VICTOR PALLA E COSTA MARTINS, LISBOA CIDADE TRISTE E ALEGRE, 1959, 2009 e 2015 – 1. A EDIÇÃO DE 1959

Dia Mundial da Fotografia

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Victor Palla e Costa Martins

Lisboa Cidade triste e alegre

Fotografia: Victor Palla e Costa Martins / Texto: José Rodrigues Miguéis / Poemas (excertos, alguns inéditos*): Eugénio de Andrade*, António Botto, Álvaro de Campos, Orlando da Costa, José Gomes Ferreira*, Sebastião da Gama, David Mourão-Ferreira*, Sidónio Muralha, Almada Negreiros, Alexandre O’Neill*, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, Ricardo Reis, Armindo Rodrigues*, Mário de Sá-Carneiro, D. Sancho I, Jorge de Sena*, Alberto de Serpa, Cesário Verde, Gil Vicente

Lisboa: Autores / Distribuição – Lisboa: Círculo do Livro / 1959

Português / 22,5 x 27,9 cm / 179 págs. / 152 fotografias a preto e branco

Editado em 7 fascículos mensais; capa cartonada e sobrecapa / “Deste volume, edição dos autores distribuída pelo Círculo do Livro, Lda., fez-se uma impressão de 2.000 exemplares em cartolina off-set de 160 gramas, e uma tiragem especial, numerada e rubricada pelos autores, de 60 exemplares em cartolina extra de 200 gramas. Toda a rotogravura foi executada nas Oficinas da Neogravura, Lda., Travessa da Oliveira à Estrela, e a parte tipográfica na Soc. Industrial de Tipografia, Lda., Rua Almirante Pessanha, 3 e 5, em Lisboa”. A edição normal tem guardas amarelas, a especial, guardas verdes.

Dos 2.000 exemplares, ter-se-ão vendido não mais de metade; em 1982 encadernaram-se cerca de 200 livros com as sobras dos fascículos, novas capas, idênticas às originais.

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Palla-Martins-Lisboa_Cidade_Triste_Alegre - (1)

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Lisboa: Pierre von Kleist Editions / 2009 (2.ª ed.), 2015 (3.ª ed.)

Português / 27.9 x 22.5 x c. 2,8 cm (2.ª ed.), 27.9 x 22.5 x c. 2,4 cm (3.ª ed.) / 175 págs.

Cartonado com sobrecapa (semi-brilhante na 2.ª ed., mais mate na 3.ª ed.) / 2.000 ex. + edição especial de 60 exemplares, em caixa, com fotografia impressa (2.ª ed.); 2.000 ex. (3.ª ed)

Acompanha um booklet, amarelo, com “A História da Publicação”, “A Publishing History”, texto original de Gerry Bagder: “A Cidade das Sete Colinas”, “City of the Seven Hills” e tradução em inglês do Índice / Português e inglês / 20,0 x 25,0 cm / 52 págs / Agrafado (capa e organização diferente para as duas edições)

ISBN: 9789729982538  (2.ª ed.), 9789899776395 (3.ª ed.)

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“Outra vez te revejo,

Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…

Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo…”
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Álvaro de Campos, Lisbon Revisited (1926)

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1.

Em 1956, William Klein publica

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Life is good and is good for you in New York, pelas Éditions du Seuil, Paris e

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Love on left bank

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Ed van der Elsken apresenta Love on the Left Bank editado pela Bezige Bij, de Amesterdão, Rowohlt Verlag, de Hamburgo e André Deutsch, de Londres;

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Les Americans

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em 15 de maio de 1958, Robert Delpire lança em França a primeira edição de Les Americans, de Robert Frank, com introdução de Jack Kerouac,

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que no ano seguinte, 1959, seria lançado nos Estados Unidos: The Americans, pela Grove Press e, também em 1959,

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Palla-Martins-Lisboa_Cidade_Triste_Alegre - (1)

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Victor Palla e Costa Martins editam Lisboa Cidade Triste e Alegre.

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Todos estes livros encontram-se num mesmo patamar: todos eles apresentaram, num mesmo tempo, um olhar fotográfico diferente do então visto, sobre as cidades ou os países onde os seus autores se encontravam. E todos eles vieram a alterar o modo de ver e de fotografar.

