ARQUIVO FOTOGRÁFICO SILVA MAGALHÃES – UM NOVO OLHAR SOBRE TOMAR DO SÉC. XIX, DE BÁRBARA GODINHO, 2013

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Bárbara Godinho

Arquivo fotográfico Silva Magalhães – Um novo olhar sobre Tomar do séc. XIX

Fotógrafo: António da Silva Magalhães / Texto: Bárbara Godinho

Lisboa: Universidade Nova de Lisboa / 2013

Português /  / 204 pgs

Edição digital / Tese de Mestrado

Dissertação para o grau de Mestre em Práticas Culturais para o Município, realizada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL), sob a orientação científica dos Doutores Santiago Augusto Macias e António Camões Gouveia.

Tem acesso à tese em formato .pdf, aqui.

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António da Silva Magalhães (1834-1897)

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Esta tese vem demonstrar a importância que tem para a história de um Município – ou de uma localidade ou região – o espólio de um fotógrafo: mostra Tomar sob o olhar de António da Silva Magalhães, que foi o seu primeiro fotógrafo, enquanto apresenta uma biografia deste e analisa a sua atividade como cidadão daquela cidade e a relação com os seus contemporâneos.

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Em resumo:

A partir do legado fotográfico herdado pelo município de Tomar e dentro das novas possibilidades para pensar a história das imagens a partir do Arquivo Fotográfico de Silva Magalhães, surge uma releitura da História Local – um novo olhar sobre Tomar do século XIX – A História Local é a ferramenta nuclear para a compreensão e a percepção das nossas raízes, enquanto seres, a noção que antes de pertencemos a um país e a um continente, de que somo parte de um local – um microcosmos. A par da História Local, a consagração da fotografia não constitui uma novidade como elemento de compreensão, mas de testemunho no seio da cultura, da historiografia e do património. É, precisamente, com esta consagração que pretenderemos mostrar um século XIX que testemunhava de forma subliminar, pela fotografia, a cidade de Tomar.”

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Como refere a autora, Bárbara Godinho:

Na década de 80 do século XX, José António de Magalhães Soares – neto de António da Silva Magalhães – e o seu cunhado – Jaime de Oliveira, doaram ao Município de Tomar, todo o espólio fotográfico que detinham de António da Silva Magalhães e filhos.

Embora o campo de estudo se cinja à História da Cidade, o Arquivo apresenta diversas temáticas que revelam o testemunho físico e ocular que António da Silva Magalhães captou, sensivelmente, no último quartel do século XIX. Posteriormente pelos seus filhos Mário Nery e Eurico Leopoldo nas primeiras décadas do século XX.

(…)

É neste universo é composto por cerca de 5250 espécimes, entre as quais 3600 negativos em vidro e 1500 provas originais concretizadas nas diferentes técnicas – técnica da albumina, técnica do colódio com nitrato de prata, técnica do papel directo, entre outras. [p. 2]

(…)

É precisamente o universo criado, representado e captado por António da Silva Magalhães e mais tarde por [pelos filhos] Mário Nery e Eurico Leopoldo, a alavanca para o estudo da cidade e a sua compreensão, já que um arquivo cheio de fontes escritas não inclui parte dos elementos que a imagem exibe e é de todo o interesse o conhecer.” [p. 5]”

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estudio de fotografia silva magalhães

Aspeto da Photographia e Typographia Silva Magalhães, Tomar, c. 1987-1880

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Tomar-R_Silva_Magalhaes-2017-Fot_Antonio_Bracons (1)

Tomar-R_Silva_Magalhaes-2017-Fot_Antonio_Bracons (2)

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António Bracons, Aspeto do edifício e placa toponímica, Tomar, 2017

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Permito-me transcrever parte da biografia de Silva Magalhães, conforme referida por Bárbara Godinho (p. 12-14; assinalo as notas de rodapé com *n.º, mantendo o número da autora):

António da Silva Magalhães (1834-1897)

A biografia de um homem não é a obra de arte dele. Contudo, a biografia do homem pode influenciar a sua arte. Pode influenciar o meio onde vive e toda uma geração por simbiose.

António da Silva Magalhães nasceu a 19 de Junho de 1834, em Tomar. Os seus pais eram: Manuel da Silva Magalhães – escrivão da Câmara de Tomar e Provedor da Misericórdia em 1856 – e, Maria do Carmo das Neves e Silva. António teve mais dois irmãos, Francisco da Silva Magalhães que o influenciaria positivamente anos mais tarde, e Maria Cândida de Magalhães.

