LUÍS ROCHA: “QUE PERCEPÇÃO TERÁ DA FOTOGRAFIA UMA PESSOA QUE NÃO VÊ, OU QUE VÊ MUITO POUCO?”

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O MEF – Movimento de Expressão Fotográfica há cerca de 15 anos que trabalha a fotografia com pessoas cegas ou de baixa visão. Neste âmbito desenvolveu o projeto “Integrar pela Arte – Imagine Conceptuale”, com o financimento da  Fundação Calouste Gulbenkian através da iniciativa PARTIS – Práticas Artísticas para a Inclusão Social, entre 2016 e 2018, que resultou na exposição “Ver com outros olhos”, patente na Fundação Calouste Gulbenkian, de 22 de setembro a 12 de novembro de 2018 e no livro “Um olhar sobre o nada”.

Neste âmbito, convidámos o Luís Rocha, coordenador do Movimento de Expressão Fotográfica, a falar-nos sobre o Projeto. Partilhou com o Fascínio da Fotografia o texto abaixo.

Como prova do referido, no final apresento cinco dos projetos desenvolvidos.

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Imagine Conceptuale

“Que percepção terá da fotografia uma pessoa que não vê, ou que vê muito pouco?”

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Quando falamos de imagens fotográficas construídas por pessoas cegas e com baixa visão, o que significa não ver? Como ponto de partida, na certeza que não encontrámos respostas conclusivas, construímos o nosso projeto de fotografia a partir do entendimento de como nos relacionamos com a representação do que é uma imagem.

Iniciámos a nossa pesquisa com a seguinte questão: “que percepção terá da fotografia uma pessoa que não vê, ou que vê muito pouco?”

A formulação inicial desta questão deu origem ao projeto Imagine Conceptual, que contou com o apoio do programa PARTIS – Práticas Artísticas para Inclusão Social da Fundação Calouste Gulbenkian e foi desenvolvido em parceria com a Associação de Apoio e Informação a Cegos e Amblíopes, Associação Promotora de Emprego de Deficientes Visuais, Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos, Fundação Raquel e Martin Sain, Íris Inclusiva e Lar Branco Rodrigues, entidades ligadas à integração das pessoas com deficiência visual na sociedade.

Uma imagem construída por um processo não visual, apenas imagético, possibilitará a produção de narrativas visuais? Acreditamos que sim, mesmo para quem não possua um sistema de representação visual, é possível, mesmo assim, promover em cada um a capacidade de ter construções visuais e partilhá-las.

O desenvolvimento de uma cultura estética visual em todas as suas dimensões conceptuais, possibilita-nos a produção de imagens que, ainda que não tenham nascido de uma conceptualização puramente visual, são visualmente significantes para quem as produz, e transmitem através do olhar aquilo que pode ser a sua ausência.

A percepção visual de um assunto resulta da captação da luz que se reflete nos objetos e que é convertida em impulsos enviados ao córtex visual que se encarrega de processar e interpretar as informações recebidas. A ausência de percepção visual das formas e da luz é clinicamente denominada como NLP, abreviação de “no light perception” (sem percepção de luz). De acordo com a neurociência, o processo de formação da imagem mental não ocorre apenas através da visão. O neurologista e neurocientista António Damásio define como imagem “a estrutura mental construída a partir de sinais provenientes de cada uma das modalidades sensoriais – visuais, auditivas, olfativas, gustativas e somatossensoriais”. Se, na presença de luz, a pessoa que vê, identifica o mundo que a rodeia utilizando os seus sentidos, é possível, no caso da ausência da luz ou do sentido visual, que esse conhecimento seja construído apenas com as suas experiências.

Podemos afirmar, relativamente às capacidades dos sentidos humanos, que: “O homem não vê apenas porque tem olhos para ver. O homem vê com a experiência acumulada. O homem não ouve apenas porque tem ouvidos para ouvir. O homem ouve com a experiência acumulada” (Ross: 1993).

