JOÃO LEONARDO, ENTRE PEDRAS, 2015

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João Leonardo

Entre Pedras

Fotografia e texto: João Leonardo / Design gráfico: Bruno Rodrigues

Edição do Autor / Outubro . 2015

Português / 21,6 x 25,7 cm / 144 págs.

Cartonado, plastificação mate

ISBN: 9789892060934

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Joao_Leonardo-Entre Pedras (1)

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As imagens não são um tesouro que, para ser descoberto, obrigue a esquadrinhar o mundo; são precisamente o que está à mão onde quer que o olhar se detenha.”

Susan Sontag

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João Leonardo é natural de Gouveia (1955), neste livro retrata as vivências da aldeia de Fatela, do próximo concelho do Fundão, uma aldeia essencialmente rural, onde os habitantes dedicam-se aos campos e aos animais. As casas são de pedra, de granito da região.

O registo das fotografias foi acompanhado de longas horas de conversa, de almoços e merendas partilhados, conhecendo as pessoas, as histórias, as vivências da aldeia.

As fotografias mostram as pessoas e os animais, nas suas atividades diárias e em momentos de festa. Cada imagem está identificada com o nome dos representados.

Este livro foi publicado por ocasião “dos 60 anos do autor, foi feita a par do retrato a 60 residentes com mais de 60 anos.” Esses retratos constituem a exposição “Retratos do tempo!”, que entregou à aldeia de Fatela em 31 de Outubro de 2014, em instalação permanente na sua Junta de Freguesia.

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Escreve o autor:

Pisar as calçadas da aldeia e entrar pelo campo dentro, em caminhadas perdidas, são uma natureza escondida, decerto – adiada, talvez.

Não me liga qualquer raíz a esta aldeia; criei, ou descobri, isso sim, este gosto inato pelas pedras, pelas casas, pelas ruas, que, em qualquer sentido que se caminhe, vão dar ali – ao campo; nascido na serra, depois uma fazenda no mato em Angola com “outros” meninos, o melhor colégio e o miúdo entre meninos, um seminário com os primeiros caminhos feitos entre gente muito humilde e os primeiros serviços cívicos, uma faculdade em tempos conturbados, um bairro camarário e os primeiros trabalhos no colectivo, uma urbanização de pequena/média burguesia e o deserto das pessoas, o viver do campo semi-urbano; mas sempre, os sonhos de sempre, nunca muito urbanos; aqui e agora, esta aldeia, por circunstância – esta aldeia, como outra, como qualquer outra.

Aqui, na aldeia, os campos têm sempre, sempre, gente, conversas intermináveis, alguém que conhece alguém, sem faltar uma estória para contar – da vida que corre entre pedras, de segredos que se escondem e contam entre pedras. Gente que são pessoas, não transeuntes, pessoas que têm crianças, poucas, velhos, muitos, gente de olhares curiosos, olhares que acompanham quem não disfarça a pele do urbano – é sempre muito interessante a sabedoria com que, supondo com graça a minha ignorância, explicam factos e processos de trabalho, as labutas e os horários dos campos, contam estórias, contam relacionamentos de família, que descubro, surpreendentemente, ali – na cerveja ao lado.

Não se pense que o tom maior desta sinfonia de conversas seja o lamento – não; há que saber distinguir entre o “lamento” e o “contar”; que a vida foi e é entrelaçada de regras e dificuldades, em maioria alheias ao seu modo de estar – vêm de lá, de “lá de fora”. Não, o tom maior são as vidas contadas com estilo, por vezes de cronista do reino, por vezes de aventura, por vezes, sei lá, de “olhe, sabia que…?”; enfim, a clave desta melodia nem foi de Sol, nem de Fá; foi sempre o olhar sorridente, sempre a simpatia para com quem ouve – por vezes, talvez, a ternura.

Este livro é escrito, em primeiro lugar, para os habitantes da aldeia – desta aldeia – que, envolvidos, permitiram ser fotografados e alimentaram tantas conversas, como que a “fazer acontecer” uma memória visual dos seus espaços físicos e afectivos, por vezes íntimos; e, porque o livro quer falar de “pessoas” e não de “transeuntes”, quis chamá-los a todos pelos nomes, legendando cada fotografia – é para estes, os “envolvidos”.

Mas, também, este livro é desenhado para os amigos, fotógrafos ou não, amantes de fotografia, amadores ou nada disso, críticos e praticantes, amigos que me deixam, quando há rolo, fruir da sua presença, aprender de tudo e a fazer Fotografia; amigos com olhar à maneira do fotógrafo “que escreve com as imagens”, ou à maneira do comum observador daquelas mesmas imagens – deles quero a crítica ‘des-envolvida’.

Quero que este livro seja, mesmo, da vida que corre, dos segredos que se escondem – e que se contam “Entre pedras”.

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Sobre a aldeia de Fatela, refere João Rocha Cheira em “Subsídios para uma Monografia da Fatela” (1980):

Ao que parece é palavra árabe e significa vitória de Alá.

Os árabes invadiram a Península Ibérica em 711 da nossa Era, destruíram a Covilhã e bateram-se possivelmente aqui; daí talvez a palavra.

As gentes da região chamavam-lhe Covilhã-Velha, o que representa um atestado de alta antiguidade uma vez que a Covilhã, que todos conhecem, vai além do século VII d.C.

Segundo a tradição, a Covilhã-Velha foi construída em tempos imemoriais por artífices que, como todos, ao anoitecer, descansavam e dormiam.

Mas, durante a noite, a ferramenta sumia-se, para aparecer, na manhã seguinte, na Covilhã. E isto, uma, duas e tantas vezes, que desanimaram abandonando a obra.

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João Leonardo, Entre Pedras, 2015

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João Leonardo Nasceu a 5 de Outubro de 1955, em Gouveia – Guarda; a vida vai desenrolar-se por diversos mundos – Angola, Lisboa, Santarém, etc.

​Depois da formação académica, e de alguma ligação às questões jurídico-laborais, a vida profissional prossegue ligada aos Sistemas de Informação, até 2014, área onde, respondendo sempre a novos desafios, fui desempenhando as funções inerentes à informática de gestão, às de consultor e de direcção; hoje, procuro empenhar-me em projectos que permitam “contar” pela fotografia.

​O primeiro contacto com a Fotografia aos 12 anos e a forte atracção pela imagem cedo haviam de me conduzir ao autodidactismo. Com o primeiro emprego “a sério”, frequentei um ano de formação no IPF/Lisboa. A vida profissional e familiar, contudo, colocam a Fotografia no seu lugar “comum” – ler e fotografar para dentro.

​Em 2002, casei a vida com outra fotógrafa, reiniciando a actividade fotográfica numa atitude mais atenta e crítica; assim, recentrei a Fotografia no plano da paixão, da reaprendizagem, da atitude perante o que nos rodeia – as fotografias como linguagem na identificação e escolha de caminhos.

Hoje, tenho como ocupação exclusiva a Fotografia, tendo concluído a fase de pós-gradução do Curso de Fotografia do Ar.Co – Lisboa.

​Como vou juntando imagens no caminho, pelo prazer de olhar e ir ali contar, procuro as estórias conversadas com gentes e os seus arredores, convertendo a preto e branco, e, se possível, pintando com humor e em ‘close-up’.

​Se a vida permitir ”… há tanto para fazer!”.

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Pode conhecer melhor o autor e a sua obra aqui.

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