NUNO LOBITO, LAÇOS – MAIS DO QUE VIAJAR
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A fotografia foi um dos meus sonhos que, felizmente, se tornaram realidade.”
Nuno Lobito
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Nuno Lobito, “Um caminho difícil e poeirento tão diferente do nosso”, Burkina Faso, 2007 – “Altivez e expressão de cultura numa cena familiar”, Bolívia, 1998 – “Ao ar livre sabe melhor”, China, 2006 – “Rugas de sabedoria num rosto cansado mas confiante”, Chad, 2007 – “Namastê, meu amigo!”, Índia, 2017
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Nuno Lobito fez o curso de fotografia do Ar.Co, passou pelo Diário de Notícias, mas a fotografia que fazia em nada o ligava afetivamente. Passou pela publicidade, mas faltava algo. Na década de 90 começa a viajar e passa por cerca de uma centena de países, vindo a Portugal sempre que pode “para publicar trabalhos e matar saudades”. Atualmente já passou por todos os países do mundo.
Entre as muitas experiências que me marcaram, as mais significativas foram: viver no seio das tribos, fotografar em pleno teatro de guerra, visitar Sua Santidade o Dalai Lama, dormir no interior da floresta amazónica, saborear a magia de Machu Pichu e sentir a Paz no Laos. Na verdade, de todos os lugares que já visitei, aqueles que mais me impressionaram foram o Tibete, o Laos, o Vanuatu, a Índia e a Amazónia.
A floresta amazónica talvez tenha sido o paraíso mais interessante que visitei até hoje.”
, escreve na sua biografia.
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O nome da exposição reflete a essência do Autor. Viajar é importante, é um gosto ou até uma paixão, mas sobretudo, um pretexto. O importante para Nuno Lobito é criar laços, sentir a riqueza das pessoas, tão iguais na sua essência nas tão diferentes culturas.
As suas fotografias centram-se nas pessoas. Das expostas, as pessoas estão presentes em todas. Os retratos, rostos, olhares, expressões, a corpo inteiro ou somente uma parte do rosto, mostram com um respeito profundo quem se cruza com a sua vida através da câmara fotográfica.
Cada fotografia tem a sua história, resulta de um encontro: de olhares ou de diálogo, é um registo afetivo. Os ‘títulos’, mais que um nome para a fotografia, são uma história condensada desse encontro de Nuno Lobito com a pessoa que fotografou.
As suas imagens iniciais, até finais da década de 1990 são a preto e branco, depois a cor assume um papel fundamental, ressaltando os tons da pele, dos olhos e dos cabelos, do trajar e dos acessórios, da envolvente.
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Nuno Lobito, “Sem jogos”, Congo, 2009 – “O que será deste mundo?”, Portugal, 1988 – “Gratidão”, Madagáscar, 1996 – “Momentos inequívocos que me marcaram para sempre, mas onde deixei as minhas marcas também! O trabalho único, dar formação a prisioneiros, determinou o meu crescimento e conhecimento interior para sempre!”, Colômbia, 2000 – “Uma lágrima doce”, Amazónia, Colômbia, 1998
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Deixo as palavras de Nuno Lobito, da folha de sala:
Foi há muitos anos que me fiz à estrada pela primeira vez! Com pouca bagagem, muitos sonhos e uma imensa vontade de explorar outras paragens, de viver outras vidas. Sentia que este nosso rectângulo era demasiado pequeno e ambicionava mais do que uma sociedade excessivamente formatada, percursora de estilos de vida que desafiavam o meu ideal de liberdade e de partilha. Fará sentido seguirmos todos na mesma direcção? Acordar todos os dias vazios de espírito, tentando compensar as frustrações da rotina com um sem número de coisas desnecessárias? Quando tomei a louca decisão de seguir os meus sonhos, não imaginava como esse passo iria determinar o rumo da minha história.
Hoje, olho para trás e mal acredito nos quilómetros que percorri, nos rostos com que me cruzei, nos muitos locais que visitei. Pela minha objectiva muitos viram, pela primeira vez, famílias semelhantes às suas, tão distantes e tão perto nos sentimentos e nas sensações. O meu registo deu voz a pessoas que a sociedade rejeita, ignora e prefere esquecer. A minha câmara, sempre em busca dos contrastes da alma, dos paradoxos deste planeta de extremos, desvenda um mundo tão sofisticado e tão brutalmente selvagem. E em cada novo horizonte imperou sempre a convicção de oferecer um testemunho genuíno, um trabalho consciente de cidadania, que visa trazer a cada um de vós um outro olhar sobre o que nos rodeia.
Esta exposição resume parte desse trabalho. Uma selecção de fotografias que para mim, são mais do que belas imagens: simbolizam a riqueza humana e a expressão de cada cultura. O mundo é feito de pessoas e são as suas vidas e emoções que incessantemente procurei captar. Por isso, cada fotografia encerra uma história. Há sorrisos que não se esquecem, há cenários que nos ficam cravados na alma. Criam-se laços que perduram para além do espaço e torna-se inevitável trazer comigo um pouco daqueles com que me cruzei. Tantos lugares e momentos que as palavras não podem descrever, os olhos, as rugas, os traços, que sobressaem, os gestos que nos ensinam a crueza da vida…
Tudo isso me define como fotógrafo, tudo isso me permitiu chegar até aqui, orgulhar-me de ser o primeiro português a conhecer 204 países e de assumir este desafio de anunciar que o nosso mundo é mais do que uma imagem desfocada. Contudo, se é verdade que este meu modo de vida singular tem sido assaz enriquecedor, não será menos verdade que é também bastante solitário. Acredito que quando viajamos sozinhos estamos mais abertos aos outros, por um lado, e por outro aprendemos a conhecer-nos melhor. Por isso, opto quase sempre por viajar sozinho.
Foi assim que esta vivência errante contribuiu também para a minha reconciliação espiritual e para alcançar alguma paz interior. Numa das minhas passagens pela Ásia tive oportunidade de descobrir a cultura budista e, após seis meses a viver num mosteiro, percebi que seria esta filosofia o fio-de-prumo na minha vida. Mais tarde, tive o feliz ensejo de conhecer sua santidade o Dalai Lama, momento que me marcou profundamente e me redefiniu como pessoa, como um ser mais sólido e consciente do mundo que o rodeia. Aprendi a viver desligado das coisas materiais e a saborear cada momento. Não espero da vida mais do que ela me pode oferecer e acredito que, com esforço e perseverança, os sonhos estão ao nosso alcance.
Um dia quis ver o mundo pelos meus olhos e é essa visão que hoje deixo a todos aqueles que procuram enriquecimento cultural e espiritual, incentivando-os a ir mais longe, a acreditar que é possível. Atrevi-me a sonhar, corri o risco de viver e fiz-me à estrada, numa tentativa de esboçar com íntimo rigor os traços de uma humanidade desvanecida.
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Somos aquilo em que acreditamos. Eu acreditei que era possível!
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OM SHANTY OM”
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António Bracons, Nuno Lobito, Laços – Mais do que viajar, Aspetos da exposição, 2017
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A exposição Laços – Mais do que viajar, de Nuno Lobito, está patente na Fundação Museu Oriente, na Avenida Brasília, Doca de Alcântara (Norte), em Lisboa, de 20 de julho a 22 de outubro de 2017.
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Pode conhecer melhor o trabalho de Nuno Lobito aqui.
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