Todos são livros fotográficos, todos a preto e branco, todos com excelentes impressões, todos muito cuidados, mas entre todos, destaca-se o Lisboa… pelo grafismo soberbo, pela inserção pontual de alguma cor (o amarelo), pelos textos que se apresentam no final, num “Índice” onde reproduz numa escala reduzida cada uma das fotografias e se identificam os dados técnicos, bem como uma reflexão pessoal sobre a imagem, o espaço, a fotografia, demonstrando uma cultura fotográfica e visual enorme. Por outro lado, as fotografias estão ilustradas por poemas, vários originais, de diversos vultos da cultura portuguesa.

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Há contudo uma diferença: enquanto os primeiros tiveram uma divulgação mundial (pelo menos Europa e América do Norte), foram reconhecidos num tempo imediato ao seu lançamento, o livro de Palla e Martins teve reflexos 35 anos depois, a partir de 1992, quando António Sena o apresenta na Galeria Ether / vale tudo menos tirar olhos (próximo post) e sobretudo a partir de 2004 com a sua inclusão no Photobook, vol. I, de Martin Parr e Gerry Badger (post seguinte).

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2.

O pai de Victor Manuel Palla e Carmo (1922-2006) era fotógrafo amador e ele cedo se inicia na fotografia para o ajudar; foi também um dos organizadores das “Exposições Gerais” e expôs fotografia na VIII Exposição Geral de Artes Plásticas, na SNBA, em 1954.

Palla concluiu em 1948 o curso de arquitetura após frequência da Escola de Belas-Artes de Lisboa, onde conhece o também estudante Manuel Costa Martins (1922-1995) e da Escola de Belas-Artes do Porto, cidade onde se irá fixar e dirigir a Galeria Portugália (1944-?). Em 1952 faz em Londres um curso de edição e publicação de livros.

Em 1955, com Orlando da Costa, funda o Círculo do Livro, em Lisboa.

Os jovens arquitetos depois de trabalharem na profissão algum tempo, decidem, entre 1956 e 1958, fotografar a sua cidade de Lisboa: não a dos bilhetes-postais, mas a das pessoas: embrenharam-se na sua cidade, com os seus habitantes, sobretudo os de Alfama e do Bairro Alto.

O olhar dos autores não será indiferente à influência da fotografia humanista do pós-guerra, que teve o seu auge na exposição “The Family of Man”, organizada por Edward Steichen,  no MoMA (Museum of Modern Art, Nova Iorque), em 1955.

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É assim que com as suas câmaras, sobretudo Leica e as objetivas Leitz Elmar 50 e 90mm, os filmes Kodak Plus-X e Tri-X, mas também Rolleifex e não só (confere Índice), “deixaram de trabalhar e todos os dias – dia e noite – deambularam pela cidade, fotografando, falando, comendo, divertindo-se com pessoas e coisas. Vinham a casa apenas para revelar e ampliar”, refere António Sena (Uma História da Imagem Fotográfica em Portugal – 1839-1997, Porto: Porto Editora, 1998, pág. 280).

António Sena, filho do arquiteto e fotógrafo Sena da Silva, conhecia Victor Palla, eram famílias amigas, para além de ter organizado a exposição de Palla e Martins na galeria Ether, em 1982, contudo esta informação não é correta, pois tanto Palla como Martins continuaram a desenvolver a sua atividade como arquitetos neste período.

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3.

Das cerca de 6.000 fotografias que fizeram em conjunto, onde se incluem algumas que já teriam antes de começarem a fotografar conjuntamente, selecionaram cerca de 200, resultando numa exposição que foi apresentada na Galeria do Diário de Notícias, em Lisboa, de 21 a 28 de outubro de 1958,

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Victor Palla e Costa Martins, Lisboa Cidade Triste e Alegre, aspeto da exposição na Galeria do Diário de Notícias, em Lisboa, de 21 a 28 de outubro de 1958, vendo-se Costa Martins sentado ao centro.

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e na Galeria Divulgação, no Porto (que depois seria a Livraria Leitura), a partir de 2 de dezembro do mesmo ano.

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Victor Palla e Costa Martins, Lisboa Cidade Triste e Alegre, Aspeto da exposição na Galeria Divulgação, no Porto, Dezembro de 1958. Fotografia do espólio dos arquitetos publicada por António Sena (op. cit., p. 281).

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As exposições apresentam os mesmos painéis “paginados”, embora com diferente disposição. Na Galeria do Diário de Notícias, “ao longo de um suporte contínuo, em cima de quatro imagens do programa televisivo de David Mourão Ferreira, com a presença dos dois arquitectos-fotógrafos” (Alexandre Pomar), na Divulgação, com uma diferente dinâmica.