Com ou sem percepção de luz, o indivíduo vê através das suas memórias, assim, considerando o papel preponderante da visão nas nossas relações com o meio, torna-se praticamente impossível imaginar a vida sem imagens visuais, o que nos leva a conotações, que muitas vezes ultrapassam o real significado de sua ausência. Quando pensamos num mundo sem a possibilidade de ver, remetemo-nos imediatamente à “escuridão”, porém, sabemos que não basta fechar os olhos para reproduzirmos o mundo da pessoa cega. 1

Considerando que uma das principais razões da produção da imagem é a sua vinculação ao domínio do simbólico, podemos afirmar que, “(…) quando uma imagem representa coisas concretas, ela possui um valor de representação. Quando representa coisas abstratas, possui um valor de símbolo (definido por sua aceitabilidade social). E, por último, quando a imagem representa conteúdo cujos caracteres não são visualmente refletidos por ela, possui o valor de signo”. 2

Assumimos que o produtor de uma imagem não pode ser definido de forma simples, pois a sua relação com a imagem é definida pela sua capacidade de percepção, pelo conhecimento prévio, pelos valores e gostos e pela sua vinculação a um contexto. Assim, ao analisarmos uma imagem, observamos que a imagem, por estar vinculada ao domínio do simbólico, é a mediação entre o autor, o espectador e a realidade. Na relação da imagem com o real, Jacques Aumont na obra “ A Imagem” adopta como referencial as reflexões de Rudolf Arnheim, em que propõe uma tricotomia sugestiva e cómoda que confere à imagem um valor de representação, pois representa coisas concretas, um valor de símbolo, já que representa coisas abstratas e um valor de signo quando representa um conteúdo amplo. 3

Pensemos na possibilidade de que a construção destas imagens seja conseguida através de uma elaboração onírica – especificamente no caso de pessoas que nunca tiveram percepção visual, ou que a perderam muito cedo, o que pode de alguma forma reforçar a questão inicialmente colocada “que percepção terá da fotografia uma pessoa que não vê, ou que vê muito pouco?”.

As pessoas que nasceram cegas, ou cegaram em tenra idade, não conseguem construir um esquema imagético do mundo real externo com base na visão, constroem-no recorrendo aos outros sentidos: audição, tacto, olfacto, etc., elaborando a representação interna do real externo, materializado em vivências que constroem uma virtualidade interna.

Tendo em conta que o processo de construção de imagens onírico, deriva do inconsciente, obedecerá este a alguma lógica processual? Queremos acreditar que sim, já que a produção imagética-onírica não parece estar sujeita ao acaso, mas sim assente numa construção imagética fundamentada em imagens construídas no inconsciente, pelo que consideramos não haver qualquer razão para que uma pessoa, apenas porque se encontra privada da função visual-sensorial, deixe de elaborar o seu trabalho onírico de um modo “organizado” em torno do sentido neurossensorial.

Considerando a fotografia como uma linguagem comum, composta principalmente por metáforas visuais que muitas vezes podem não ser descritas para a sensibilidade de uma pessoa cega e tampouco serve para expressar a sua concepção do mundo, sem esta estar refém de uma eventual conceptualização, não podemos afirmar explicitamente que uma pessoa cega ou com baixa visão poderá realizar uma imagem que se ajuste ao padrão canónico da fotografia, já que no entendimento do que é uma fotografia existem regras bastante explícitas quanto à técnica fotográfica, controle de luz, composição, processo da captura, etc.

No entanto, se encararmos o ato de fotografar como algo que pode ser conceptualizado a partir de descrições e fora do domínio do racional ou lógico, somos levados a considerar a hipótese de uma pessoa cega poder usar este processo de comunicação para se expressar.

Consideremos que como afirma Aumont, uma fotografia é uma analogia da realidade: “(…) noção de analogia, isto é, o problema da semelhança entre a imagem e a realidade (…) do ponto de vista do espectador, e de como este pode perceber numa imagem algo que evoque um mundo imaginário. Retomaremos a mesma questão, mas evidenciando desta vez a própria imagem, ou melhor, a relação entre a imagem e a realidade que ela supostamente representa (dito de outra forma ainda, vamos considerar a representação não tanto como resultado, a ser apreciado por um espectador, mas sim como processo, produção, a ser obtido por um criador)”. (Aumont: 2002).

