RETRATO (CIT.) – O SONHO DE UM CURIOSO, CHARLES BAUDELAIRE
Completaram-se ontem 150 anos da morte de Charles Baudelaire (Paris, 09.04.1821 – Paris, 31.08.1867)
Um retrato! O que é que poderia ser mais simples e mais complexo, mais óbvio e mais profundo?”
Charles Baudelaire
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Félix Nadar, Charles Baudelaire, 1862
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Baudelaire escreveu um soneto dedicado ao seu grande amigo, o fotógrafo Félix Nadar, o qual foi autor de 5 fotografias do poeta:
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O Sonho de um Curioso
a F.N. [Félix Nadar]
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Conheces, como eu, a dor mais saborosa,
E de ti dizem outros «Que homem singular!»
– Ia morrer. Na minha alma ardorosa,
Havia horror, desejo, um mal peculiar;
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Viva esperança e angústia, sem humor faccioso.
Ao ficar a ampulheta fatal mais vazia,
Mais era o meu suplício áspero e delicioso;
Todo o meu coração deste mundo fugia.
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Era como a criança ávida de espectáculo.
Odiando a cortina como um obstáculo…
E enfim se revelou a mais crua verdade:
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Morrera sem surpresa e a aurora terrível
Envolvia-me. – Então?! será apenas isto?
O pano já subira e eu ainda esperava.
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Charles Baudelaire
in: Charles Baudelaire, As flores do mal. Edição bilingue, Tradução e prefácio de Fernando Pinto do Amaral, Documenta poética, 11. Lisboa: Assírio & Alvim, 1993 (2.ª ed.), pp. 316-319.
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Le Rêve d’un Curieux
a F.N.
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Connais-tu, comme moi, la douleur savoureuse
Et de toi fais-tu dire: “Oh! l’homme singulier!”
— J’allais mourir. C’était dans mon âme amoureuse
Désir mêlé d’horreur, un mal particulier;
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Angoisse et vif espoir, sans humeur factieuse.
Plus allait se vidant le fatal sablier,
Plus ma torture était âpre et délicieuse;
Tout mon coeur s’arrachait au monde familier.
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J’étais comme l’enfant avide du spectacle,
Haïssant le rideau comme on hait un obstacle…
Enfin la vérité froide se révéla:
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J’étais mort sans surprise, et la terrible aurore
M’enveloppait. — Eh quoi! n’est-ce donc que cela?
La toile était levée et j’attendais encore.
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Charles Baudelaire
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