JOAN COLOM, 1921-2017
A 3 de setembro faleceu o fotógrafo catalão Joan Colom (Barcelona, Espanha, 1921 – Barcelona, Espanha, 3 de setembro de 2017)
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Carles Ribas, Joan Colom, en la sede de Foto Colectania de Barcelona, 2011
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Naquele momento, eu não sabia que estava a fazer fotografia social. Só fazia fotografias e buscava imagens que me emocionassem. Por vezes utilizei esta expressão para definir o meu trabalho, mas para mim significa simplesmente que não faço paisagens ou natureza-morta. Eu fotografo a rua. Com as minhas fotografias procuro ser uma espécie de notário de uma época.”
Joan Colom, 1999
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Joan Colom, Barcelona, 1958-1961
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“Colom pertence a uma geração de fotógrafos espanhóis que, na segunda metade dos anos cinquenta, renovou a linguagem da fotografia e a aproximou às tendências de vanguarda daquele momento. Um papel fundamental que serve de ponte entre a geração anterior, à qual pertence Catalá-Roca, e a seguinte, onde estão também Masats ou Miserachs, todos conhecidos como a «Nova vanguarda».”
Em 1957, com 36 anos, Colom entrou para o Agrupamento Fotográfico da Catalunha, uma associação amadora. Em 1960 participou da criação do grupo artístico “El Mussol”.
Após uma rápida aprendizagem, influenciada pela obra de Oriol Maspons, Xavier Miserachs e Ramón Masats, jovens fotógrafos que apresentavam um olhar inovador, desenvolveu uma obra surpreendente e cheia de força entre 1958 a 1961. Após a exposição “El Carrer” (A Rua), que ocorreu nesse mesmo ano na Sala Aixela de Barcelona, o reconhecimento foi imediato. A exposição foi tão bem-sucedida quanto polémica, pelas fotografias, que retratavam o Bairro Chinês de Barcelona, hoje conhecido como El Raval (O Raval), e os seus habitantes: crianças, moradores e visitantes ou clientes, que andavam pelo bairro onde estavam localizados os prostíbulos da cidade.
Colon conhecia esta zona desde pequeno:
“Desde criança, nunca tive medo do [Bairro] Chino. Nem eu nem, diria, nenhuma das crianças que crescemos em Barcelona Sul dos anos sessenta. De mão dada à minha avó cruzava o Chino até ao Apollo, onde o meu avô tocava violino, para lhe levar a lancheira com o jantar. Para mim, Chino era igualmente a zona de Escudillers e arredores, à esquerda das Ramblas, … e o território que os ciganos chamavam El Portal, cujo centro era a Calle Padró, onde nascia a rumba catalã de Peret e família, ou o conjunto de becos que se estendia entre o Hospital e o Paralelo, que também era chamado, para fins cadastrais, o Quinto Distrito.”,
uma zona de casas “insalubres e as ruas estreitas e sem sol”.
Colom via com os olhos e fotografava com uma rápida e pequena Leica que, às vezes, escondia ou disparava sem focar ou enquadrar a cena para não ser visto; são, até mesmo, fotografias tremidas, que priorizam a documentação da cena em detrimento das qualidades tradicionais da fotografia posada. O resultado são imagens diretas, sem concessões, no mais puro estilo documental que beira o fotojornalismo, com um aspeto de veracidade e espontaneidade nunca vistos até então na fotografia espanhola. “Estas fotografias não documentam uma tese social, nem contam uma história concreta. Mostram a vitalidade e a riqueza de um bairro marginal com fatos quotidianos, rotineiros, imemoriais, praticados continuamente e em qualquer lugar, que se apresentam com todo o drama, humor, comoção ou surpresa”. A sua fotografia remete para a fotografia de Brassaï, Helen Levitt, Garry Winogrand ou, mesmo, Robert Frank.
As suas imagens alertaram Oriol Maspons que os apresentou a Esther Tusquets, diretora da coleção “Palavra e Imagem” da Lumen Editorial, coleção de grande prestígio de livros de fotografia com textos de autores de vulto, “fundamental para o desenvolvimento da fotografia espanhola nos anos sessenta”. Serviram de inspiração para o destacado escritor Camilo José Cela escrever “Izas, rabizas y colipoterras”, publicado em 1964. Concentrado nas prostitutas do Raval, o livro foi um sucesso, mas também um escândalo: uma das mulheres retratadas abriu um processo litigioso que, embora não tenha prosseguido, significou, para Colom, o abandono da fotografia em 1964 por durante quase 20 anos e, consequentemente, o esquecimento. Só após se aposentar, em 1977, retoma a fotografia até 2010. Centra-se no lado obscuro da cidade olímpica, a cor chega ao seu trabalho alternando com o preto e branco.
