DANIEL BLAUFUKS, HOUVE UM TEMPO EM QUE ESTÁVAMOS TODOS VIVOS.
Exposição de vídeo-instalação e fotografia, na galeria Carlos Carvalho Arte Contemporânea, na Rua Joly Braga Santos, Lote F R/C, em Lisboa, entre 19 de abril a 19 de maio de 2018.
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2018
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nós que ainda estamos vivos somos irreais aos olhos dos mortos”
W.G. Sebald, Austerlitz (2001: 185)
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Três caixilhos apresentam 7 x 7 fotografias, cada um. 3 é o número que simbolicamente representa unidade (um único Deus; Deus uno e trino para os cristãos) 7 é o número que simbolicamente representa a totalidade. 7 x 7, a totalidade da totalidade.
As fotografias são da cúpula do Panteão, de Roma, um edifício único e que vive quase 19 séculos depois de ter sido construído: a cúpula (semi-)esférica, perfeita, o óculo central aberto deixa o edifício com ar, com luz, com sol, com chuva. As fotografias de Blaufuks centram-se na luz, no sol que entra e se projeta. As fotografias repetem-se nos 3 caixilhos: a cor, a preto e branco, em negativo cor.
Do mesmo modo, três projeções vídeo, tangenciais, da cúpula, girando e abrindo em torno do seu óculo, numa continuidade de formas, como um caleidoscópio, as mesmas imagens nas três, numa continuidade. A cor. A preto. Em negativo.
Na sala contígua, a que se acede por uma passagem, um quadro apresenta uma imagem, em palavras, que dá o nome da exposição:
houve um tempo em que estávamos todos vivos.
É uma reflexão sobre o tempo, sobre a presença e a ausência, sobre a vida e a morte. Sobre a eternidade.
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Sobre a exposição escreve Daniel Blaufuks na folha de sala:
Esta exposição parte de um sonho que me apareceu durante uma noite em Roma.
Depois de visitar em vários dias seguidos, e por vezes mais do que uma vez em cada dia, o Panteão, houve uma manhã em que acordei com a frase que dá o título à exposição na cabeça e entre os lábios. Durante vários minutos, ainda deitado, repeti sucessivamente, como um mantra, a sequência de palavras HOUVE UM TEMPO EM QUE ESTÁVAMOS TODOS VIVOS, tentando decifrar o que isso significa exactamente. Recordei então que tinha encontrado neste sonho vários mortos e que estes pareciam, obviamente, vivos, como se eu tivesse regressado a um tempo em que, de facto, estávamos todos vivos.
Este tempo só existe num estado de graça, que corresponde a uma infância feliz, em que ainda não perdemos ninguém demasiado próximo e em que nem sabemos bem o que é a morte. Sentimo-nos invencíveis, imortais e eternos. Esse estado acaba, muitas vezes abruptamente, algures entre a infância e a juventude, para uns, mais infelizes, mais cedo, para outros, cheios de sorte, mais tarde. Para muitos, este período de inconsciência não chega sequer a existir, estes são os mais desafortunados, e não são poucos.
Claro que este tempo em que estávamos todos vivos é uma fantasia, um sonho impossível, porque todos os tempos existem em transição e em deslocação. Queremos agarrar esse tempo, porque também desejamos agarrar essas pessoas, que tanta falta nos fazem, e porque também nós entretanto já sabemos que não somos imortais e que há de mesmo existir um tempo em que estaremos todos mortos. Mas este tempo também pode corresponder apenas a um exacto núcleo de pessoas, uma família, uns amigos, uma fotografia de escola ou de um batalhão, de uma comunidade, em que, um a um, vamos riscando os nossos companheiros, esperando a nossa vez, e nunca sabendo quem nos riscará a nós. Um amigo disse-me, há uns tempos, que existe uma altura na vida em que começamos a pensar quem irá ser a pessoa que mexerá nas nossas gavetas quando morrermos, que irá vasculhar na nossa intimidade, que já não fará mais sentido então, assim como os nossos objectos deixarão, no mesmo instante, de ter aquela específica memória privada, que os parece tornar tão valiosos aos nossos olhos. Sem função e sem memória, sem valor de raridade, serão como as fotografias que se vendem ao desbarato na feira da ladra, cujo actual proprietário nem se preocupa em as cobrir do sol do meio-dia.