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Nos convites da exposição anunciava-se um “conjunto de fotografias extraídas de um livro a publicar”, “de um álbum sobre Lisboa”. E num anúncio então publicado, lia-se:  “Exposição e livro / Lisboa poema gráfico / um álbum de fotografia e poesia sobre a cidade”.

Alexandre Pomar, a propósito do lançamento da edição de 2009, quando são expostos diversos documentos ligados à edição original, cita que «Numa carta ao director da página literária do Diário de Notícias (rascunho), V.P. escrevia: trata-se de “não mais um livro documental ou ‘folclórico’, mas de uma tentativa de retrato plástico usando meios fotográficos”».

De facto, as fotografias da exposição e do livro mostram um olhar diferente do de até então. Não se procura o bilhete-postal, a cidade bonita e turística, mas a vida da cidade, o quotidiano dos seus moradores, as diferentes vivências. Como Frank em The Americans, Klein em Life is good and goog for you in New York ou Elsken em Love in the Left Bank.

No catálogo que fizeram para a exposição, os autores registam que “A fotografia é grande como a própria vida”.

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David Mourão-Ferreira apresentava na RTP um programa cultural, em duas emissões entrevistou os autores.

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Contudo, a receção da exposição é limitada. António Freitas, em “Fotografia e realismo”, na revista “Binário”, de Outubro de 1958 (pág. 24-26), relativamente à apresentação na Galeria Diário de Notícias, esta “veio mostrar que também entre nós existem artistas integrados num movimento realista de arte fotográfica” e sublinha o “conteúdo humano e poético”. “Manifestação artística de mérito e… elemento de apreciação sociológica duma grande urbe”. “Sente-se um grito de esperança, que contém, no entanto, uma velada acusação – a presença quase constante da criança…”, “…o significado realista da obra”.

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Revista Binário, nº 25, de Fevereiro de 1959, pág. 456 (cf. Alexandre Pomar).

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Por seu lado, Ernesto de Sousa e José Borrego, na revista “Imagem”, associam os autores ao cinema realista: “Um tal conjunto é uma demonstração de um cinema realista que podíamos ter e ainda não tivemos” (Ernesto Sousa, Imagem nº 25, Fev. 59, pág. 456; o texto não está assinado, mas é possível atribuí-lo sem reservas a Ernesto de Sousa, redator principal da revista, cujo diretor é Frederico Kessler), conforme sublinha Alexandre Pomar.

“A sensação de verdade e espontaneidade, de coisa colhida no real do dia-a-dia.” “Uma ternura melancólica.” E sobre o livro: “Um rasgar de novidade.” “O documentário humano, a um tempo duro e poético, terno e dinâmico” (JB, Imagem, nº 34, Set. 1960); como refere Alexandre Pomar.

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4.

Na sequência das exposições, ou complementarmente a estas, surge o livro Lisboa, Cidade Triste e Alegre, o qual foi editado em sete fascículos, mensais.

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Fasciculos (1)

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Os fascículos que compõe a obra.

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A edição em fascículos era comum na época, tornando viáveis diversas edições de vulto, quer para editores, quer para o púbico, sustentando para uns e suavizando para os outros a produção e aquisição das obras.

O preço de cada fascículo era de 27$50 (vinte e sete escudos e cinquenta centavos), 170$00 se subscrevesse o volume completo; da edição especial de 60 exemplares, o custo era de 100$00 por fascículo, 600$00 o volume completo.

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Fasciculos (2)

Nota nos fascículos sobre o preço.

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Com o primeiro fascículo foram fornecidas as guardas, alertando-se que elas eram importantes para a leitura da obra, independentemente de virem a ser fornecidas posteriormente com a capa. O mesmo fascículo incluía uma folha, “Advertência”, na qual os autores explicam a edição em fascículos:

…foi sobretudo a vantagem da maior acessibilidade da obra (ao leitor e aos autores-editores) que nos levou a reduzi-la a tomos parciais. Em boa verdade, cremos que, por muito interesse que possa ter esta bizarra experiência de desvendar mensalmente e passo a passo, as excelências ou defeitos dum livro estudado como um todo, experiência a que a edição em fascículos nos habituou e obriga, ela tem pelo menos a importuna contrariedade de apresentar o pormenor antes do conjunto, de enevoar as razões do plano e, parafraseando uma citação famosa, permitir ver que, por causa das árvores, o leitor não veja a floresta. Afortunadamente, sete fascículos depressa passam. Que se perdoe este processo de publicar um livro a um livro que sem este processo não teria sido publicado.”

