LUÍZ CUNHA (1933-2019), O BELO E O SAGRADO

Homenagem a Luíz Cunha (Porto, 14 de abril de 1933 – Lisboa, 28 de janeiro de 2019)

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António Bracons, Luíz Cunha, S. Miguel, Açores, 2003

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Hoje falo sobre um arquiteto. Que fez arquitetura – muita e muito boa – pintura, desenho…

Luíz Cunha nasceu no Porto, a 14 de abril de 1933.

Em 1957 concluiu o curso de arquitetura na Escola de Belas-Artes do Porto (ESBAP) com 20 valores. “A sua formação na Escola do Porto foi como aluno dos arquitectos-artistas Carlos Ramos, Fernando Távora, José Carlos Loureiro e Agostinho Ricca. Dordio Gomes e Heitor Cramez foram seus professores de Desenho e Aarão de Lacerda de História de Arte. Entre os seus colegas de curso destacam-se os arquitectos Álvaro Siza Vieira, Alcino Soutinho, Pádua Ramos, João T. Korrodi, Carvalho Dias e Marques Aguiar.” (ISCTE)

Luíz Cunha é um dos nomes maiores da arquitetura portuguesa. As suas obras, sempre diferentes, são estudadas em detalhe e pormenorizadas em desenhos, quase sempre à ‘mão-levantada’ ou esquemáticos, inserindo banda desenhada para definir pormenores ou materiais.

Luiz Cunha toma parte ativa do Movimento de Renovação da Arte Religiosa (MRAR) fundado em 1952 e liderado pelo arquiteto Nuno Teotónio Pereira. Em 1954 faz parte da coordenação de uma exposição de trabalhos na ESBAP onde fazem parte painéis deste movimento de arquitetos, pintores escultores e historiadores, entre eles Nuno Portas. (Pode conhecer a história e o trabalho do MRAR e dos seus intervenientes, e a sua importância através da tese de doutoramento do Arqt.º João Alves da Cunha, “MRAR Movimento de Renovação da Arte Religiosa. Os anos de ouro da arquitetura religiosa em Portugal no século XX”, Lisboa: Universidade Católica Editora (2015), ISBN: 9789725404843).

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“Luiz Cunha é convidado para leccionar a cadeira de Urbanismo na ESBAP em 57 mas opta pelo convite do Urbanista Robert Auzelle para estagiar no Gabinete de Urbanização da Câmara Municipal do Porto, permanecendo aí até 1966.

Realizou inúmeros trabalhos de Arquitectura e Urbanismo, onde se destacam alguns projectos como o Jardim do Ouro, a Praça da Trindade, as passagens subterrâneas de peões na Praça da Liberdade (obra pioneira), como a sua importante participação no 1º Plano Director da Cidade (1961).” (ISCTE)

É Robert Auzelle que também o convida para fazer os desenhos, o grafismo e a capa do livro “PLAIDOYER. Pour une organisation consciente de l’espace”, editado em janeiro de 1962 pela Vincent Freal et Cie, Paris.

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Robert Auzelle, Luíz Cunha, “PLAIDOYER. Pour une organisation consciente de l’espace”, Paris: Vincent Freal et Cie, 1962. Capa e alguns desenhos.

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Até ao início da década de 1980, Luíz Cunha projetou mais de 50 templos, entre igrejas, capelas e outras, nem todas (ainda) construídas, que se destacam no estilo pós-modernista: a Igreja do Santuário do Cristo-Rei, em Almada, a Igreja de São Mamede, Negrelos, Santo Tirso (1961-65); a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Fátima (1962-65), a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Carvalhido, Porto (1966-72); a Igreja de Santa Joana Princesa, em Aveiro (1971-76), o Santuário e a cripta do Santuário de S. Bento da Porta Aberta, Gerês (1987-95 e 1994-2002) e a Igreja de Cristo-Rei, Portela de Sacavém (1983-92), o Centro Paroquial do Alto da Chapeleira, Ameixoeira, Lisboa (2009-12) para referir apenas algumas.