Assim, podemos considerar que uma pessoa cega congénita ou com cegueira adquirida fotografa o que imagina, a partir de uma construção de imagens mentais, onde a fotografia é o registo físico que melhor representa a sua imagem imaginada, tal como afirmado por Evgen Bavcar, fotógrafo cego – “Minhas imagens são frágeis, eu nunca as vi, mas sei que elas existem, e algumas delas me tocam profundamente só de ouvir falar delas”. 4

A utilização da fotografia possibilita um encontro pessoal por parte de quem fotografa, apesar destes não ficarem isentos da presença do outro, do Spectator, referenciado por Roland Barthes. Sendo a fotografia uma arte visual entendida enquanto espaço representacional que designamos como realidade, o papel do “olhar” de uma pessoa cega na construção do ato fotográfico e na apreensão da imagem vislumbrada pelo fotógrafo, rompe com a ideia da “visualidade concreta” inerente à fotografia, remetendo a imagem a outro tipo de visibilidade, a qual é ligada a intenções que constituem um caráter interpretativo da imagem por parte de quem observa, imbuído nas imagens do (in)visível. (…) dá existência visível ao que a visão profana crê invisível (…). (Merleau-Ponty: 2004)

Durante o projeto, o Movimento de Expressão Fotográfica explorou a definição de imagem, onde pretendeu, acima de tudo, levantar questões sobre a diferença existente entre a percepção e a realidade, entre a construção e a interpretação. Quão perto, afinal, pode o conceito de imagem, acoplada à construção imaginada desses conceitos visuais de uma pessoa nascida cega, ser próxima das pessoas normovisuais? O reconhecimento na imagem de algo que existe, quer seja de forma concreta ou idealizada, é um processo que se apoia na memória coletiva e individual. É na memória que está a base da nossa apreensão visual e a nossa percepção das imagens, que nos permite comparar o que vemos e o que já vimos.

A relação entre o autor, a fotografia e o observador, pode ser entendida com num verdadeiro elo encadeado, pois quando o autor mostra a sua obra, neste caso a imagem fotográfica produzida, desperta reações visuais e cerebrais no observador, sendo estas fruto de uma interpretação do estímulo desencadeado sobre o seu cérebro, e da tradução deste estímulo resultará uma percepção interna da imagem captada, tratando-se da construção da realidade através da sua interpretação.

O projecto Imagine Conceptuale teve como principal objectivo facilitar o acesso das pessoas cegas e com baixa visão às artes visuais e fomentar a expressão artística dentro do universo particular da fotografia. Tendo em conta que uma pessoa cega ou com baixa visão procura maioritariamente “ver” através dos outros sentidos, e como consideramos importante explorar as suas sensações representadas em imagem, procurámos a descrição dessas imagens com elementos provenientes dos sentidos e encontrados nos movimentos artísticos, proporcionando aos participantes a oportunidade de construírem uma imagem, caminhando assim para o objectivo de democratizar a arte. Pretendeu-se criar uma metodologia para trabalhar no âmbito das artes visuais e procurámos produzir recursos que permitissem a universalização do método, através da construção de documentos com a componente descritiva dos movimentos estudados e do processo de trabalho adquirido.

A intervenção foi dinamizada, durante três anos (2016/2018), em 3 fases – na primeira fase os participantes foram expostos a diversos movimentos estéticos: surrealismo, expressionismo, pop art, arte conceptual, performance e impressionismo. Numa segunda fase, os participantes foram desafiados a descreverem todas as imagens que lhes ocorreram como consequência da exposição anterior e na terceira e última fase, a proposta foi que produzissem fotograficamente as imagens descritas na fase anterior.

A proposta final passou por apresentar em 2018 todo o trabalho produzido numa exposição na Fundação Calouste Gulbenkian e em dois livros de fotografia, visível e táctil, promovendo a acessibilidade a todos, com produção de materiais visuais, tácteis e sonoros.