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Palla-Martins-Lisboa_Cidade_Triste_Alegre (45)

 “Advertência”, acompanhou o 1.º fascículo.

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Da pesquisa efetuada, não consegui apurar a data exata de saída dos fascículos.

A informação conhecida (António Sena, Lúcia Marques) que a edição do livro teve lugar em 1959, na sequência das exposições, de onde se infere, posterior às exposições, não será correta. Numa nota posterior de Victor Palla, apresentada por Alexandre Pomar,

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este refere que «Durante o lançamento realizámos uma exposição na galeria do “Diário de Notícias”, que seguiu para a “Divulgação”, no Porto.», o que justifica a informação do caderno que acompanha as edições da Pierre von Kleist Editions (2009, 2015) que refere que saiu “o primeiro em novembro de 1958 e o último em fevereiro de 1959”. Se a data do primeiro é possível, a do último não pode ser, pois implicaria uma periodicidade quinzenal. Por outro lado, diversas fontes (António Sena, Lúcia Marques) referem que o livro é publicado em 1959, ano em que saem se não todos, a maior parte dos fascículos.

Resulta assim que ou vieram a público os fascículos no final de 1958 ou se nesta data teria havido uma primeira distribuição, relativamente restrita, para aferir o processo, disponível aquando das exposições? O que implica que exposição e livro tivessem sido pensadas e realizadas conjuntamente, o que é plausível.

Há a referir que o narrado no caderno que acompanha as edições da Pierre von Kleist Editions, de 2009 e de 2015, resulta do testemunho dos familiares diretos dos autores, e do contacto direto de André Príncipe com Victor Palla, quando este fez um documentário sobre o arquiteto e “o facto de ter mantido algum contacto com Victor Palla enquanto ele foi vivo” (diria a Sérgio B. Gomes).

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5.

O livro destaca-se ainda hoje.

Logo de início os autores consideraram-no um “poema gráfico”.

É um poema gráfico e um poema fotográfico sobre Lisboa.

Trata-se de “não mais um livro documental ou ‘folclórico’, mas de uma tentativa de retrato plástico usando meios fotográficos”, conforme Palla regista “numa carta ao director da página literária do Diário de Notícias (rascunho)”, exposta na Ether (citada por Alexandre Pomar).

O grafismo é cuidadosamente elaborado pela dupla de arquitetos, bem como os excertos de poemas de autores portugueses que selecionam, como Eugénio de Andrade, António Botto, Álvaro de Campos, Orlando da Costa, José Gomes Ferreira, Sebastião da Gama, David Mourão-Ferreira, Sidónio Muralha, Almada Negreiros, Alexandre O’Neill, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, Ricardo Reis, Armindo Rodrigues, Mário de Sá-Carneiro, Alberto de Serpa, Cesário Verde e Jorge de Sena e outros autores mais antigos, como D. Sancho I e Gil Vicente. O texto inicial é de José Rodrigues Miguéis: autores de vulto, alguns dos quais publicam inéditos.

As fotografias estão cuidadosamente paginadas, num grafismo soberbo, nas suas folhas e meias folhas, por vezes folhas duplas, para maior aproveitamento do papel e assim reduzir custos, gerando uma narrativa e uma sequência por vezes quase cinéfila.

estas fotografias não existem por si, fazem parte dum livro. Considerá-las isoladamente seria quase tão grave como admirar um a um os rectangulosinhos da (de?) película duma fita de cinema, ou como ler isoladamente cada estância dum poema”

escreve no “manuscrito de uma entrevista redigida por Victor Palla (com o título “A fotografia: uma arte?”)”, citado por Alexandre Pomar.

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Para António Sena (op. cit., p. 280), a obra integra uma “surpreendente variedade inconformista de fotografias apaixonadas pelos quotidianos paralelos da cidade e da própria fotografia”. Palla e Martins são “pioneiros da fotografia portuguesa contemporânea” (p. 329).

O texto é tratado como se de imagem fosse: “poemas originais e fragmentos citados misturam-se com as fotografias, nunca se reduzindo à situação de legendas”, antes colaborando numa dinâmica e num ritmo próprio.