O panteão em Roma, que é o edifício mais antigo, apesar de ter sofrido transformações, ainda em funcionamento, era um templo, acabado pelo Imperador Adriano, e supostamente dedicado a todos os deuses romanos, como a sua denominação de origem grega indica. Mais tarde, com a unificação da crença num único deus, o panteão passou a ser uma igreja e um espaço de veneração de mortos, que, em vida, algo tinham feito para merecer esta imensa honra. Desde a Revolução Francesa em que a igreja de Sainte-Geneviève foi transformada num monumento secular para os mortos, com o nome de Panteão, que essa utilização se tornou comum em vários países. O pintor Rafael, falecido ainda jovem, está precisamente sepultado no Pantheon de Roma, perto dos reis unificadores de Itália, como se os séculos que os separaram em vida pouco ou nada representassem no tempo infinito da morte.
Assim as minhas visitas ao panteão e os meus mortos foram, de certa forma, reunidos através do meu sonho romano. Tentei celebrar isso com uns apontamentos fotografados e filmados da luz que atravessa há séculos este edifício comovente, construído em torno de um grande óculo a céu aberto, por onde cai a chuva e por onde o sol vem marcar as horas contornando as paredes em redor. Consegui abstrair-me dos incontáveis turistas e assisti a uma missa no espaço esvaziado para o efeito. Olhei para o edifício e, consciente do seu imenso passado, tentei-o projectar como uma nave espacial em direção ao futuro. Gravei e trabalhei o som da horda de visitantes, que me recordou o ruído do exército romano ao ataque num filme americano que vi em tempos. Dei-lhe três leituras paralelas, abusando de técnicas fotográficas, simbolizando talvez as três diferentes religiões monoteístas que parecem, mais uma vez, se ter esquecido que veneram exactamente um mesmo D’us.
Curiosamente, no meu sonho, a maioria das pessoas eram pessoas próximas, mas distantes. Provavelmente não chegámos nunca a ter a conversa que deveríamos ter tido. Mas o que é que isso interessará no tempo que há-de vir?
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Ponta Delgada, Março de 2018
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Acompanha a folha de sala um ensaio de Sandra Camacho (Centro de Estudos Comparatistas – FLUL):
we who are still alive are unreal in the eyes of the dead
W.G. Sebald, Austerlitz (2001: 185)
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Dentro da prolífica carreira de Daniel Blaufuks existem temas / preocupações / obsessões que se evidenciam: a viagem, o exílio, a memória, a vida e a morte. Não obstante, o artista nunca se esquivou a explorar novas técnicas, formas ou até tecnologias. Em Houve um tempo em que estávamos todos vivos encontramos esta dupla natureza, um tema que facilmente remete para obras passadas, um formato que poderá ser visto como um salto (mas talvez até não o seja) nas explorações do artista.
Num regresso ao trabalho em vídeo, Blaufuks apresenta nesta exposição três visões simultâneas do interior da cúpula do Panteão em Roma. Com construção datada do final do reinado de Trajano (98-117) e o início do reinado de Adriano (117-138) o Panteão, como o nome indica, era a casa dos vários deuses do panteão Romano. Com a sua cúpula de caixotões, e o seu perfeito equilíbrio entre esfera (cúpula), cilindro (rotunda) e cubo (vestíbulo com segunda elevação), o Panteão é um feito arquitetónico que sobrevive ainda hoje. Não apenas isso, sobrevive enquanto lugar de culto. O óculo central aberto aos céus, a única fonte de luz no edifício, convida os visitantes ao espaço interior. Através dele é permitida entrada a vento e chuva, mas é o sol que tem primazia. O seu movimento diário transforma o interior do Panteão enfatizando ora um nicho ora outro, porém é apenas ao meio-dia de 21 de Abril, dia de aniversário da cidade de Roma, que a entrada do templo é iluminada. Blaufuks examina em Houve um tempo em que estávamos todos vivos esta transitoriedade ao filmar e fotografar apenas o interior da cúpula, eliminando qualquer outra referência temporal. O foco é o óculo e é este o ponto no qual todos os efeitos visuais, por vezes extremos, estarão centrados.
