CARLOS RELVAS E A CASA DA FOTOGRAFIA, INSTITUTO PORTUGUÊS DE MUSEUS, 2003
Dos 180 anos do nascimento aos 125 da morte de Carlos Relvas (Golegã, 13 de novembro de 1838 – Golegã, 23 de janeiro de 1894)
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Carlos Relvas
Carlos Relvas e a Casa da Fotografia
Fotografia: Carlos Relvas / Texto: Vitória Mesquita, José Pessoa, Sofia Torrado, António Pedro Vicente, Mark Haworth-Booth, André Rouillé, Michael Gray, Alexandra Encarnação, Victor Mestre, Sofia Aleixo
Lisboa: IPM- Instituto Português de Museus / Junho . 2003
Português / 24,1 x 33,3 cm / 398 págs.
Brochura / 1.000 ex.
ISBN(10): 9727761798
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Carlos Relvas and the House of Photography
Inglês / 24,1 x 33,3 cm / 398 págs.
ISBN(10): 9727761798
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A importância e o valor do legado de Carlos Relvas para Portugal, a Europa e o resto do mundo está para lá de toda a medida e não pode ser desvalorizada ou descuidada.”
Michael Gray
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Este livro é o catálogo da exposição que teve lugar no MNAA – Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, de junho a 26 de outubro de 2003, antecipando a abertura ao público da Casa-Estúdio Carlos Relvas (2007), após a importante obra de reabilitação.
Esta é a obra que até à data mais imagens publica de Carlos Relvas, um total de 324, entre reproduções de fotografias, quer de originais quer de impressões ‘atuais’ a partir dos negativos originais, de fototipias e alguns desenhos.
Por outro lado, estas imagens têm todas a mesma origem: o espólio que se encontrava na Casa-Estúdio Carlos Relvas, doado ao Município da Golegã em 1978 por Dona Amália da Câmara Pina, filha de Dona Mariana Correia, a segunda esposa de Carlos Relvas, e que após um período aberto ao público, entre 1981 e 1996, já em estado de bastante grande degradação, foi encerrado para grandes obras de conservação, promovidas pelo IPM, pela mão dos arquitetos Vítor Mestre e Sofia Aleixo reabrindo ao público em 2003.
Sobre o estúdio, Haworth-Booth diz que “não há nada de semelhante no mundo” que tenha sobrevivido até hoje. “Há uma câmara escura de uma aristocrata irlandesa, Lady Mary Ross, mas é muito mais modesta quando comparada com a casa de Carlos Relvas. É muito especial, penso que é única.” Para ele, o estúdio “Mostra a ambição da fotografia em ser arte. E porque é que isso é importante? Porque se perdeu. As pessoas que hoje descobrem a fotografia pensam que isso só está a acontecer agora. É bom que haja uma casa que o mostre e que isso não faça só parte da história.”
O espólio era composto por: “4174 imagens, negativos em suporte de vidro, nos processos de colódio húmido e seco; 6604 imagens, negativos em vidro, no processo gelatina brometo de prata; 146 espécies, positivos em provas albuminadas; 1656 espécies positivos em fototipias”, de acordo com o inventário (SIPA) e estavam arrumadas em 300 caixas. “Em 1988, Vitória Mesquita e José Pessoa, futuros responsáveis pelo ANF – Arquivo Nacional de Fotografia, estrutura que estava em organização, sob a supervisão do IPPC e que de futuro se instalará no Palácio Nacional da Ajuda, iniciam na Golegã, o futuro inventário, assim como o tratamento da Colecção de Fotografias, na sala da Biblioteca, anexa ao “Museu de Fotografia Carlos Relvas”, o qual tinha aberto em 1981.”, escreve José Soudo (pode ler aqui).
A vastidão do espólio leva a que o mesmo tenha de ser transportado para Lisboa, para o conveniente tratamento, dado ser impossível tratá-lo no local, o que acontece depois de assinado um protocolo com a Câmara Municipal da Golegã, em 1996, ano em que encerra ao público a Casa-Estúdio, para obras de recuperação.
A dimensão e a riqueza do espólio levam à montagem desta exposição, centrada apenas no próprio espólio de Carlos Relvas. Todas as imagens são provenientes da Casa-Estúdio e terão lá permanecido desde que Relvas as colocou (faleceu a 23 de janeiro de 1894) até 1988, portanto, cerca de 90 anos.