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6.

Os autores criaram no final um Índice, com 18 páginas, onde reproduzem tipograficamente as fotografias, identificam as respetivas páginas e inserem textos, no geral imagem a imagem, onde partilham vivências, locais, momentos, os dados técnicos (câmara, objetiva, filme, exposição), a história das imagens, mostram um conhecimento profundo do que se faz em fotografia lá fora, dos grandes autores, que então não era fácil ter em Portugal; escrevem ao leitor, falam sobre o projeto e o que é a fotografia para eles, as suas preocupações, motivações…

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Apenas alguns apontamentos registados pelos autores…

Sobre o livro:

Sem dúvida existem belas fotografias de Lisboa, da Lisboa pitoresca e monumental. Mas este álbum é diferente: não se trata de um simples inventário ou reportagem documental e muito menos duma coleção de “bonitas” provas isoladas. As fotografias que compõem o volume, afastando-se tanto quanto é possível daquilo que se entende por fotografia de “salon”, são antes o retrato da Lisboa humana e viva através dos seus habitantes — de dia, de noite, nos seus bairros, na Baixa, no Tejo — revelação ora alegre ora triste, mas sempre terna e sentida, da vida duma cidade.”

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O estímulo são as pessoas, texto relativo à pág. 4:

Como Richard Avedon, poderíamos dizer que o que sempre nos estimulou “foi o povo, as pessoas, nunca – ou quase nunca – as ideias”. A técnica não é senão o instrumento; e por vezes apetece concluir, como Avedon, que “a máquina é quase sempre um estorvo. Se eu pudesse fazer o que quero com os olhos apenas, seria feliz”.

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E às págs. 60 e 61:

Por esta altura já deve ter-se tornado claro que este livro não quis retratar acontecimentos espectaculares ou sensacionais – mas antes o espírito do ordinário, do quotidiano, das pessoas a serem elas próprias (e não transtornadas pelo excepcional) movendo-se dentro dum ambiente familiar, conhecido.”

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Sobre o modo de fotografar, a propósito da página 22:

Tentámos reduzir o nosso equipamento ao mínimo. Tripés, estojos, correias, são outros tantos obstáculos à mobilidade e (o que é mais grave) à naturalidade e “invisibilidade”do fotógrafo. A máquina nua na mão, as restantes objectivas nas algibeiras (até a tele!); tudo o mais se aprende a dispensar. Os amadores mais evoluídos escandalizar-se-ão talvez se aqui dissermos que ganhámos um despreso considerável pelos filtros e que só em casos especialíssimos e muito deliberados os usámos. Ao fim de milhares de exposições, também o fotómetro perde decididamente importância _ quando muito, uma única leitura inicial dá o Lá, para toda a tarde ou manhã, das afinações eventuais que os assuntos e as variações luminosas exigirem.”

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O espírito do “amador”, relativamente à pág. 33:

Mas a melhor solução para este problema – humanização da tarefa de utilizar sistemàticamente um instrumento mecânico como o fotográfico – talvez possa ser a de Eisenstaedt: “Todo o profissional deveria permanecer, no fundo do coração, um eterno amador”.

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Sobre o método de trabalho explicam, relativamente às páginas 68 e 69:

(…) O nosso método foi inconscientemente muito semelhante ao de Robert Flaherty, que coligia material para cada um dos seus filmes sem grandes pré-concepções, e que, ao contrário do cineasta vulgar, que pensa primeiro e filma depois, “filmava primeiro e depois pensava”. (…) Era com o material que colhia dia a dia que Flaherty construia finalmente os seus filmes. A montagem torna-se assim como que o substituto duma pré-planificação”. O que Felini diz sobre a montagem aplica-se ao livro escrevem os autores. (…)”A montagem, diz Felini, é um dos aspectos mais emocionantes do fazer filmes. Nada há mais excitante do que ver uma fita começar a respirar; é como ver crescer um filho nosso. O ritmo pode ainda não estar bem estabelecido, a sequência inteiramente definida. Mas nunca filmo uma cena segunda vez. Acredito que uma boa fita tem de ter defeitos. Tem de ter erros, como a vida, como as pessoas. (…) Uma mulher bonita só é atraente se não for perfeita. O mais importante é conseguir que o filme se torne uma coisa viva”.

