ADRIANO MIRANDA, CARVÃO DE AÇO, MINAS DO PEJÃO, 1992-1994 – 1/2
“Utopia, dignidade, trabalho e futuro”, por Adriano Miranda
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Adriano Miranda, Carvão de Aço, Minas do Pejão, 1992-94
Estas fotografias integram o livro “Carvão de Aço”, de Adriano Miranda, 2017.
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Na inauguração da exposição e no lançamento do livro, no Poço 1 de Germunde, em Pedorido, Castelo de Paiva, nas próprias minas, Adriano Miranda partilhou a experiência do trabalho fotográfico e da sua vivência. Transcrevo as suas palavras, com a sua autorização.
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Cartaz da exposição
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UTOPIA, DIGNIDADE, TRABALHO E FUTURO
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Para os negativos a preto e branco saírem do fundo da gaveta, foi necessário que vontades e talentos se cruzassem num objectivo comum, homenagear quem fez do Trabalho a sua razão de vida.
Quero agradecer ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Castelo de Paiva, Gonçalo Rocha, e ao vereador da Cultura, José Manuel Carvalho, por desde o primeiro minuto acreditarem sempre neste projecto. Com grande abertura, sem imposições e com uma disponibilidade fora do comum, que infelizmente nós autores não estamos habituados. CARVÃO DE AÇO é a perfeita simbiose entre o trabalho criativo e o poder político. Aqui respirou-se liberdade e responsabilidade.
Quero agradecer ao Senhor Presidente da Junta de Freguesia Raiva Pedorido e Paraíso, Joaquim Martins, e à sua equipa, que com afoito voltou a dar vida a este espaço maravilhoso.
Quero agradecer ao Paulo e ao Ivo, dos Gráficos Associados, pelas suas sempre brilhantes ideias, fora da caixa, e este livro é mais uma delas. Disponibilidade, empenho e amizade são as suas marcas fortes.
Quero agradecer ao Miguel Carvalho, um homem que faz das palavras um bálsamo ao coração e à inteligência. O seu último livro, “Quando Portugal Ardeu” é bem o exemplo disso. Quero agradecer à Academia de Música de Castelo de Paiva, uma das melhores escolas de música do país.
Quero agradecer ao Miguel Abreu, da Casa dos Reclamos, que ao ver uma fotografia dos mineiros do Pejão decidiu logo apoiar a exposição.
Quero agradecer ao Bernardo Lemos, do Roteiros de Minas, que fará com que CARVÃO DE AÇO percorra os vários centros mineiros do país.
Quero agradecer à gráfica Diário do Porto e em particular ao tipógrafo Rocha, que labutou horas a fio com um profissionalismo exemplar.
Quero agradecer ao Professor José Soudo, que me orientou há 25 anos atrás, perdendo comigo horas a ver fotografias, a imprimir e a voltar a imprimir, e a ensinar-me que nunca se deve desistir quando o sonho é maior que o sono.
Quero agradecer ao Engenheiro Rui Paiva, porque foi ele que leu a carta dactilografada à máquina de um jovem estudante de Fotografia, e abriu desde logo as portas da mina para que eu descobrisse o que é fotografar na escuridão.
Quero agradecer ao mineiro Santos, o homem que foi um santo em me aturar cada vez que eu vinha, no meu velho Renault 12, de Lisboa até ao Pejão, com a árdua tarefa de fotografar. O Santos foi o meu verdadeiro guia turístico nas ruelas subterrâneas.
Quero agradecer a todos os homens e mulheres que de geração em geração desafiaram o ventre da terra e como soldados bravos desbravaram trincheiras ocultas. Eles e elas são os Mineiros do Pejão. Gente de trabalho, com pernas fortes e braços robustos. Gente suada, molhada e suja. Em cada gota de suor, em cada mancha de água, em cada poro coberto de pó, o Mineiro é digno, orgulhoso e solidário. Convosco não aprendi só as técnicas fotográficas. Essas não valem nada. Convosco, aprendi o que é a vida de quem é honrado. Vocês foram os meus melhores professores. Sem vocês seria hoje outra coisa qualquer. Um obrigado apertado.