A exposição foi composta por mais de 100 provas de época, o maior número até então apresentado, por cerca de 200 reproduções atuais, em formatos grandes, excessivamente grandes quando comparados com a dimensão dos originais, para além de 78 fototipias de peças da Exposição de Arte Ornamental (1882).
O catálogo reproduz as peças expostas (apenas algumas das fototipias da Exposição de Arte Ornamental) e agrega as imagens por temas, aliás como a exposição: “A Casa da Fotografia” é o primeiro, sobre a qual o conservador do Museu Talbot (Inglaterra), Michael Gray, escreve no catálogo: “Esta série constitui o único exemplo conhecido de um fotógrafo que registou, passo a passo, a construção de um [do seu, acrescento eu] estúdio fotográfico e a instalação dos seus acessórios.”. Os outros temas são: Carlos Relvas por ele próprio, paisagem, salva-vidas, monumentos e património, animais, retratos, género (onde inclui diversas paisagens, não só de Portugal, de aldeias e vilas, Coimbra, Porto e Lisboa, mas também de Madrid, de Paris e da Exposição Internacional de 1889 e da Suiça) e “Fototipias para o catálogo da Exposição de Arte Ornamental – 1982 – Lisboa” (fotografadas naquele que seria o atual MNAA, onde se apresenta a exposição).
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O catálogo inclui além dos textos institucionais de Manuel Bairrão Oleiro (IPM), Vitória Mesquita e José Pessoa (ANF), José Veiga Maltez (CMG) e José Luís Porfírio (MNAA), importantes ensaios sobre a obra, o espólio e a Casa-Estúdio. Assim, Vitória Mesquita e José Pessoa escrevem o “Encontro com Carlos Relvas”, José Pessoa e Sofia Torrado, “Carlos Relvas e a Casa da Fotografia”; António Pedro Vicente testemunha “O Renascer de Carlos Relvas”, Mark Haworth-Booth, “O Regresso de Carlos Relvas” e “Um Senhor Esquecido da Fotografia” é o ensaio do historiador André Rouillé; Michael Gray debruça-se sobre “A Génese da Imagem: O Atelier e as Obras-Primas Escondidas de Carlos Augusto de Mascarenhas Relvas e Campos (1838-1894), Vitória Mesquita e Alexandra Encarnação, “Inventário, Estabilização e Conservação” e os arquitetos Victor Mestre e Sofia Aleixo, “Conservação e Restauro do Estúdio Carlos Relvas. Memórias para uma Abordagem Ética de Reabilitação e Restauro”. A concluir a obra, uma cronologia da vida e atividade fotográfica de Relvas, a par com a evolução fotográfica e outros eventos importantes.
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Na ocasião, Alexandre Pomar escreveu no Expresso / Revista, em 05.07.2003 um artigo sobre a exposição, “O Caso da Casa Relvas”, do qual destaco:
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A mostra que o Instituto Português de Museus apresenta no Museu de Arte Antiga, aguardada desde 98, não é ainda uma retrospectiva, mas constitui um importante contributo para se ir conhecendo melhor a obra de Relvas. Os seus autores, Vitória Mesquita e José Pessoa, da Divisão de Documentação Fotográfica do IPM (e antes responsáveis pelo ex-Arquivo Nacional de Fotografia, absorvido em 97 pelo Centro Português de Fotografia), optaram por trabalhar apenas com o espólio da Casa-Museu, cujo tratamento e inventário vêm realizando a partir de 96, graças a um protocolo entre a autarquia e o Instituto.
Apresentam o maior número de provas de autor já alguma vez expostas, mais de uma centena, incluindo 78 fototipias de peças da Exposição de Arte Ornamental (1882), e também cerca de 200 reimpressões actuais dos negativos encontrados no estúdio da Golegã, sobreviventes à venda em 1897 de grande parte do respectivo acervo.
Constituindo uma aproximação arquivística ao espólio de Relvas, as provas agora produzidas servem para o divulgar e poderão suprir lacunas que venham a reconhecer-se no universo das provas de autor, fornecendo material abundante para a exposição permanente da Casa-Museu, quando esta reabrir, e para mostras itinerantes que se dediquem ao fotógrafo (provas raras só se expõem em condições especiais).
