JOÃO SEGURO, DISJECTA. SALA DE LEITURA. READING ROOM, 2017

A exposição “A terceira margem e as ruínas circulares”, de João Seguro, encontra-se patente na Galeria do Parque, na Praça da República, em Vila Nova da Barquinha, de 17 de fevereiro a 27 de maio de 2018

.

.

.

João Seguro

Disjecta Sala de leitura. Reading Room

Fotografia: João Seguro

Vila Nova da Barquinha: Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha (?) / 2017

Português, inglês / 56 págs., não numeradas

Agrafado

.

.

Joao_Seguro-Disjecta (1)

.

.

Um livro de artista, como que um caderno. Agrafado. Sem mais texto ou explicação que o referido na última página.

As imagens seguem-se, impressas a preto e branco. Melhor, em tons de cinza: de cinza claro a cinza escuro, como antevendo uma precaridade, um não-definido. Reforçada pelo acabamento: agrafado, a capa no mesmo papel do interior. E um texto, muito breve, na contracapa:

Sala de leitura – disjecta é um registo fotográfico casual feito em duas curtas sessões num armazém utilizado para guardar todo o tipo de materiais e equipamentos públicos. Essas sessões de registo tiveram lugar durante uma residência artística no C.E.A.C. em V.N.B. no verão de 2017.”

O próprio termo disjecta, provém da expressão disjecta membra, derivada de disiecti membra poetae do poeta romano Horacio: “fragmentos dispersos”, referindo-se a fragmentos de poesia, manuscritos e outras peças literárias ou culturais, incluindo fragmentos de cerâmica antiga.

Um armazém – do antigo INGA (Instituto Nacional de Investigação e Garantia Agrícola) – diz-nos João Pinharanda no texto que acompanha a exposição, e no interior, um conjunto de bens, objetos, coisas, restos, fragmentos, amontoados, aparentemente abandonados.

O testemunho de uma atividade ou as sobras de uma atividade: fragmentos dispersos ou dispersados.

.

João Seguro, em 2017, trabalhou algumas semanas nas Residências de Verão em Vila Nova da Barquinha. Deambulando pela vila e margens do rio em busca de objectos inesperados encontrou, no armazém do antigo INGA (Instituto Nacional de Investigação e Garantia Agrícola), o mais fecundo arquivo para realização do seu presente trabalho. A partir dele João Seguro criou um livro, que regista fotograficamente a sua viagem a esse mundo inacessível, e as peças de escultura-instalação que apresenta nesta exposição.

O referido armazém é um local em perda, um lugar de desperdício, desertificado de acção humana e onde os objectos se apresentam sem futuro. A tarefa do artista pode aqui assimilar-se à de uma campanha arqueológica: João Seguro sinaliza e recolhe dados sobre uma realidade (sociedade) desaparecida ou em vias de desaparecimento ou que se pode encenar como tal.

Tudo o que ali existe (carteiras, cadeiras, pranchas de construção civil, soalhos com marcações desportivas, mobiliário escolar, de escritório, desportivo, edições, …) integrou uma actividade social colectiva (ginásios, escolas, feiras, festas, campanhas cívicas, …) extinta ou que prossegue de outra maneira, com outros materiais e outros objectos. Uma entropia evidente domina o conjunto: numas zonas, os materiais estão bem arrumados, noutras, são simplesmente atirados ao acaso; uns, estão em perfeitas condições de conservação, outros, em degradação acelerada.

Um questionamento económico, sociológico ou cultural interessar-se-ia pela origem e destino destes materiais. João Seguro, não esquece estas dimensões mas, no seu questionamento artístico, interessa-se antes por formas e volumes, materiais e objectos, padrões e texturas. E, através desse interesse, questiona uma realidade escondida do público, que podemos evocar como sendo uma “terceira margem” do real e que se oferece como uma “ruína circular”, no sentido de não ter nem princípio nem fim. Sem esconder as origens e os contextos em que tudo foi produzido, consumido, destruído e abandonado. Guiado pelo amor das formas, pelo fascínio dos objectos, pelo (re)conhecimento e citação da história da arte o artista regista recolhe, reorganiza, reproduz, readapta e volta a apresentar-nos alguns desses materiais e objectos. O passado imediato contido naquele depósito arqueológico é-nos devolvido através de objectos dispersos, sem necessidade de integrar uma ficção coerente o que acentua a tarefa melancólica deste inquérito subjectivo.”

