MONTEIRO GIL, DOMESTIC ITINERARIES. ITINERÁRIOS DOMÉSTICOS, 2002
75.º aniversário de Monteiro Gil (Guarda, 14 de março de 1943)
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Monteiro Gil
Domestic Itineraries. Itinerários Domésticos
Fotografia: Monteiro Gil / Texto: Ana Palma, Monteiro Gil
Ponta Delgada: Galeria Fonseca Macedo / Junho . 2002
Português e inglês / 21,0 x 20,0 cm / 48 págs
Brochura
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A minha casa. O espaço onde moro, onde habito. O espaço dos afetos, das vivências. Das coisas que são ‘minhas’. Dos pequenos objetos que têm um significado especial.
Monteiro Gil fotografou a sua casa. O espaço de cada compartimento. O detalhe de uma peça, de um pormenor. A primeira a preto e branco. A segunda a cor, Polaroid SX70. A primeira num formato maior (28 x 28 cm), a segunda na dimensão intimista do formato reduzido da imagem Polaroid (8 x 7,8 cm).
A casa materializa-se assim nos seus espaços, nos seus momentos. No detalhe de uma jarra com flores ou dos vasos na varanda, de uma pequena peça de loiça ou o lençol na cama, a fruta sobre a mesa ou o relógio na parede. O imutável ou o momentâneo.
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Escreve Monteiro Gil sobre a sua casa, em “Caderno de pensamentos avulsos, 1993”:
Quando o corpo e o pensamento me doem saio das ruas e regresso a casa.
Percorrendo as divisões, uma após outra, sem qualquer ordem racional, olho as paredes, os móveis, os objectos, até me reconhecer em qualquer destes lugares.
Então paro de deambular e fico onde estou. No quarto, na cozinha, na sala ou no atelier, ou mesmo no corredor, tenho a sensação reconfortante de ter chegado à minha terra. A minha casa é a minha terra natal. Lá dentro, longe da cidade, fora das ruas, distante das pressas e das confusões, esquecido da violência e da desconfiança, da miséria e da opulência, liberto-me da doença das horase mergulho noutro tempo onde tudo vale a pena.
Dentro da minha casa, que é a minha terra, encontro os meus amigos, os do meu sangue, as caras que conheço e não tenho que temer. Encontro o silêncio que me ensurdece, a luz com que me espanto, a música de que me alimento.
Encontro protecção para as minhas fraquezas, esconderijo para as minhas vontades. Encontro a paz e a inquietude grávida de ideias. Posso sentir, posso lembrar…
Enfim, posso criar.”
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Sobre as imagens, diz Monteiro Gil:
A minha paixão pelos objectos vem de muito longe. Ela foi responsável, ao longo ods anos, poe diversas séries de trabalhos que marcaram e ainda marcam de forma indelével a minha actividade criadora.
(…)
Em 1992 comecei a fotografar sistematicamente a minha casa e os objectos que comigo nela coabitam, desenvolvendo este trabalho, “Itinerários Domésticos” (…).
Este é também, em última análise, um trabalho de reflexão e um exercício plástico sobre os objectos (coisas artificiais ou naturais) destacados nas fotografias instantâneas e o seu contentor (envólucro, caixa ou prisão) representado nas imagens a preto e branco. A arbitrariedade da escolha de pontos de vista e dos enquadramentos, as escalas de aproximação usadas nos diversos casos, bem como a livre associação de diversas polaroides realizadas para cada imagem a preto e branco, conferem ao trabalho características de sistema aberto, em construção, inacabado, capaz de engendrar outras soluções a explorar mais tarde e, a cada obra apresentada, características de obra única aproximando assim a fotografia a outras formas de expressão plástica como a pintura ou o desenho.”
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A abrir o catálogo, Ana Palma escreve sob o título “Itinerários Íntimos”:
“Seguindo o itinerário proposto, espreita-se um recanto que logo depois se traduz num pormenor. Aqui a voz do silêncio e a intensidade da luz conduzem o nosso olhar para a imagem. Numa perfeita sintonia incutem uma sensação de calma e harmonia.
Em cada ângulo descobre-se um espaço familiar, um lugar que não é habitual partilhar. Permite-se invadir a intimidade de alguém e, simultaneamente, evadir os nossos pensamentos imaginando os sons, os cheiros e as cores que diariamente coabitam.
É estranho! Vemos o rádio mas não há som; vemos candeeiros mas não há luz; vemos colheres mas não há sabor; vemos flores mas não há cheiro; vemos cadeiras mas não há ninguém… a solução mora no prazer de imaginar. Cada um de nós ouve a música, vê a luz, aprecia o paladar, sente o odor, vê quem quiser ver. Esta sinestesia permite prolongar a imagem, distorcê-la , metamorfoseá-la ao nosso sabor.
Ao longo das imagens o pormenor surge diluído na cor, contudo ainda que enfatize a frescura e a liberdade de movimentos, ele não é óbvio, não é singelo. Deixa-se no ar a curiosidade de desvendar o que não se observa. É o olhar atento e indiscreto de Monteiro Gil que deixa entreaberta uma porta para a sua intimidade conferindo ao trabalho um cunho bastante pessoal.
Passo a passo encontramos uma dicotomia entre o todo e a parte, uma dualidade entre o real e o verosímil. A magia da imagem enfeitiça o nosso percurso, ilude-nos. Perdidos? Não! Há sempre uma luz vinda de uma janela ou de um reflexo escondido que nos conduz, que nos inspira.
Aqui, além… em ti… sem ti… neste ou noutro lugar deambula-se na intimidade do outro, invade-se o alheio. Somos cúmplices da curiosidade do artista, entramos até onde o seu olhar permite. A cores… a preto e branco… “
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Monteiro Gil, Domestic Itineraries. Itinerários Domésticos, 2002
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Monteiro Gil nasceu na Guarda, a 14 de março de 1943, vive e trabalha em Lisboa. Da sua casa vê-se o Tejo e junto tem um jardim.
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António Bracons, Monteiro Gil, Galeria Diferença, 2016
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Diplomado pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian (1964-68), professor do ensino secundário, professor de fotografia, integrou a Cooperativa Diferença, fez parte do Grupo Iris (1992-97).
Participou em dezenas de exposições individuais e coletivas, editou vários livros, nomeadamente “Prata Negra” (Fim de Século Ed., 1992), “As Pedras e o Tempo” (Cooperativa Diferença, 1993), “Lisboa Qualquer Lugar – Lisboa Qualquer Lisboa” (Cooperativa Diferença, 1994) e “Made in U.S.A. – Impressões de Viagem” (Cooperativa Diferença, 1996), estes ligados ao Grupo Iris; “Um país de longínquas fronteiras” (Câmara Municipal da Guarda, 2000), “Um (e)terno olhar. Eduardo Lourenço, Vergílio Ferreira e a Guarda” (Centro de Estudos Ibéricos, 2008) ou “Leite, cardo e mãos frias. O queijo da Serra da Estrela no concelho da Guarda” (Câmara Municipal da Guarda, 2009), para referir apenas alguns, todos eles em parceria com outros autores (entre outros, Fernando Curado Matos, Luís Azevedo, Alberto Picco e Agostinho Gonçalves).
As suas obras integram diversas coleções particulares e públicas, estando representado em museus em Portugal, Espanha, França, Bélgica, Suíça e Itália.
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Convite da exposição.
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Este catálogo foi editado por ocasião da exposição homónima, na Galeria Fonseca Macedo, em Ponta Delgada, entre 4 de julho e 22 de agosto de 2002.
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