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E das páginas 56 a 59:

O negativo é cada vez mais um passo intermédio. O que conta é o conjunto final; o ampliador torna-se tão importante como a câmara, o cilindro do gravador torna-se tão importante como o ampliador. E o campo de experimentação, que já era considerável, alarga-se. Talvez agora mais legitimamente ainda, porque se apoia em meios de larga comunicação e saiu das narcisistas e quase sempre estéreis aventuras do quarto escuro — solarizações, baixos relevos, reticulações — pequenas crises de adolescência que não há que evitar, mas que o fotógrafo maduro ultrapassa ràpidamente. Não fugimos ao experimental, neste livro: e não presumimos sair airosos de todos os ensaios. Mas as nossas experiências são de ordem menos oficinal. Baseiam-se quase todas na razão funcional de que considerar cada uma das nossas provas isoladamente seria quase tão grave (quase, entenda-se) como analisar um a um os pequenos rectângulos da película duma fita de cinema, ou como ler um único verso dum soneto. Do fluxo do livro, do decorrer do seu tema, derivaram experiências de escolha, de ritmos, de cortes e enquadramentos, de repetições e “rimas”, de cores e valores. E assim rejeitámos muitas fotografias que a priori consideráramos as melhores, e voltámos a chamar muitas das que rejeitáramos. E cortámos, invertemos, aclarámos, ampliámos e reduzimos ao sabor do que o livro — os poemas — a fotografia anterior ou seguinte — os formatos das páginas — mandavam. Procure-se neste arrazoado a justificação do arranjo destas.”

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7.

A tiragem foi de 2.000 exemplares, relativamente grande mas talvez não tão grande assim para a obra em causa. Mas, numa sociedade ainda pouco desperta para a fotografia, os fascículos ou o livro passam despercebidos. Importa perceber como foi a distribuição e até onde ela levou os fascículos / livro e qual a sua visibilidade, quer em livrarias, quer em quiosques, por Lisboa, Porto, capitais de distrito e outras povoações. Alguns vendem-se, mais de metade não. Como Palla refere na nota acima apresentada: “O êxito foi de estima, e o número de assinantes apenas suficiente para sustentar o empreendimento – que, de qualquer maneira era heróico.”

“As reacções de louvor públicas e publicadas foram mínimas, num panorama onde continuava a não haver uma cultura fotográfica” diz-nos António Sena (op. cit., p. 285).

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É assim, que, apenas existindo esta edição, verificava-se que o livro é raro e não consta da maior parte das bibliotecas públicas. Por exemplo, “A Biblioteca de Arte [da Fundação Calouste Gulbenkian], graças à doação da colecção particular de Pedro Miguel Frade, é uma das poucas a possuir no seu fundo documental este livro, tão importante para a história da fotografia em Portugal.”, regista na ficha do livro. A Biblioteca Nacional e a Biblioteca Municipal de Lisboa também não o possuíam.

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Palla e Martins nunca terão pensado interromper a arquitetura para se dedicarem à fotografia, aliás vieram a desenvolver um vasto trabalho arquitetónico, o mesmo acontecendo nas suas áreas a outros fotógrafos do seu tempo, como Sena da Silva, Carlos Afonso Dias ou Gérard Castello-Lopes. O escasso sucesso da edição levou a que praticamente abandonassem a fotografia como prática – naturalmente usavam no âmbito dos seus projetos – mas deixou de ser uma possibilidade um segundo livro sobre Lisboa, ao contrário do que previam no início do projeto.

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Victor Palla e Costa Martins, Lisboa Cidade Triste e Alegre, 1959

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As fotografias da capa foram feitas a partir da edição de 2015, o míolo a partir da edição dos Autores, de 1959, pois o volume original que tenho não tem encadernação editorial.

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No próximo post falaremos da exposição na galeria Ether / vale tudo menos tirar olhos, em 1982, quando se recupera o resto da edição inicial e no seguinte, na re-edição realizada pela Pierre von Kleist Editions.

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Pode adquirir o livro aqui.

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As preciosas informações de Alexandre Pomar aqui, aqui e aqui.

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O ensaio de Lúcia Marques (Lisboa, 1974) sobre a obra, uma abordagem bem detalhada, sobre imagens da cidade (não só de Lisboa), «A construção fotográfica da Imagem da Cidade a partir da “Lisboa, cidade triste e alegre” de Victor Palla e Costa Martins», aqui ou aqui (Revista Insi(s)tu #7 e #8, pp 92-127, Porto, 2004, .pdf).

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