António da Silva Magalhães casou com D. Maria da Piedade Rodrigues Faria e Silva. Desta união geraram nove filhos. Dois rapazes: Mário Nery que desenvolve o gosto pela fotografia e dá continuidade ao estúdio fotográfico com o seu irmão Eurico Leopoldo. E sete raparigas: Maria Luiza, Gabriela Celestina – viveu na Barquinha onde abre um estúdio fotográfico com o seu esposo; Flora Cecília, Maria Ludovina, que também partilhava o gosto pela fotografia, Emília Virgínia, Heloísa Cristina e Alda Beatriz.

De acordo com as informações retiradas do catálogo da exposição fotográfica de António da Silva Magalhães que foram analisadas e confirmadas pelas pesquisas efectuadas durante a execução da dissertação, tudo levo leva a crer que António da Silva Magalhães foi o introdutor da fotografia em Tomar, instalando o atelier na actual Rua Silva Magalhães. “Contemporâneo de Carlos Relvas *11 (1838 – 1894), iniciou a sua actividade comercial como fotógrafo em 1862, ano em que é fundada a “Typographia Photographia Silva Magalhães”.” *12

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Referência do seu trabalho como fotógrafo e qual o género da sua obra num anúncio do Jornal A Verdade. 10 de Maio de 1885, n.º 263. (Imagem 25, pág. 170)

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Anúncio da Tipografia de António da Silva Magalhães – Imprensa “La Merveille” – que se encontrava em todos ou quase todos os números do seu jornal. (Imagem 22, pág. 167)

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De acordo com as informações do catálogo de exposição efectuada em 2004, a colecção é composta por 5250 espécies fotográficas, das quais cerca de 3800 são negativos de vidro. Há cerca de 1500 provas recentes, efectuadas na década de 80 do século XX pelo fotógrafo Lopes Cardoso a partir dos negativos Silva Magalhães (Pai e Filhos).

Personalidade de relevo no meio tomarense, além de fotógrafo *13, destacou-se por diversas actividades: foi o fundador, o editor e o escritor principal do jornal republicano “ A Verdade” publicado entre 1880 e 1916, onde era editor e jornalista até à data da sua morte. Que bebeu directamente do Jornal A Emancipação de Angelina Vidal – “É provável que a presença de Angelina Vidal em Tomar 8Cfr.o. n.º32) se deva ao Dr. Francisco da Silva Magalhães, médico naval e autor de uma obra cientifica de que o jornal anuncia, As febres intermittentes e a hematuria Memoria sobre as febres palustres de Timor. Tomarense ilustre com notável acção nas áreas portuguesas da Indochina e de Macau, onde fundou o jornal O Oriente, sustentando um contencioso com o governador Januário Correia de Almeida, 1.º Visconde de S. Januário (1872 – 1874), que lhe valeu um castigo para Timor, igualmente privou em Macau com D. Sinibaldo de Más, o autor de Ibéria, referido atrás. Personagem relativamente esquecida, autor de estudos hoje perdidos (23) , o Dr. Francisco da Silva Magalhães foi companheiro do marido de Angelina Vidal, o Dr. Luiz Augusto Campos Vidal, também médico da marinha e falecido na Guiné em 1894 e era, na época, considerado o elemento cientificamente mais qualificado dos Silva Magalhães *14.

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Jornal A Verdade, a 14 de Junho de 1885, anno 6, n.º 268. (Imagem n.º 10, pág. 186)

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correspondentes

 

Referência aos correspondentes, também muitas vezes designados por enviados especiais, no estrangeiro. Pode-se ler a referência no Jornal A Verdade, a 14 de Junho de 1885, anno 6, n.º 268. (Detalhe, Imagem n.º 10, pág. 186)

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Foi ainda, escritor, tipógrafo, vereador da Câmara Municipal de Tomar. Republicano nato com fortes convicções dos ideais franceses. *15 *16 Devido a este cunho político e contrariamente do que acontecia com os outros vereadores e ilustres tomarenses, António da Silva Magalhães nunca foi convidado para levar algum pendão ou participar na Procissão de Corpo de Cristo *17. No ano de 1878 António da Silva Magalhães participa na Exposição Universal de Paris na qualidade de Tipografo Fotográfico18, juntamente com outros industriais do Concelho. Negociante. Fabricante de licores. Cientista, agrícola e industrial *19 – fez a modernização de moinhos e azenhas da Ribeira de S. Gregório e a modernização da mecanização da serração a madeira. Coleccionador e numismata. Funda o jornal A Verdade em 1880, que conta com uma série de colaboradores de relevância. Os anais do município, de resto, informação que se poderia confirmar no cabeçalho do jornal da mesma altura. Dr. Afonso Acácio Martins Velho *20, Dr. José Pereira Mendes, Dr. Francisco da Silva Magalhães *21, entre outros homens de renome. Por ser um Jornal de relevância nacional A Verdade era lido por todo o país e mesmo em vários locais da Europa, possuía diversos correspondentes, que eram designados muitas vezes por “enviados especiais”. *22

– Presidente do grupo democrático Silva Magalhães. Fundador do grupo de teatro “Amadores Dramáticos de Tomar”, cuja récita inaugural terá sido a 6 de Janeiro de 1882, onde foi actor e encenador. Foi, ainda o responsável pela introdução do automóvel em Tomar bem como a criação do primeiro Museu.

