ABBAS, FOTÓGRAFO DE GUERRAS E RELIGIÕES (1944 – 2018)

Morreu Abbas (Irão, 1944 – ?, 25.04.2018)

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Abbas, Students of the Al Azhar college in Jakarta, Indonesia attend Friday prayer in the auditorium in 1989 – At sunrise, a fisherman in his boat on the river Niger, Mali, Bamako,1994 – A Christian holds a crucifix made in the Dogon style in Bugudunjuru, Mali, 1996 – A woman raises her Bible as a flag, before while listening to a sermon in Havana, Cuba,  1997 – Young and old Hasidic Jews congregate in Jerusalem. – Guru Hampul Sonsa is the founder of Samson Palace, a commune dedicated to the preservation of the 5 000 year old Korean culture, which worships ancient pagan gods, South Korea, Chan Hak Dong village, 1998 – Every Sunday, at dawn, priests of the Zion Church, from the Khayelitsha black township, take their newly converted congregation to the sea to be baptised through immersion, South Africa, Cape Town, 1999

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Eu não estou apenas a contar histórias sobre o que está a acontecer, mas a minha maneira de ver o que está a acontecer.”

Abbas

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A agência Magnum anunciou quarta-feira, 25 de abril de 2018, a morte em Paris do fotógrafo Abbas, nascido no Irão em 1944.

Thomas Dworzak, atual presidente da Magnum, escreveu:

Ele era um pilar da Magnum, o padrinho de toda uma geração de fotojornalistas mais jovens. Nascido no Irão e radicado em Paris, ele era cidadão de um mundo, cujas guerras, desastres e crenças tem documentado. O seu desaparecimento provoca-nos uma tristeza imensa. Que os deuses e anjos de todas as grandes religiões deste mundo que ele tão apaixonadamente fotografou o acompanhem.”

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Jean Gaumy, Abbas

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Abbas cresceu na Argélia, onde o pai foi líder da comunidade Baha’i, religião monoteísta que professa a união espiritual da humanidade.

Abbas terá descoberto a sua vocação para a fotografia, quando, em 1968, participou numa road trip em Nova Orleães, nos Estados Unidos. Foi aí que se tornou “um profissional”, confidenciou aos colegas da Magnum. Em 2017 escreveu que “Ainda criança, eu tinha uma imagem heróica do jornalista: viajava, ia à guerra, cobria os acontecimentos históricos.”

Passou seis décadas viajando pelo mundo, cobrindo guerras e revoluções no Vietname, Irão, Biafra, Bangladesh, Irlanda do Norte, Médio Oriente, Chile, Cuba, e na África do Sul durante o Apartheid.

Abbas, que começou a escrever e fotografar ao mesmo tempo, ingressou na Magnum em 1981, depois de ser membro da Sipa (1971-1973) e da Gamma (1974-1980). Tornou-se membro pleno da Magnum Photos em 1985.

De 1978 a 1980, Abbas fotografou a revolução iraniana, liderada pelo ayatollah Khomeini. Numa entrevista à BBC em 2017, descreveu esta experiência: “Eu sabia que esta seria a única vez na minha vida em que eu estaria não apenas preocupado com um evento, mas também envolvido em este evento, pelo menos no começo.”, descrevendo-se como um “historiador do presente”.

É para a História!”,

respondia Abbas, em farsi, àqueles que tentaram impedi-lo de fotografar. Diria à BBC:

Ao cobrir a revolução iraniana durante dois anos, apercebi-me que a onda de paixão religiosa provocada por Khomeini, longe de se limitar às fronteiras do Irão, iria expandir-se por todo o mundo muçulmano”.

Regressou ao Irão apenas em 1997, após um exílio voluntário de dezessete anos. No seu livro, “Iran Diary 1971-2002”, faz uma interpretação crítica da história iraniana, fotografada e escrita como um diário.

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Iran Diary

Abbas, Iran Diary 1971-2002, 2002

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O seu interesse pela religião surgiu da revolução iraniana e concentrou-se na ascensão do islamismo em todo o mundo. A sua obra “Allah O Akbar: A Journey Through Militant Islam” (1994) juntamente com a exposição que a acompanha, cobrindo vinte e seis países de quatro continentes.

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Abbas, Allah O Akbar: A Journey Through Militant Islam, 1994

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Este projeto veio a receber uma atenção especial após os ataques de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque.

A religião foi, pois, um dos seus temas preferidos, especialmente o judaísmo, o cristianismo e o budismo em todo o mundo.

Abbas passou então a explorar o cristianismo como um fenómeno político, ritual e espiritual através do livro “Faces of Christianity: a photographic journey” (2000) e da exposição itinerante que o acompanhou.

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Abbas, Faces of Christianity: a photographic journey, 2000

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Em 2000 inicia um projeto sobre o animismo, procurando entender como, num mundo cada vez mais moldado pela ciência e tecnologia, os rituais irracionais estavam a ressurgir. Viria a abandonar em 2002, no primeiro aniversário dos ataques de 11 de setembro, voltando-se para um projeto de longo prazo sobre o choque das religiões, acreditando que elas se definiam cada vez mais como ideologias políticas, tornando-se uma fonte de lutas estratégicas no mundo contemporâneo.

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Abbas, God’s I’ve seen: Travels among Hindus, 2016

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De 2008 a 2010, Abbas mergulhou no mundo do budismo e em 2013 com o hinduísmo, sempre com o mesmo olhar cético. O livro “God’s I’ve seen: Travels among Hindus” é o ponto culminante de seu trabalho sobre as religiões, uma exploração visual surpreendente do hinduísmo contemporâneo, que capta como o misticismo de antigos rituais é adaptado aos rituais e atividades hindus de hoje na Índia e em outros lugares. Interessou-se depois pelo judaísmo no mundo.

“O fotógrafo será sempre, para mim, aquele que escreve com a luz.”, diria. “Quando me perguntam quem são os fotógrafos que me influenciaram, digo Rembrandt, Picasso, Cézanne, Caravaggio, Velasquez”.

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Pode conhecer melhor a obra de Abbas, no site da Magnum, aqui.

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