João Pinharanda

Paris, 4 de Fevereiro de 2018

.

.

 

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

João Seguro, Disjecta, 2017

.

.

Um conjunto destes livros de autor encontra-se no parapeito da janela da Galeria do Parque, que se debruça sobre o Parque de Escultura Contemporânea do Almourol, junto ao Tejo, em Vila Nova da Barquinha; integra a exposição “A terceira margem e as ruínas circulares”, de João Seguro.

.

27545574_2127750900584777_1160025645723132002_n

.

As obras da exposição foram, em grande parte, produzidas com materiais recolhidos naquele armazém.

João Biscainho, na revista Contemporânea de abril de 2018, escreve:

“O título da exposição resulta do somatório dos títulos de duas obras literárias, “A Terceira Margem de Um Rio” de João Guimarães Rosa e “As Ruínas Circulares” de Jorge Luis Borges. Ambos os contos têm em comum um rio como cenário. A collage das obras literárias, obriga a uma releitura sobre a perspectiva da continuidade de um texto para o outro. No primeiro conto, um homem abandona tudo na sua vida e entra no leito de um rio, onde permanece dentro de uma canoa e se mantém afastado do mundo, na história de Borges, um xamã que navega numa canoa desembarca em sofrimento na margem de um rio e aí encontra as ruínas de um antigo templo de forma circular. Como num cadavre exqui, a transposição de uma história para a outra, cria uma nova narrativa, uma alegoria da experiência do artista que há largos anos tem vivido e trabalhado entre Lisboa e esta região do Médio Tejo, um percurso feito vezes sem conta ao longo das suas margens e que culmina agora com a residência e a exposição.”

A exposição, produzida no âmbito das Residências de Verão 2017 em Vila Nova da Barquinha, comissariada por João Pinharanda, no âmbito da parceria da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha com a Fundação EDP para a programação artística do Parque de Escultura Contemporânea Almourol, encontra-se patente de 17 de fevereiro a 27 de maio de 2018, na Galeria do Parque, na Praça da República, em Vila Nova da Barquinha.

.

.

 

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

António Bracons, Aspetos da exposição, 2018

.

.

.

João Seguro nasceu em 1979, vive e trabalha em Lisboa.

É licenciado em Pintura pela F.B.A.U.L. em 2003, Mestrado em Artes-Plásticas pelo Chelsea College of Art & Design, da University of the Arts London, em Londres em 2004. Em 2005, foi nomeado vencedor do prémio BES Revelação, Banco Espírito Santo / Museu de Serralves, Porto, tendo realizado, em 2004, uma residência artística na Budapest Galéria, em Budapeste, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.

Realizou entre outras as seguintes exposições individuais: “Um dia de chuva”, Appleton Square, Lisboa, 2013; “Um dia não são dias/Once in a blue moon”, Sala do Veado, Museu Nacional de História Natural e Ciência, Lisboa, 2013; “Sobrecapa/subtexto”, Galeria 102-100, Castelo Branco, 2011; “O desconhecido desconhecido” na Marz-Galeria, 2010; “Six degrees of Separation”, na Marz-Galeria, 2008; Project Room, Centro de Artes-Visuais, Coimbra em 2005 e “360º Avalanche”, Lisboa 20 Arte Contemporânea, Lisboa (2005); e das colectivas “O MAR: muitas marés, uma única vaga de descontentamento”, BES Arte & Finança, 2010; 11ème Festival International Bandits-Mages, Château d’eau – Chateau d’art, Bourges, 2009; BES Revelação, Casa de Serralves, Porto, 2005.

.

.

.

O artigo de João Biscainho, na revista Contemporânea de abril de 2018, pode ser lido aqui.

.

.

.