ANTÓNIO LUIZ TEIXEIRA MACHADO E ADRIANO MARQUES, IN ILLO TEMPORE, 1902

Fotografias para um livro de Trindade Coelho.

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Trindade Coelho

In Illo Tempore. Estudantes, Lentes e Futricas

Fotografia: António Luiz Teixeira Machado, Adriano Marques / Autor: Trindade Coelho / Desenhos: António Augusto Gonçalves

Lisboa, Paris: Aillaud & Cª / 1902

Português / 11,7 x 18,2 cm / 430 págs.

Brochura

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No tempo em que eu andava em Coimbra, logo no primeiro ano, em 1985, comprei o livro In illo tempore, numa edição das Publicações Europa-América, o n.º 287 dos Livros de Bolso: uma edição com o texto integral, sem quaisquer imagens, como a maior parte das reedições.

In illo tempore é um dos livros sobre a vida académica coimbrã, mais lidos por todas as gerações, sobretudo por aqueles que foram estudantes de Coimbra, contando múltiplas edições (a par de vários outros, alguns que há muito aguardam reedição).

Há poucos anos encontrei uma primeira edição, da Aillaud & Lello, de 1902!

Que preciosidade!

É que esta primeira edição é muito mais completa que as múltiplas edições posteriores, que se limitaram aos episódios da vida boémia e académica, narrados por Trindade Coelho: a primeira edição é enriquecida com desenhos, alguns fac-simile e, sobretudo, com fotografias da cidade, das suas figuras típicas e de momentos da vida académica.

A autoria dos desenhos está na capa e também no colofon, com a das fotografias:

Este livro / com desenhos originaes / de / António Augusto Gonçalves / e photographias coligidas / em Coimbra / por Antonio Luiz Teixeira Machado / e / Adriano Marques / acabou de se imprimir / em Paris / nas officinas do Editor / Julio Monteiro Aillaud / natural de Coimbra / aos / 27 dias do mez de Abril / de / MDCCCCII”.

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É deveras interessante que esta edição, de início do séc. XX, identifique os fotógrafos ou, melhor, os autores das fotografias – não encontrei mais referências destes a trabalhos fotográficos. Seria a sua identificação na obra um princípio de justiça que Trindade Coelho fazia questão, uma questão de princípio do editor – a casa editora é de Paris, cidade onde a fotografia ‘nasceu’ e sempre teve um peso e respeito enorme, ou por conhecimento e simpatia do autor e/ou do editor para com eles?

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São muitas as fotografias que o livro acolhe. Numa parte significativa dos capítulos, que começam sempre numa página ímpar com o respetivo título, insere-se na página seguinte (par) uma fotografia que ocupa toda a mancha e apenas na página contígua começa o texto; ao longo deste, vão-se integrando pequenas fotografias de detalhes, monumentos, figuras académicas e personagens típicos, eventos. Para além de desenhos e reproduções fac-simile de publicações, caricaturas, etc.

In illo tempore, na sua primeira edição, é mais que um registo escrito de memórias e vivências da vida académica coimbrã, do tempo em que Trindade Coelho andava em Coimbra, cursando Direito, entre 1880 e 1885, mas também apontamentos posteriores, nomeadamente as festas do Centenário da Sebenta (30.04.1899, incluindo fotografias, que já mostrei, ver ligação abaixo) e outros que se contariam no seu tempo ou que entretanto aconteceram: a Coimbra do último quartel do séc. XIX, início do séc. XX – é também um registo da cidade, da sua paisagem, da sua monumentalidade.

As fotografias reproduzem, em grande parte, aspetos paisagísticos da cidade, mostram a sua monumentalidade (diríamos hoje ‘turísticos’ – não seria o conceito de então), bem como de algumas figuras académicas – os “Trajes da Universidade” – e figuras populares da Cidade, que identifica como os “Typos de Coimbra”, personagens castiços, acarinhados pela academia, que permaneceram na memória de quem os conheceu – e nos escritos de alguns autores –, tornando a obra um registo único.

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António Luiz Teixeira Machado e Adriano Marques, Trindade Coelho. In illo tempore, 1902

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Tendo estudado em Coimbra, a cidade e a vida académica são um assunto que me interessa. Assim, permitam-me uma breve passagem pela biografia dos autores e não apenas dos fotógrafos.

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José Francisco Trindade Coelho (Mogadouro, 18 de junho de 1861 – Lisboa, 18 de agosto de 1908) cursou direito em Coimbra, sendo por pouco tempo advogado e depois procurador. De Coimbra passou ao Sabugal, esteve 4 anos em Portalegre, Ovar e desde 1891, em Lisboa. Desde os tempos de Coimbra que escreve para a imprensa, tendo colaborado com diversos jornais e sendo fundador de outros: A Porta Férrea (1881), que se tornou muito popular entre a academia, a revista Panorama Contemporâneo (1883), em Coimbra, e com o juiz Francisco Maria da Veiga, a Revista de Direito e Jurisprudência.

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À direita: “Trajes da Universidade / O quintanista Trindade Coelho”: o autor, no seu 5.º ano, com o traje académico (então de uso habitual) e a pasta académica (um pouco diferente da atual).

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Além de toda a produção literária que disseminou pela imprensa periódica, Trindade Coelho publicou, entre outros: Os Meus Amores, o seu livro mais conhecido (1891); Terra Mater, que saiu na colecção de brindes do Diário de Notícias (1896); Pão Nosso ou Leituras Elementares e Enciclopédicas para uso do Povo (1904); Manual Político do Cidadão Português (1906); Primeiras Noções de Educação Cívica (1906), Dezoito Anos em África (1898), vários Folhetos para o Povo e vários Livros de Leitura, para o 1.º 2.º e 3.º anos do ensino básico.