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Luís Rocha, Movimento de Expressão Fotográfica

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1  MORAIS, Diele, “A aquisição de conceitos, a formação da imagem mental e a representação gráfica de cegos precoces e tardios: relato de um percurso”, PPGAV/UDESC1, 2009. Disponível em: http://ciclo2009.files.wordpress.com (acesso em: Julho de 2017).

2  Bordin, Francine B. As Imagens, segundo Jacques Aumont. P@rtes: São Paulo, Junho de 2013. (acesso em: Julho de 2017).

3  Na verdade, as imagens-signos mal chegam a ser imagens no sentido corrente da palavra (que corresponde, grosso modo, às duas primeiras funções de Arnheim). A realidade das imagens é bem mais complexa, e há poucas imagens que encarnem com perfeição uma e apenas uma dessas três funções, das quais a imensa maioria das imagens participa, em graus diversos, simultaneamente.

4 Aqui. (Acesso em: Outubro de 2018)

Projeto Imagine Conceptuale disponível aqui.

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Bibliografia

Aumont, J., 2002. A Imagem. 7ª edição, PAPIRUS. Campinas

Bianchetti, L. Freire, I. 2006. Um Olhar Sobre a Diferença. 7ª edição, PAPIRUS. Campinas

Merleau-Ponty, Maurice. O olho e o espírito. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

Barthes, R. 1984 A Câmara Clara, Nova Fronteira. Rio de Janeiro.

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Em complemento ao ensaio de Luís Rocha e testemunhando o referido, apresento 5 projetos patentes na exposição e que integram o respetivo catálogo.

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Nuno Silveira / Medos e sonhos

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Nuno Silveira, Medos e sonhos, 2016-18

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Uma janela. Alguém, com uma cabeça de abóbora azul, a tentar entrar pela janela.

Quando era pequeno tinha medo de ir à casa de banho à noite. Quando saía da cama e ia à casa de banho, via a janela e imaginava esta personagem.

Esta fotografia tem a ver com um medo que tinha na infância e que agora quero retratar.

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Dora Paula Dinis / Liberdade

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Dora Paula Dinis

Dora Paula Dinis, Liberdade, 2016-18

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Estou muito centrada em mim. Quero transmitir como vejo agora. Esta é uma foto com três momentos: um do passado, outro do presente e um do futuro.

Ao passado associo as cores intensas; no presente, sou eu na fotografia, a perda de independência, da autoestima e da alegria. O futuro sou eu a andar, em movimento, com novas ideias. Olhar para o Futuro. Gosto da cor para simbolizar a esperança.

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Júlia Silvestre / Beleza

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Júlia Silvestre

Júlia Silvestre, Beleza, 2016-18

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Trabalhei no mundo da aviação e, para mim, a viagem começa sempre à porta do avião. A postura que tiver à porta conta muito para o conforto dos passageiros, durante a viagem. Daí a importância de usar saltos altos. Dá uma postura de segurança.

Quando ceguei, não conseguia usar saltos altos. Agora aprendi a usá-los com a minha bengala e voltei a sentir-me mulher.

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Isabel Oliveira / Cegueira

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Ver com outros olhos-Isabel Oliveira

Isabel Oliveira, Cegueira, 2016-18

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Quis fotografar a minha cara com olhos de gato. Na brincadeira, digo que quando começarem os implantes de olhos, quero a minha cara com olhos de gato, para ver bem de dia e também de noite. Para ver tudo o que já não consigo ver.

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Ana Maria Lima / Memória

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Ana Maria Lima

Ana Maria Lima, Memória, 2016-18

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Quis retratar uma recordação do passado, porque o passado é mais bonito que o presente. Tenho saudades do passado, de quando a vida era mais alegre. Naquela altura, não tínhamos acesso a fotografias. Esta foi-me oferecida por um homem que andava na rua, de máquina às costas. O homem até tinha jeito.

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Pode ver sobre a exposição “Ver com Outros Olhos”, patente na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, de 22 de setembro a 12 de novembro de 2018, no Fascínio da Fotografia, aqui.

Pode ver o catálogo “Um olhar sobre o nada”, no Fascínio da Fotografia, aqui.

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Colaboração remetida por Luís Rocha (texto).

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