de Lima, A Arte Popular em Portugal, Lisboa: Verbo, 1970 (3 vols.); Frederico P. Marjay, Salazar na intimidade, Lisboa: Marjay, 1954; Christine Garnier, Férias com Salazar, Lisboa: Companhia Nacional Editora, 1952; Carlos Estermann, Álbum dos penteados do Sudoeste de Angola, Lisboa: Junta de Investigação do Ultramar, 1960; J. Leitão de Barros (org.), Le Livre d’Or des Conserves Portugaises de Poisson, Lisboa: IPPC, 1938; Frederico P. Marjay, Portugal Romântico, Lisboa: Marjay, 1955; Artur Pastor, Algarve, Lisboa: Autor, 1965; Bairros de Casas Económicas, Porto: Secção das Casas Económicas, 1940; Jorge Segurado (dir.), França Borges (pref.), Lisboa no passado e no Presente, Lisboa: Excelsior, 1971; Carlos Queiroz, Paysages du Portugal, Lisboa: SNI, 194-; Monsanto, Lisboa: SNI, 194-; Arquitectura Popular em Portugal, Lisboa: Sindicato Nacional dos Arquitectos, 1961 (2 vols.).
Entre as revistas inclui-se o Século Ilustrado, Espírito, O Mundo Português, Imagem (onde se pode ler em 1951 a visita de Vittorio de Sica a Lisboa), Almanaque e Panorama.
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Ressalta, pois, da exposição uma grande oportunidade: a da publicação de um Livro Sobre Livros de Fotografia, que seria o primeiro a publicar em Portugal. Refiro aqui, pois é, sem dúvida, uma obra fundamental para a divulgação e a História da Fotografia em Portugal e não vi ainda nada neste sentido no âmbito da exposição. Aliás, importa referir que a exposição apresenta-se como o folhear de um livro.
O período está definido, pode adotar o título da exposição (sem ser um catálogo da exposição, mas muito mais), abrangendo o período em análise: está feita a pesquisa, a investigação, as obras estão acessíveis ou possivelmente já digitalizadas. Naturalmente tem cabimento os livros, as revistas e os cartazes e outras publicações. Será algum trabalho adicional, com certeza. Estará abrangido no projeto financiado pela FCT ?, talvez não, mas a Biblioteca Nacional, que detém o espólio, terá, com certeza, todo o interesse em agarrar a oportunidade e promover esta edição, que quer naturalmente uma impressão cuidada, idealmente bilingue (português e inglês). (Como referência pode-se citar o Photobook: A History (vols. I a III), de Gerry Badger e Martin Parr, entre tantos outros Livros Sobre Livros de Fotografia).
Estamos no ano de 2019, quando se completam os 180 anos da Fotografia. Mesmo que a publicação seja “um ano depois…”
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António Bracons, Aspetos da exposição Fotografia Impressa e Propaganda Visual em Portugal (1934-1974), 2019
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Esta exposição está patente na Biblioteca Nacional, em Lisboa, de 20 de maio a 30 de agosto de 2019.
No âmbito da Exposição foi realizado um Colóquio Internacional, “Quando a Fotografia Impressa faz a História” e organizado um calendário de “Sessões de Filmes” realizados durante o Estado Novo, e outros mais recentes, com depoimentos do fotógrafo moçambicano Ricardo Rangel e do português Eduardo Gageiro.
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