Foi o reencontrar os originais daquela exposição que deu lugar à exposição “Distrito V” no Museu Nacional de Arte da Catalunha (MNAC) em 1999 e o Prémio Nacional de Fotografia (2002).
Colom foi ainda agraciado com a Medalha de Ouro do Mérito Cultural da Câmara Municipal de Barcelona (2003), Prémio Nacional de Artes Visuais (2004) e Creu de Sant Jordi (2006).
Doou a sua obra (quase 9.500 fotografias, os negativos, folhas de contato, 25 minutos de filme 8 mm, documentação, etc.) ao MNAC, o qual, em dezembro de 2013, apresentou a exposição “Yo hago la calle” (“Eu faço a rua”), onde se apresentaram mais de 500 fotografias.
“Joan Colom era um homem calmo e discreto, amigo de seus amigos, com certeza ao fotografar: para saber o que estava procurando quando fotografou. A repercussão de seu trabalho a nível internacional foi dada pela força de um tema incomum na forma como o tratou: de forma sequencial, insistente, metódica, remova sua experiência, seu protagonismo na cena, para que seja a outros, protagonistas, um por um – o trabalho na rua é mais retrato do que informar – aqueles que impressionaram sentimentos e emoções ao tempo e ao lugar.”
testemunha Laura Terré, no diário “El País”, e acrescenta:
“Bem, se não entrarmos em detalhes” Foi assim que Joan Colom sempre respondeu. A sua saúde havia-se ressentido nos últimos anos, mas a sua aparência não denotava os mais de noventa que tinha. Um homem simples, baixito, rápido e audaz fotógrafo. Começou a fotografar após o casamento, para abrir um espaço de distração fora das atividades familiares. Apontou à Associação Fotográfica da Catalunha, em 1957, quando já estava aberta a crise que poria fora dos salões os inquietos de então. Procurou um assunto que o definisse fotograficamente, porque sentia que a importância da fotografia estava em o quê e não no como, qual era a preocupação das tertúlias do grupo às quais, no entanto, não deixou de ir até há alguns anos. Lá, não o compreendiam, mas ele pouco se importou. Poderia esperar, porque sabia que não estava errado. O seu motor era algo muito forte e que não precisava do elogio. Tratava-se de mostrar aquele mistério, aquela força da qual ele havia nascido. A vida no Raval de Barcelona onde os seus pais tinham uma florista e onde cresceu.
“Eu não sei o que me leva lá, também há pessoas das zonas altas, mas eu nunca havia de tirar uma foto”. As gentes do Raval com os seus problemas de subsistência, com a sua vida interior a que eles dificilmente poderiam achar o caminho exagerado pelas tarefas domésticas, pelos problemas de cada dia. Ao Raval chegavam os náufragos e os marinheiros, os emigrantes esperançosos e até os ricos falidos, os anjos caídos… Havia espaço para todos. Joan Colom observou desde criança esta capacidade de acolhimento e manteve os seu olhar sem preconceitos e admirado até ao final de seus dias. Carregado de humor. Sem medo, sem pena, sem vergonha para aqueles que viviam as suas vidas e as suas paixões sem reparar naquele olho que os seguia em todos os lados. Joan Colom não fazia fotos roubadas, como se poderia pensar pela posição oculta de sua câmara sob a sua manga. Ele olhou diretamente nos olhos sem a necessidade de um visor. Ele conhecia aquelas ruas, as crianças trabalhadoras, os seus homens mal-humorados, as suas velhas amargas. E as mulheres que esperam que algo aconteça nos portais ou nas ruas escuras. O seu retrato do Bairro Chino foi sistemático e incansável. O seu arquivo fotográfico é um exemplo de controlo sobre a autoria, dramático na eliminação de imagens que não o satisfaziam. As fotos copiadas em 10 x 15 foram marcadas com pontos coloridos indicando aqueles que passaram de “purgatório” ou fase de reflexão para o céu da cópia em 24 x 30. Alguns seriam destinados à “glória” de 40 x 50, isto é, candidatos à exposição que preparou com ilusão nos últimos anos de sua atividade fotográfica.”
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Pode ler sobre Joan Colom na Revista da Fundação Mapfre aqui, no jornal El País, aqui, aqui e aqui, no jornal El Obrero, aqui.
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