Houve um tempo em que estávamos todos vivos parte de uma frase colhida num sonho do artista durante uma sua estadia em Roma, após visitas repetidas ao Panteão, sonho esse em que a fronteira entre a vida e a morte se fazia ténue. Talvez não seja surpreendente a associação que Blaufuks faz do Panteão com a morte ao apresentar uma frase que define esta última pelo seu oposto: pelo momento em que todos estavam vivos. Com a transição para o Cristianismo e o abandono dos antigos deuses, o Panteão foi doado em 609 ao Papa Bonifácio IV, que o dedicou à Virgem Maria e aos Mártires. Aqui seriam mais tarde sepultados ilustres como o pintor Rafael em 1520, exemplo posteriormente seguido com a criação dos diversos panteões nacionais. A fronteira explorada por Blaufuks entre vida e morte no espaço que é o son(h)o poderá também remeter-nos para outros momentos de transição, para outros projectos. Em Terezín (2007), o artista apropria-se dos poucos excertos sobreviventes do filme de propaganda Nazi realizado em Theresienstadt, tingindo-os a vermelho e desacelerando-os. O efeito produzido é tal que as figuras, com a tensão dos seus movimentos enfatizada, tornam-se espectros. Também aqui houve um momento em que todos estavam vivos, no instante anterior àquele definido por Roland Barthes em que o espectador se apercebe de que estas pessoas estão mortas e vão morrer.
Não será apenas na temática que alguns paralelos poderão ser encontrados entre projectos passados e o novo trabalho apresentado em Houve um tempo em que estávamos todos vivos. Também a nível formal, com a sua exploração de limites visuais e fílmicos, poderemos encontrar afinidades. No entanto, a obra que Daniel Blaufuks agora nos apresenta será talvez das mais visualmente experimentais do artista. Composto por três painéis fotográficos e três projecções de vídeo, simultâneas e síncronas, da mesma sequência, verificamos uma abstracção do interior da cúpula do Panteão. Numa das projecções deparamo-nos com os tons naturais da pedra e do cimento iluminado.
Este não é um plano fixo: a câmara move-se, a imagem divide-se em rotações e volta a unir-se como se de um caleidoscópio se tratasse. Estes movimentos repetem-se nas outras duas projecções, desta vez a preto e branco e em inversão de cores. Através destas técnicas o espaço côncavo da cúpula parece sofrer um achatamento, os caixotões estão agora a um mesmo nível, assemelhando-se mais aos nichos encontrados em columbários do que a elementos decorativos. Ao mesmo tempo, as rotações contribuem para um efeito de desorientação, amplificado pelo som que acompanha os vídeos. Apesar de ter sido capturado por Blaufuks durante as suas visitas ao Panteão e tratar-se do ruído produzido pela massa de turistas que por aqui passa, através do tratamento que o artista lhe dá o som deixa de assemelhar-se a algo orgânico, aproximando-se sim de um zumbido mecânico.
Também no conjunto fotográfico verificamos a utilização de técnicas fotográficas exageradas: o grão marcado, a inversão de cores, o preto e branco contrastante. Centrando-se no óculo, cada painel é composto por uma sequência fotográfica que reflete as variações de luz geradas pela movimentação solar. Assim, o efeito produzido aproxima-se do de um relógio solar. É talvez aqui, com o regresso aos astros, que o projecto de Blaufuks mais se relacione com o desígnio original do Panteão enquanto ligação da terra aos céus; enquanto espaço onde a vida e a morte se mesclam.”
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