Para além da arquitetura religiosa, Luíz Cunha desenvolveu muitos outros projetos, como a sede do Diário do Minho, em Braga ou um conjunto habitacional em Penafiel, uma proposta para nova Assembleia Regional dos Açores, na Horta, o edifício de mestrados da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa ou um auditório em Ponta Delgada.

Sobre a sua obra, refere o ISCTE-IUL:

No princípio a sua obra revela-se moderna e regionalista nos anos 50/60. Passa por uma fase mais brutalista nos anos 70, tornando-se de imediato contextualista, e ou, Pós-Modernista do início dos anos 80 até aos anos 90. No virar do séc. XX revela a sua contemporaneidade, isto é, nunca segue uma única linguagem, tão próprio destes anos em que a variedade de posturas arquitectónicas coexiste. Esta é uma constante muito própria mas sempre coerente de Luiz Cunha, ao longo de toda a sua vida profissional. Em todas as suas obras a importância dos contextos, as linhas da tradição, o desenho e sobretudo a importância de uma visão global, são constantes aliadas a uma liberdade artística, na opção e pragmatismo do processo da arquitectura e da construção, transformando Luíz Cunha num Arquitecto contemporâneo raro no contexto nacional e global.

Luiz Cunha arquitecto-artista profundamente ecléctico tem um percurso na Arquitectura Portuguesa ímpar e coerente, romântico, interventor expressionista, projecta e executa desde o início da segunda metade do séc. XX em Portugal com uma forma e espiritualidade única, marcando expressivamente a arquitectura Portuguesa.”

Luíz Cunha foi professor catedrático de Desenho Urbano e Arquitetura do Departamento de Arquitetura e Urbanismo do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, de 1995 a 2004, ano em que se jubilou. Àquela escola doou o seu espólio, para que os alunos pudessem aprender com a sua obra, tendo inaugurado a 4 de maio de 2011 a exposição “Luíz Cunha, Arquitectura & Artes Plásticas 1957/2011”.

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António Bracons, Aspetos da exposição “Luíz Cunha, Arquitectura & Artes Plásticas 1957/2011”, Lisboa, ISCTE-IUL, 2011

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No ano do 40.º aniversário da instituição, 2012, editou um número especial da revista ArchiNews (03) dedicada ao arquiteto, com testemunhos de Alcino Soutinho, Alexandre pomar, Álvaro Siza, Carvalho Dias, Diogo Lino Pimentel (faleceu a 26.01.2019), José Carlos Loureiro, Manuel Graça Dias, Nuno Portas e Paulo Miranda.

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Revista ArchiNews 03, dedicada a Luíz Cunha, Lisboa: ISCTE, 2012

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Luíz Cunha além de arquiteto foi pintor, tendo uma obra significativa, particularmente no campo da arte sacra.

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Luíz Cunha, Janelas para o Reino (catálogo), 2005 (capa e contra-capa)

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A exposição “Janelas para o Reino”, em Lisboa, no edifício do antigo Convento das Mónicas, em novembro de 2005, mostrou parte da sua obra. Fez também escultura, tapeçaria, desenho, muito desenho.

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António Bracons, Aspetos da exposição “Janelas para o Reino”, de Luíz Cunha, Lisboa, 2005.

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Recordo Luíz Cunha como uma pessoa afetuosa e terna, humilde, sabedora e acolhedora. Um sorriso fácil, franco, mas discreto. Mesmo em momentos de dor. Bem-disposto, sereno, extremamente criativo, o olhar no horizonte, amplo. Homem do Belo e do Sagrado. Profundamente católico, estes valores refletiam-se na sua vida e na sua obra.

Do Porto veio para Lisboa e frequentemente aos Açores, sobretudo a S. Miguel, de onde é originária Maria de Jesus, a sua esposa. A casa que aí recuperou, em Ponta Delgada, estreita, de um compartimento por piso, é uma pérola, a varanda saliente no último piso, com vista para o vasto oceano – e o horizonte amplo.

Luíz Cunha faleceu em Lisboa, a 28 de janeiro de 2019.

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Parte da biografia foi recolhida no site do ISCTE-IUL, aqui.

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