“O LONGE E AS IMAGENS” OU REFLEXÕES SOBRE A IDENTIDADE – 1
A exposição O LONGE E AS IMAGENS está patente em Lisboa, no 5d Creative Hub, na Rua 2 da Matinha, Lote A, piso 5 D, de 15 de setembro a 3 de outubro de 2018. Na finissage, lançamento do catálogo (18:00-22:00).
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A exposição ‘O Longe e as Imagens’ apresenta 17 projetos, dos quais dois em filme, dos alunos da Pós-Graduação em Discursos da Fotografia Contemporânea, ano 2017-2018, da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.
Nesta publicação e na próxima faço uma apresentação dos diferentes projetos, nesta com o texto de Rogério Taveira, na próxima com o de João Seguro.
Estas séries são reflexões profundas e muito interessantes, mostrando algumas novos caminhos da fotografia portuguesa. Poderíamos dizer que são reflexões sobre a identidade, através de diferentes abordagens.
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Cartaz da exposição
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Rogério Taveira, Coordenador da Pós-Graduação, escreve na introdução à exposição:
Gosto de pensar que a fotografia é uma forma de habitar.
Para ser habitada deve, primeiro, ser construída. Deve obedecer às regras da boa construção. Aquela que deve permanecer para que nos possamos “de-morar” nela. Edificar uma imagem é construir uma possibilidade. Uma possibilidade que devemos cultivar e proteger, habitualmente. Para que fotografar possa então ser uma arquitectura do pensamento da imagem. Mas, como na arquitectura das pedras ou do betão, temos de começar por indagar o que é habitar para que possamos construir com solidez conceptual e material.
George Perec em Espèces d’espaces trabalha o espaço a partir da banalidade da vivência quotidiana. Viver, para ele, é “passar de um espaço para outro, enquanto fazemos o melhor possível para não esbarrar em nada.”1 Por isso o espaço é, para ele, aquilo “onde a visão tropeça”2: sem obstáculos, tijolos, ângulos ou pontos de fuga o nosso olhar não vê nada. O nosso olhar é então convocado por obstáculos. Idiossincráticos. Uma parede pode ser uma mãe ou um inimigo. Uma habitação tal como uma página pode estar cheia ou vazia. Os signos habitam a página, percorrem-na 3.
Mas as dúvidas continuam sobre o que é o habitar: “Habitar um lugar é apropriar-se dele? O que é apropriar-se de um lugar? A partir de que momento um lugar se torna realmente nosso? É quando pomos os nossos três pares de meias de molho numa bacia de material plástico rosa?”4
A questão central parece situar-se então na forma como nos apropriamos de um lugar. Como nos de-moramos nele. Como construímos obstáculos. Como circunscrevemos o aberto de possibilidades a apenas uma. Uma imagem. Uma bacia de plástico rosa com três pares de meias de molho.
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Gosto de pensar que a fotografia é uma forma de habitar.
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1 Perec, Georges (2000) Espèces d’espaces, Paris, Galilée, 1974, p.16. “Vivre, c’est passer d’un espace à une autre, en essayant le plus possible de ne pas se cogner.”
2 Idem, p.159. “(…) ce sur quoi la vue bute”.
3 Idem, p.19. “A Página” inicia-se com uma epígrafe de Henri Michaux “J’écris pour me parcourir”.
4 Idem, p.50. “Habiter un lieu, est-ce se l’approprier? Qu’est-ce que s’approprier un lieu? À partir de quando un lieu devient-il vraiment vôtre? Est-ce quand on a mis à tremper ses trois paires de chaussettes dans une bassine de matière plastique rose?”
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ALFREDO M. PONTES, SAMYNHÉ
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A partir do arquivo fotográfico do Ponto de Cultura Horizonte Circular (Alagoas, Brasil), o filme “Samynhé” (2018, 14 min.), através de processos colaborativos, aborda questões acerca da imagem e da preservação da memória coletiva do grupo indígena brasileiro Kariri-Xocó.
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CELINE SALAS DIAZ, TRANSFUNDIR
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Retratos de um diálogo ritualístico entre o corpo e a natureza sob a forma de interações performativas. Este projeto pretende captar a materialidade e sensorialidade da relação entre corpo e espaço — Analogia esta que se desdobra pela interação — ligação; indivíduo — meio.
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EUGÉNIA BURNAY, PROVA NÃO CONCRETA
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Prova não Concreta, trabalha a auto-representação através da identificação corporal. Parte da ideia que o corpo se torna cada vez mais particular pela acumulação de características que vão aumentando consecutivamente com o passar do tempo. Assim, começa por trabalhar em propriedades básicas de identificação, como a impressão digital, até às “falhas” que surgiram com o passar do tempo e se tornaram características identitárias (como por exemplo, um dente partido).