No ano de 1886 António da Silva Magalhães bem como: Dr. Afonso Acácio Martins Velho, José Coelho Pereira, José Joaquim de Araújo e Domingos Pereira Campeão com a lista do Partido Republicano para a Câmara de Tomar, contra outras duas listas, o Partido Progressista e o Partido dos Regeneradores. Venceu o Partido Progressista. “

António Silva Magalhães faleceu aos 62 anos, no dia 3 de Março de 1897.

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Referência do seu trabalho como fotógrafo e qual o género da sua obra num anúncio do Jornal A Verdade. 10 de Maio de 1885, n.º 263. (Imagem 9, pág. 185).

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11 Referência a Carlos Relvas num dos seus Jornais. Pode-se ler o excerto no Anexo 5 – excertos e informações retirados do Jornal d’A Verdade. Imagem n.º14.

12 António da Silva Magalhães, Photographo de Thomar, catálogo da exposição. Coord. António Ventura, Março de 2004

13 Pode-se ler a referência ao seu trabalho como fotógrafo na imagem n.º 10 do anexo 5. Pensa-se que a sua fortuna foi adquirida pela quantidade de retratos e imagens retirados.

14 Murta, Amândio Marques, Boletim Cultural n.º3 – Março de 1982.p.44

15 Pode-se ler na imagem n.º 12 e 12.1 do anexo 5, o gosto e o orgulho pelo republicanismo.

16 Pode-se ler na imagem n.º 13 e 13.1 do anexo 15  a defesa acérrima do republicanismo, contudo, cheia de ironia, dando para perceber o carácter de António da Silva Magalhães.

17 Sabe-se através da imagem n.º 11 do anexo 5, a ideia que se tinha da religião dentro da tipografia de António da Silva Magalhães. Apesar de não ter sido ele o autor do artigo, nota-se que partilhava das mesmas ideias e convicções. Não faria sentido, também, que assim não fosse. Um homem ligado à ciência e ao desenvolvimento decerto questionava muito a religião.

18 António da Silva Magalhães organizou diversos álbuns temáticos com o intuito de comercializar e de oferecer aos amigos (algumas dessas imagens podem ser vistas no Anexo 1). O seu trabalho, mestria e acabamos são indiscutíveis.

19 No anexo n.º 5, imagem 7, pode-se ler as referências comerciais e agrícolas que António da Silva Magalhães.

20 Vereador e advogado de renome na cidade.

21 Irmão de António da Silva Magalhães. Cursou medicina na Universidade de Coimbra, exerceu medicina no Algarve e mais tarde integrou a Marinha Portuguesa. Devido aos seus ideias republicanos, que causavam algum incómodo, foi enviado para Timor, Índia, Macau e China. Foi íntimo de Angelina Vidal, por parte do esposo desta. Pode-se ler vários artigos do “enviado especial de Manila” ou outros locais. Francisco da Silva Magalhães criou o jornal O Ocidente, e graças a este jornal e ao grande estímulo que exercera sobre o irmão, António da Silva Magalhães criara A Verdade. Coleccionou objectos preciosos e enviou outros para o Museu do irmão, António da Silva Magalhães. Francisco ainda escreveu vários livros científicos que se podem encontrar na Biblioteca Nacional de Portugal, tais como: As febres intermittentes e a hematuria : memoria sobre as febres palustres de Timor / Francisco da Silva Magalhães. – Macau, 1874 e as  Instruçcões para a Cultura do Tabaco em Timor – impressa em Macau em 1881. A par dos livros científicos, Francisco também fotografava. No Jornal da Verdade,  – 1.º Anno – n.º 21 de 19 de Setembro de 1880 –p-6. Pode-se ler: “Do nosso zeloso correspondente em Manila recebemos varias photographias representando as ruínas causadas pelo terramoto em Manila e juntamente, alguns jornais e gravuras representanto os movimentos do pendulo do sismómetro produzidos pelos diversos tremores consecutivos (…).

22 Pode-se ler esta referência na imagem n.º 8 e 10 do anexo 5.

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Pode ver algumas imagens de Tomar de Silva Magalhães no Fascínio da Fotografia, aqui.

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