(…)
Na obra exposta, as paisagens têm um lugar de destaque, romanticamente melancólicas e de um realismo de inspiração pictural, sendo outras, de lugares povoados, de grande interesse documental. O património é objecto de um trabalho com qualidade, embora outros tenham feitos os levantamentos metódicos (Emílio Biel). Como notas próprias surgem o interesse pelos retratos de animais e pelos barcos, sendo de grande beleza sensual alguns retratos femininos. Os tipos populares encenados em estúdio fixam uma ideologia que permaneceu no folclorismo naturalista do seu amigo Malhoa. Entretanto, no itinerário da mostra, o pequeno espaço dedicado ao processo da fototipia, com ensaios originais e provas de cor das impressões em tinta tipográfica, é um momento forte sobre um aspecto marcante da sua acção.
No catálogo, o historiador André Rouillé procede à mais correcta leitura da obra de Relvas, situando o seu culto da fotografia e da glória pessoal num tempo em que se tinham multiplicado os profissionais e se banalizava o consumo das imagens mecânicas. Aponta-o como «um homem dividido entre a sua província e a Europa, entre as tradições e a modernidade, entre a sua proximidade com as pessoas e coisas e a sua vontade de poder», sem ceder à tentação de o mitificar.
Também no catálogo, Michael Gray sublinha, como já referi:
“A importância e o valor do legado de Carlos Relvas para Portugal, a Europa e o resto do mundo está para lá de toda a medida e não pode ser desvalorizada ou descuidada.”
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Carlos Relvas e a Casa da Fotografia, Instituto Português de Museus, 2003
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Pode conhecer melhor a obra de Carlos Relvas no Fascínio da fotografia, aqui.
Pode ler o artigo completo de Alexandre Pomar, “O CASO DA CASA RELVAS” no Expresso / Revista de 05-07-2003, no site de Alexandre Pomar, aqui, ou no site da Casa-Estúdio Carlos Relvas, aqui.
Pode ler o artigo de Isabel Salema no jornal Público, de 27.06.2003, aqui.
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Pingback: A CASA-ESTÚDIO CARLOS RELVAS | FASCÍNIO DA FOTOGRAFIA
Obviamente que Haworth-Booth nunca passou pela ilha Madeira. Se o tivesse feito, teria a oportunidade de conhecer um outro estúdio fotográfico oitocentista, que até antecede o belíssimo estúdio de Relvas: O atelier da Photographia Vicente!
Hoje, Museu de Fotografia da Madeira-Atelier Vicente’s, foi fundado por Vicente Gomes da Silva em 1865. Mantém toda a sua originalidade, desde as suas câmaras, aos adereços e ao arquivo fotográfico. Da Photographia Vicente, chegaram-nos cerca de 400 mil espécimes fotográficos e a coleção do Museu ascende a cerca de 4 milhões!
Uma pérola no meio do atlântico que merece uma visita por parte de todos quantos são fascinados pela fotografia.
Não sei se Haworth-Booth (n. 1944) passou ou não pela ilha da Madeira. O estúdio Atelier Vicente’s é muito interessante, foi recuperado e claro que merece uma visita! E que entusiasma! Tive oportunidade de o visitar em 2001. O seu espólio merece um estudo profundo! Como edifíco, contudo, a Casa-Estúdio de Carlos Relvas é um ‘templo’ todo ele dedicado à fotografia e, nesses termos, é único (sem desprimor para o Atelier Vicente’s).
Indubitavelmente que o estúdio do Carlos Relvas é um monumento à fotografia. Já tive a oportunidade de o visitar e de consultar o seu arquivo, uma experiência mágica, apesar do abandono a que foi votado no passado, que resultou na perda de parte do seu recheio ao longo dos anos.
Foi uma surpresa encontrar na vidraça do seu laboratório, uma referência a um súbdito britânico, Russel Gordon, nascido na Madeira, que desenvolveu um processo fotográfico de chapa seca, aparentemente utilizado por Carlos Relvas.
Já agora, há um outro estúdio oitocentista, que também já tive o prazer de visitar, que merece entrar nessa lista de mecas da fotografia: a casa-museu de Nichéphore Niépce em Saint-Loup-de-Varennes, França. Em Lyon, estive também na casa dos irmãos Lumiére, um ponto obrigatório nesse roteiro.
Se um dia voltar à Madeira, terei todo o prazer em conduzi-lo pelo nosso acervo e pelo museu que foi requalificado (e ampliado)em 2019, que, a par deste seu “irmão” de Golegã, é também todo ele dedicado à fotografia, desde a sua génese em 1865.
Aproveito a ocasião para endossar os maiores parabéns por todo o material que aqui publica.
Muito obrigado pela sua partilha, simpatia e pelo convite.