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O nome de António Augusto Gonçalves, autor dos desenhos, vem na capa, ao contrário do dos autores das fotografias que aparecem apenas no final, que se deverá ao vulto que já então era, ao contrário dos autores das fotografias.

António Augusto Gonçalves (Coimbra, 19.12.1848 – Coimbra, 4.11.1932) era “insigne arqueólogo, artista, crítico e historiador da Arte, e polemista vigoroso.” Completou os cursos liceal e de Desenho Filosófico, mas não chegou a obter qualquer grau na Universidade, embora viesse a ser professor de Desenho na Faculdade de Filosofia, transitando para a Faculdade de Ciências, jubilou-se em 2.3.1929. Criou a Escola Livre das Artes do Desenho, em Coimbra, em 1878, foi professor de Desenho na Escola de Desenho Industrial Brotero a partir de 1884, e desde 1889 na Escola Industrial Brotero, sendo então nomeado seu Diretor. Por sua iniciativa, foi criado em Coimbra em 1890 um Museu de Arte Industrial. Embora filiado no Partido Republicano, obteve o apoio da Rainha D. Amélia e do Bispo-Conde D. Manuel de Bastos Pina para o seu plano de restauro da Sé Velha, cujas obras foram iniciadas em 1893. Reorganizou a partir de 1894 o Museu de Antiguidades do Instituto de Coimbra, que em 1911 deu lugar ao Museu Machado de Castro. Foi vereador da Câmara Municipal de Coimbra e membro do Conselho de Arte e Arqueologia de Coimbra.

Dos seus muitos escritos destacam-se, entre outras, as obras: Brevíssimas noções elementares sobre o método das projecções ortogonais (Coimbra, 1878); A Escola Livre das Artes do Desenho – Coimbra (Coimbra, 1881); Breve noção sobre a história da cerâmica em Coimbra (Lisboa, 1899) e Estatuária lapidar no Museu Machado de Castro (Coimbra, 1923).

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Relativamente aos autores das fotografias pouco se sabe sobre eles. Consegui identificar:

António Luiz Teixeira Machado nasceu a 22 de Setembro de 1850, é filho de Luís Maria Teixeira Machado e de Maria Isabel de Azevedo. Residiu na Ajuda, concelho de Belém, Lisboa, sendo casado com Gabriela Ailland Monteiro [Aillaud?, creio tratar-se de erro de transcrição para o “Livro nº 71 – Livro de Matrícula do Pessoal, Registo dos Oficiais do Regimento de Infantaria nº 7, de 1901”] . Militar de profissão, pertenceu ao Regimento de Infantaria n.º 7, em Lisboa, como referido, e tinha então, no ano de 1901, a patente de coronel.

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Traduziu o livro “As férias”, da Condessa de Ségur, com ilustrações de Bertall, editado em Paris, pela “Casa de V.ª J. P. Aillaud, Guillard, [imp.] 1882”; na imagem, a 5.ª edição.

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António Luiz Teixeira Machado com José Miguel de Abreu foram autores do “Compendio de desenho : para o Ensino Elementar (1.º e 2.º grau) : disposto em harmonia com os programmas de 18 de Junho de 1896” (1898), “Compendio de desenho : disposto em harmonia com os programmas officiaes de 14 de Setembro de 1895”, para a classe I (primeiro ano dos Lyceus), editado pela Livraria Portuense, conhecendo diversas edições (a 3.ª, em 1905) e para as “classes III, IV e V (terceiro, quarto e quinto anno dos Lyceus) : texto e atlas” (a 3.ª ed. modificada, em 1901).

Faleceu em 1910.

Presumo que Trindade Coelho dada a sua vivência cultural e jornalística, conheceria o editor, Júlio Monteiro Aillaud, que era de Coimbra, como referido. A esposa de António Luiz Teixeira Machado seria familiar do editor e portanto, o conhecimento deste (que poderia também ser conhecido de Coelho). Poderia ter a paixão ou o gosto pela fotografia (não encontrei outras referências), tendo pela teia de relações realizado – ou tinha já – um conjunto de fotografias, que foram publicadas.

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De Adriano Marques apenas recolhi uma referência, na Gazeta de Coimbra, n.º 728, de 22.06.1918, que “Foi trasladado para jazigo próprio, no cemitério da Conchada, o cadáver da Sr.ª Maria do Carmo Marques, saudosa esposa do nosso bom amigo Sr. Adriano Marques, que mandou construir o jazigo. (…)”.  Partindo do princípio que será a mesma pessoa, poderemos pressupor que não teria frequentado (ou pelo menos, concluído) a Universidade (caso contrário seria referido por ‘Dr.’ ou ‘Doutor’), teria algum poder económico e residiria em Coimbra. Seria conhecido do autor ou do editor.

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Pode ver a festa do Centenário da Sebenta, nas fotografias de António Luiz Teixeira Machado e Adriano Marques, bem como de Aurélio da Paz dos Reis, no Fascínio da Fotografia, aqui.

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Pode conhecer melhor a biografia de Trindade Coelho aqui e a de António Augusto Gonçalves aqui.

Sobre António Luiz Teixeira Machado pode ver aqui.

Pode ler a 1.ª edição de In illo tempore aqui.

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