O título relaciona-se com os métodos de identificação criminal e forense embora revele a sua subjectividade e ausência de carácter científico.Também pretende trabalhar a questão do aparato e a relação da fotografia com a máquina. Explorando diferentes tipologias e contextos da imagem fotográfica, assumindo a ligação da fotografia com a máquina e a consequência desta, que se revela na diversidade da formalidade das imagens.
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FERNANDA MAFRA, AQUILO QUE SOBRA
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Há uma lenda oriental que diz que todos nós temos um fio vermelho invisível amarrado em nossos tornozelos, e que esse fio tem como função unir pessoas que estão predestinadas a relacionarem-se, não importam as circunstâncias. O fio pode esticar-se, emaranhar-se, mas sempre estará ligado àquelas pessoas, por mais que as relações terminem.
Baseando-se na lenda, a autora materializou o fio vermelho para falar sobre o que envolve o processo de adaptação em um lugar estranho, longe de casa, e das nuances que fizeram a estranheza transformar-se em algo novo.
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INÊS DE LIMA TORRES, LOVE IS A PARALLAX
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Num jogo breve de associações em tons de azul, o corpo funde-se com o espaço, onde este se impõe e subtrai. Nesta dinâmica gera-se uma atmosfera de memória e romance diarístico, onde o que parece próximo se torna simultaneamente anónimo.
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(…)
Perspective betrays with its dichotomy:
train tracks always meet, not here, but only
in the impossible mind’s eye
horizons beat a retreat as we embark
on sophist seas to overtake that mark
where wave pretends to drench real sky.
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(Excerto do poema Love Is a Parallax de Sylvia Plath)
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JOÃO VIEGAS, STILL UNTITLED
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A noite enquanto espaço de experimentação e descoberta, as múltiplas máscaras em que o Eu se multiplica e transforma na procura de prazer e identidade. Retratos íntimos, entre clubes noturnos e quartos, de setembro de 2017 e Junho de 2018.
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KACAU OLIVEIRA, ANCILA DO PAPEL À ABSTRAÇÃO
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De natureza teórica e prática, este projeto consiste no conceito de “amplitude”, abordado enquanto imagem para o percurso precário e acidentado da construção e materialização da obra artística na contemporaneidade.
A investigação através da imagem macro, leva a pensar nos possíveis escapes que se apresentam num contexto de deslocamento; pensar o próprio deslocamento no contexto de criação, procurando assim compreender a produção de arte enquanto um continuum entre estar no mundo e o fazer arte. Abriu-se nessa abordagem, uma tensão entre a presença e a ausência do corpo na imagem e suas formas, construindo um plano imagético.
Trata-se, ainda, de explorar o espaço e o tempo como via para processar a experiência da dobradura de papel na sua dimensão não apenas de passagem, mas de inevitável colaboração (in)visível e de crescente transformação.
O manuseio artístico da amplitude, simultaneamente como imagem abstrata, como vivência concreta, opera aqui enquanto gatilho para uma singular disponibilização do objeto à experiência do espaço, do tempo e do estar no mundo: é a imensidão que o objeto sofre mudança na escala.
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MA HAIQUAN, SENTIDOS
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Este projecto resulta de um novo interesse a partir da fotografia de paisagem e retrato que o autor já produzia. A chegada a Portugal e, sobretudo, a deslocação diária em transportes públicos veio suscitar um interesse pela fotografia de rua que se concretiza neste trabalho.
A construção de um olhar sobre a banalidade diária retira indivíduos e situações desse contexto colocando-os em novos planos relacionais.
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MARIANA MARTINS DE OLIVEIRA, EFFUSUS
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Effusus é um projecto de trinta fotos instax-wide.
Estas fotografias, são símbolos e provas únicas desta paisagem, também elas são mutáveis. Entre o real e o imaginário existem limites inatingíveis, no presente.
Este trabalho representa o questionar do real através das próprias imagens, etéreas, um mundo em microcosmo. É a objectificação da harmonia e da melancolia de ver algo pela última vez — o retrato das barreiras entre o homem e as suas questões cruciais sobre a condição humana e a sua existência, da consciência de si mesmo e como ser espiritual.
É a personificação e a maleabilidade do tempo, numa imagem ideal de natureza pre-existente na imaginação. As imagens como pequenos edifícios de memória, criados através de um objecto sensível, de singularidade física.A materialidade deste trabalho, reflecte a transitoriedade daquilo que a autora fotografa – a paisagem em constante mutação; a água que passa pelo rio e que nunca volta a passar no mesmo sítio, as plantas que fazem o seu ciclo de vida a um nível sistemático e rítmico, em função das estações do ano. Um modelo de fotografia que vai atrás da ideia de ciclo e precariedade do real, tanto a nível paisagístico como em termos de suporte fotográfico.
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2018.
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Os aspetos da exposição são de António Bracons; as fotografias individuais, dos respetivos autores. Os textos são dos autores, retirados da folha de sala.
Pode ver os restantes projetos aqui.
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