Não me quero alongar muito mais. Mas hoje é um dia repleto de felicidade. Permitam-me que divida o meu lamento por quatro etapas: UTOPIA, DIGNIDADE, TRABALHO e FUTURO.
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UTOPIA
Todos os meus amiguinhos de classe (entenda-se escola primária) queriam ser médicos, engenheiros, aviadores, cowboys (agora já temos um), enfermeiras, e eu queria ser arqueólogo. Era estranho. Até eu, nas noites claras, pensava naquela ideia parva da arqueologia. Depois, comecei a ter pensamentos estranhos. Escavar o chão do quarto para ver o que lá estava. Desejar que a enxada do meu avô cavasse o rego das batatas mais fundo para descobrir algum osso. Comecei a ler História e depressa percebi o quanto é importante para o futuro a memória. A Individual e a colectiva. Aliás, no mundo de hoje escasseia a memória. As memórias. Muitas memórias.
Fui crescendo a armazenar memórias. Arqueólogo não fui. E por causa das companhias, as boas e as más, quis ser escultor. No limiar da imaginação, podemos pensar que arqueologia e escultura estão ambas ligadas nas ferramentas e até nos suportes. Mas ao virar da esquina, acabei por ser Fotógrafo. Achei que era uma profissão que conjugava bem a arqueologia, a escultura e as causas. Uma palavra nova que descobri num dia de abril tinha eu 8 anos.
Com a Fotografia eu podia ser criativo. Coisa que sempre gostei de ser.
Com a Fotografia eu podia ser combativo. Coisa que sempre me ensinaram a ser. Devia ter sido mais, mas isso são para outras fibras. De outros homens. De outras mulheres. Fui aluno e depois professor numa escola fantástica. A ARCO em Lisboa. Lá aprendi, criei amizades com raízes profundas, lá ensinei, lá cresci a saber o que queria e para onde ia. E foi um desafio, os alunos eram constantemente desafiados, que me fez vir parar a esta terra.
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DIGNIDADE
O mundo padece de muitos erros. A miséria, a fome, a exploração, a guerra, a decadência. São vergonhas de sociedades injustas em que o poder do mais forte se sobrepõe à humilhação do mais fraco. A Fotografia é perigosa. Cresce como fungos na podridão. Existem fotografias que adoram a miséria. Existem fotografias que ganham prémios com a fome. Existem fotografias “bonitas” (entre aspas) de horrores de guerra. Existem muitas fotografias indecentes. Sem respeito. Sem humanidade. O fotógrafo não pode ser só a ponta do dedo indicador e disparar como abutre. Sacia-se e parte. Para lá da objectiva, estão pessoas. Está a dignidade.
Palavra dignidade. Foi das primeiras coisas que aprendi na ARCO. Muito antes do diafragma, do ISO ou da velocidade de obturação. É importante a técnica, mas mais importante é a dignidade com que se fotografa o fotografado. Podem olhar para mim e pensarem que sou um grande fotógrafo. Não sou. Se vos dizer que não ligo a máquinas com botões a fazer pipis por todos os cantos, objectivas do tamanho de um arranha-céus, conceitos matemáticos de enquadramentos e afins. A técnica não faz a boa fotografia. Eu sou um péssimo tecnicista. Agora, podem olhar para mim e pensarem; então como fotografas? Poderei responder, com o coração.
A Fotografia é a união da cabeça e do coração. É assim que a fotografia é concebida. Depois, a máquina é a ferramenta para auxiliar o parto. Como poderão imaginar, já fiz milhares de quilómetros de filmes, e agora, milhares de gigas. Já vi cenários de horror, já fotografei com as lágrimas nos olhos, já fui muito feliz e já ganhei muitos pesadelos. Já levei imagens para a cama. Este foi o caminho que escolhi. Um caminho tortuoso porque escolhi o caminho das pedras. Escolhi a Fotografia feia, que denuncia, que belisca. Que dói. A Fotografia que incomoda. A fotografia bruta. A fotografia digna.
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TRABALHO
Quando há 25 anos descobri Pedorido, sem GPS e com um carro podre, era um jovem de convicções fortes. E vim à procura da dignidade. Sabia que aqui existiam homens e mulheres diferentes. Trabalhadores pojantes, que remetiam quase para o neo-realismo. Nunca tinha estado numa mina. Nunca tinha estado numa grande fábrica. Nunca tinha contactado com operários de fatos-macacos vestidos. Poderia no caldo revolucionário gritar “Viva os operários!” mas nunca os tinha visto, se não, de camisa branca a descansar ao domingo. Olhava para as mãos e imaginava dureza. Uma coisa é imaginar, outra é ver. E outra é dar a ver.
Era isso que eu queria fazer aqui em Pedorido. Como aprendiz de fotografia, quis trazer do fundo, mineiros de corpo inteiro, cheios de orgulho na luta diária. O carvão caía aos seus pés, rendido pela força de braços e pernas. O suor lavava a cara, o pó transformava rostos em fotogenia. Eu queria levar, o que ninguém via, como os mineiros eram homens dignos. E na escola, alunos e professores ficavam parados a olhar imagens escuras e tensas. E depois, faziam perguntas e eu respondia. E depois, vinha o respeito, a admiração por tamanha profissão. Ficava contente. O papel da verdadeira fotografia estava concretizado. Era aprendiz mas já estava a conseguir. Com dignidade.
Aqui, agora, por baixo dos nossos pés, estão muitas memórias que a água não conseguiu afogar. Todos vós, mineiros dos sete costados, ao acordar ou a almoçar, a trabalhar ou a conviver, tristes ou alegres, existe sempre um fio condutor, que vos faz, por breves instantes, descer a jaula e voltar a desafiar o carvão. É a memória. Este livro é para vocês. Este livro não é meu mas de todos nós. É o meu simples tributo aos homens e mulheres, que de geração em geração, vingaram com sabedoria e tenacidade até ao último dia. De pé. Sempre. Porque o trabalho é dignidade. O trabalho é um direito.
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FUTURO
Se quando os meus filhos conheceram o rosto da mãe, foram dias muito felizes, se quando Timor se tornou independente foi um dia muito feliz, se quando o Sporting foi campeão foi um dia muito feliz, se quando Nelson Mandela foi libertado foi um dia muito feliz, hoje é também um dos dias mais felizes. Nunca mais o esquecerei, tal é o turbilhão de sentimentos. E hoje sou arqueólogo, escultor e fotógrafo. Sou a prova que a utopia também se constrói. No CARVÃO DE AÇO está a utopia de um jovem que sonhava. Estão rostos velhos e novos. Estão sorrisos coniventes. Estão olhares de emoção. Estão mãos empenhadas. Estão marmitas temperadas. Estão adornos de fé. Estão ombros amigos. E em todas as páginas está o hino à vida, com muito labor.
Senhor Presidente. Estamos num espaço sagrado. Com as alavancas, os motores e cabos de aço, homens faziam descer e subir outros homens empenhados nas suas tarefas. Outros faziam transportar o ar para dar vida à mina. Um lugar sagrado. Merece todo o nosso respeito e admiração. CARVÃO DE AÇO trouxe muitos até aqui. Muitos poderão vir. É tempo de dar vida ao Centro do Couto Mineiro do Pejão. Desde já ofereço a Castelo de Paiva todos os meus Direitos de Autor das fotografias que realizei em 1992. É a minha ajuda para que o sonho se concretize.
Mineiros, que este livro repouse nas vossas mesas-de-cabeceira, nas vossas estantes da sala, junto dos vossos crucifixos, junto das vossas bandeiras, e que seja desfolhado vezes sem conta. Por vós, para recordar, e pelos vossos filhos e netos, para aprenderem com orgulho a palavra dignidade.
Um obrigado a todos do tamanho do mundo!”
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A segunda parte deste portfólio e o texto “Para que a memória dos homens não se apague”, de Miguel Carvalho, aqui
Pode ver o livro “Carvão de Aço”, de Adriano Miranda, aqui.
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